3 de janeiro de 2017

Relato de parto Daphine Almeida Bueno


 
Papai - Paulo / bebê - André
Meu amor, deixo aqui registrado o dia que nunca sairá do meu coração.
Sábado, 02 de Julho de 2016.
O sábado começa animado. As malas da maternidade já aguardam o sinal da sua vinda perto da porta da sala. Sete horas de playlist para que você nasça com trilha sonora e checklist impresso para não esquecer nada. Falta pendurar alguns quadrinhos no seu quarto e preparar o restante da casa para te acolher. A bagunça em breve vai passar e a organização virá. 38 semanas e 2 dias, tudo
planejado para te receber.
Domingo, 03 de Julho.
Às 3:08h da manhã, a primeira contração me acorda; espero a próxima para marcar o intervalo. O desejo que você venha pelo parto mais natural possível me faz aguentar firme.
3:48h. Marco a segunda contração. Deixo seu pai, a doula e o médico dormirem mais um pouco. “Com intervalos como esse, estamos longe de um trabalho de parto ativo.”
Às 5:00h, os intervalos já não são assim tão longos... Já respirei e inspirei. Mexi o quadril pra cá e pra lá. Repassei mentalmente todas as técnicas para alívio da dor.
Bora acordar a Lena, nossa doula. A resposta rápida traz segurança:
– A fase latente se caracteriza por intervalos irregulares... Descanse, respire fundo e longo. Vamos nos falando, Daphine.
“Bora acordar seu pai. Tadinho, trabalhou tanto no dia anterior.” Acordado, me oferece todo apoio... Mas a dor, essa é só minha.
Avisamos o médico. Ele parece feliz com o processo. Pede para irmos ao hospital para exame – está acompanhando outro parto.
Digo a seu pai que ajeite as malas no carro e providencie o que precisar. Eu, de cá do banheiro, traço estratégias para sair do chuveiro, enfiar uma roupa e respirar até chegar. Gostaria mesmo era de ser trasladada para a maternidade porque a essas alturas, não me imagino sem os exercícios para alívio da dor. A voz da Rosana cantando a música “Debaixo D'agua” na sessão de Epi-No de sexta-feira
ecoa em minha mente: “mas tinha que respirar...”
– Pronto, pode sair do banho. Tá tudo pronto.
Naquele instante me dou conta que escorre em mim um líquido diferente da água do chuveiro. “A bolsa!” A contração seguinte me leva pro chão. Se eu soubesse que ficaria ali, no chão do box, por uma hora ou mais, teria me posicionado melhor.
– Paulo, não consigo me levantar, liga pro médico!
(...)
– Doutor, ela está no banheiro. Não consegue sair do chão do box!
(...)
– O médico disse que a gente tem que ir para o hospital.
Meu passaporte é imediatamente carimbado para a Partolândia.
– Liiiiiga pra Leeena... Aaai!
(...)
– Lena está num parto. Vai mandar a Rosana no lugar dela. Ela já vai nos ligar.
– A Rô? Graças a Deus!
(...)
– A Rosana disse para você baixar a cabeça e elevar o quadril.
– Não consigo sair dessa posição! Sai daqui!
– Quer um travesseiro?
– Saaaaai!
– Como posso...
– Cala a bocaaaa!
“Meu Deus, agora somos só nós. Vou precisar fazer esse bebê nascer. Ele sabe nascer.”
– A Rosana está vindo e vai trazer uma enfermeira obstetra também, a Odete.
Descubro sozinha que ninguém precisa te mandar ‘fazer força’. O puxo vem. Não tente freá–lo. Ajude seu corpo. Imagine. Respire. Sinta. Deixe o bebê vir!
“Meu bebê está mais perto dos meus braços. Não vou aguentar.”
Grite! (como animal mesmo). Respire! Grite!
–Porque não nasce? Aaaaaaaaaaaai!
“Ai meu Deus! Eu peguei no ar?! Com a mão esquerda?! Nasceu? Nasceu.”
– Senhor, obrigada... (Sussurro.)
Minhas lentes marejadas fotografam aquele momento para sempre. Toda vez, choro ao falar daquele instante. Tão nosso... Aquele elo indivisível... O binômio mãe-filho.
"APGAR do 1º minuto? Desculpe filho, suas covinhas me distraíram. Te olhei inteiro, sabia que estava bem."
Não tem mais dor, só choro: o meu, intenso; o seu, fraquinho. Você me trouxe de volta... Da viagem, volto mãe. Humilde diante da vontade de Deus. Guerreira.
Forte pra te proteger do quê e de quem for. Frágil diante do seu sorriso fácil. Com a voz mais doce do mundo anuncio, ao seu pai:
– Amor, seu filho nasceu.
Essa foi nossa primeira aventura juntos. A maior da minha vida. Experiência espiritual.
Seu pai também foi corajoso. Preparou tudo nos bastidores. Pediu a Deus por nós!
A Tia Rô e o papai me ajudaram a ir pra cama. “Bobagem gente! Tô boa igual a um côco"! No quarto, a Odete clampeou o cordão umbilical, mas foi o papai quem o cortou. Os cuidados continuaram. No conforto da nossa cama, só cabia quem era pra estar ali.
***
Vale lembrar que nossa querida Rosana fez o percurso Nova Lima/Serra em 15 minutos! Quando ela chegou você estava há pouco nos meus braços. Te olhou, me olhou. Nos aqueceu. Nos serviu.
Em seguida, chegou a Odete, que também mora em outra cidade. Naquele domingo estava em BH para participar de um batizado. Graças a Deus ela tinha tudo naquelas malinhas – até Certidão de Nascido Vivo! – e todo preparo e competência. Te pesou, te mediu, fez tudo o que se faz a um recém nascido.
Elas cuidaram da gente até o fim, e mais um tanto.
***
Essa é a nossa história, ou o começo dela.

Por - Daphine Almeida Bueno - As Rodas fomentaram em nós o desejo por informação de qualidade. Ali estabelecemos relacionamentos que esperamos durar para sempre. Os bebês, outrora na barriga, agora já brincam aqui de fora. #vempraroda

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