4 de janeiro de 2017

Relato Grazi Almeida

Primeira da fila que anda...
Relato de Parto do Lucas – Grazi Almeida
Para contar sobre o parto do Lucas, preciso antes contar sobre o Parto da minha primeira filha: Gabriela. Gabi nasceu através de uma cesariana intraparto. A bolsa rompeu e após 15h sem nenhum sinal de trabalho de parto, começamos a indução com misoprostol. Em pouco tempo já estava em dilatação total, porém sua cabeça estava um pouquinho inclinada (assincletismo). Fiquei 6h no período expulsivo e ela não passou da parte óssea. Partimos para a cesárea após duas bradicardias.

Um ano e três meses depois eu estava grávida novamente. Começamos o pré-natal com a Dra. Quésia e percebi que teríamos um acompanhamento bem mais leve que o anterior. Assim foi. Nada de ultrassons mensais ou outros exames sem real necessidade que só serviam pra me deixar insegura, na maior parte das vezes. Conversávamos muito a cada consulta, o que foi me deixando cada dia mais tranquila para o próximo parto.

Também contei com o apoio da querida doula Lena. Lena se tornou uma pessoa muito querida aqui em casa. Não dá pra falar dos partos sem falar dela. Sua participação foi, de longe, muito importante em todo o processo de (re)construção do novo parto. Ela sabia exatamente meus medos e desafios e me forçou a encarar cada um deles.

Vamos ao que interessa: o parto!

Eu estava bem preocupada sobre o “entrar em trabalho de parto”, afinal isso não aconteceu na primeira gestação. Me pegava pensando se isso realmente aconteceria, se meu corpo saberia fazer isso e pedia a Deus para que a bolsa não rompesse antes e eu entrasse em TP espontaneamente. Assim aconteceu.

Era domingo, manhã de Natal. Estávamos na igreja quando senti uma contração que parecia não acabar nunca, porém era indolor. Logo em seguida, senti algo diferente na calcinha. Corri pro banheiro: era o tampão, bem grande e com muito sangue. Primeiro sinal dado, pensei. Passei o dia todo com contrações irregulares e sem dor. Eram os pródromos. Aproveitei para passear com minha filha e descansar bastante.

Meu marido, já sabendo da situação, deixou a Gabbi com meus pais no final da tarde e me levou pra casa para relaxar um pouco. Opa! Alguém disse relaxar? Bateu a vontade de colocar tudo no lugar e dei aquela organizada na casa. Ele ainda comentou que, após a faxina bebês costumam nascer... esperto ele! Namoramos um pouco e descansamos bastante nesse dia. Gabi voltou a noite.

Acordei 3h da madrugada com uma contração dolorida. Já sabendo que precisavam engrenar, fiz um lanche, deitei no sofá e fui ver TV durante uma hora pra ver o que aconteceria. Percebi que continuaram, mas não contei os intervalos. Entrei em contato com a Lena que me orientou a contar apenas se eu percebesse que estavam aumentando. Como estavam suportáveis pra mim resolvi ir dormir novamente, mas não conseguia. Quando começava a cochilar vinha uma contração e eu acordava. Tentei dormir por algumas vezes sem sucesso, então resolvi que deveria contar pra ver o que estava acontecendo. Estavam de 9 em 9 minutos, aproximadamente. Iria demorar, pensei. Tentei dormir novamente sem sucesso, o incômodo começou a aumentar, porém ainda estava totalmente suportável. Resolvi me alimentar mais, pois se realmente era trabalho de parto precisaria de muita energia. Cerca de 5h30 resolvi contar novamente: 4 em 4 minutos. Lena sugeriu ligar para o obstetra às 7h e combinar uma avaliação. Opa! “O” obstetra? Não era “A” obstetra? Dra. Quesia estava viajando, voltaria dia 27. Enquanto isso consultamos com Dr. Hemmerson que durante a consulta procurou nos conhecer e saber o que esperávamos para o parto.

Nesse meio tempo, Gabi acordou e quis mamar e ver Peppa. Nos deitamos no sofá e as contrações começaram a ficar de 2 em 2 minutos enquanto amamentava. Ela adormeceu rapidamente e resolvi acordar o marido para contar o que estava acontecendo e tomar um banho. Após o banho ligamos para Dr. Hemmerson e combinamos de nos encontrar no Instituto às 8h.

Chegando lá, fui recebida com um abraço pela Lena e logo em seguida Dr. Hemmerson se juntou ao abraço. Me senti acolhida e ao mesmo tempo pensei que realmente deveria estar em TP, afinal a Lena já estava lá com sua roupa de borboletas! Fomos para a avaliação no consultório e recebi a melhor notícia de todas: 6cm de dilatação e colo 80% apagado. UAU! 6 cm e eu nem estava gritando ou engatinhando pelos corredores? Decidimos internar de uma vez, pois eu não moro tão perto da maternidade. 

No caminho a dor começou a pegar. Chegamos na maternidade às 8h30 e fomos direto para a suíte de parto. Comecei a usar o chuveiro e recebi muitas massagens da Lena enquanto a banheira enchia. Pensei que a banheira me aliviaria tanto quanto no primeiro parto, porém a sensação que tive não foi a mesma. Comecei a perceber que estava indo tudo muito rápido, senti um ‘ploc’: era a bolsa rompendo. A partir desse momento, lembro apenas de flashes. Percebi meus gritos característicos de dilatação total, comecei a sentir uma dor muito forte na lombar e pedi analgesia. Nesse momento me arrependi de ter recomendado tanto a equipe a ‘me enrolar’ após o pedido de analgesia. Seguiram o plano de parto e tentaram postergar ao máximo esse meu pedido. Eu já estava pensando: “No próximo plano de parto vou escrever que quero analgesia com dilatação total sem questionamentos! ”. Dr. Hemmerson sugeriu uma avaliação e me disse que eu estava com 9,5cm. Na verdade era 11h30 e eu estava em dilatação total, como desconfiava. Descobri mais tarde que ele não quis me contar a verdade por saber da história do parto anterior e não me deixar preocupada. Recebi analgesia e continuei a sentir as contrações e também a pressão no períneo, o que foi ótimo. Fomos para o banquinho, fizemos agachamentos e eu conseguia sentir o Lucas descendo. 
 Mais tarde o efeito da analgesia passou e comecei a sentir uma dor muito forte no quadril. Era como se ele estivesse abrindo a cada contração. Essa dor foi totalmente inesperada para mim e me tirava o foco. Quando ela vinha eu não conseguia sentir a pressão no períneo, não sentia o Lucas descendo, não sentia mais nada onde deveria sentir. Comecei a perceber que precisava de mais uma dose de analgesia para tirar essa dor e voltar a ter aquela percepção de antes, senão ele não nasceria.

Nesse momento, vendo que eu não estava conseguindo prosseguir, Dr. Hemmerson sugeriu usar o fórceps. Lucas já estava em +2 há um tempo e esta poderia ser a solução. Aceitei rapidamente, pois para usar o fórceps precisaria da analgesia que era meu objeto de desejo. Junto com o anestesista chegou a Dra. Gisele. Ela sugeriu que eu empurrasse a cada contração, pois achava que seria possível nascer sem a ajuda do instrumento. Assim fizemos: recebi a analgesia e comecei a fazer força a cada contração. Meu marido começou a dizer que já estava vendo parte da cabeça e suas palavras foram um grande incentivo. Em pouco tempo a cabeça saiu (com uma circular) e logo em seguida seu corpinho. Lucas foi colocado em meu colo e era como se o mundo tivesse parado ali naquele momento. Suspirei aliviada. Eu consegui: pari num VBAC intenso. Percebi alívio e emoção dos que estavam ao meu redor. Me senti feliz e realizada. Tudo o que lutei, os desafios que encontrei e os medos que enfrentei valeram a pena. A dança de hormônios é maravilhosa, nos proporciona uma explosão de felicidade e nos capacita para a maternidade. Tenho um puerpério muito mais leve e tranquilo do que o anterior e já penso no segundo VBAC em alguns anos. Parto vicia, já me alertavam. 
Escreveu seu relato? Que tal compartilhar com outras mulheres, papais, famílias. Ele é de grande auxílio nesse universo da parturição.
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Um comentário:

Flávia Gomes disse...

Que delícia de relato, Grazi!! Muito emocionante! Parabéns!