29 de dezembro de 2016

Relato de parto Flávia Carvalho Linhares

- 24 de novembro - Ei filho!
Parece que foi ontem que você estava dentro da minha barriga, mas já tem quase seis meses que você está aqui do lado de fora. Pouco tempo para caber tanto amor que nasceu bem antes de te parir. Você era duas listinhas no meu exame de farmácia e eu já te amava e alisava a barriga tentando fazer algum carinho em você.
E você chegou. No dia que quis, do jeito que quis, no seu tempo – como tem que ser. A mim, coube o esperar e o pedir e agora o aproveitar e o agradecer.
Chegou sem pedir licença, chegou quebrando todas as minhas ilusões de controle, chegou mudando para sempre quem sou – ou fui.
Eram 2h30 da manhã e eu acordei com aquelas 3 contrações que já havia sentido nas últimas duas semanas no mesmo horário. Eu juro, senti que era o dia, mas era tão maravilhoso que esperei calada, deitada e em silêncio. Contei: uma, duas, três. Mas veio a quarta, a quinta...a décima.
Peguei o celular e quis marcar o intervalo. Na cabeça, duas vozes duelavam. Uma tinha certeza que você estava chegando, a outra me dizia que eram pródromos.
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As mãos meio trêmulas de ansiedade, abri o aplicativo. Antes de marcar o papai acordou. Eu então transformei em palavras o que já sentia no coração: “O Rafa vai chegar hoje”. Hoje! Naquela quarta-feira, primeiro dia de junho de 2016. Quando completávamos 40 semanas juntos! E eu dizendo a todos que achava que você só viria em dezembro. Tava frio aqui fora e você queria o quentinho lá dentro.
Mas você veio mesmo com frio. Mesmo com meus medos e inseguranças sobre seu peso, a suspeita de CIUR. Torcendo e rezando para que desse tudo certo e já aprendendo que mesmo amando alguém mais do que a você mesmo, não se tem o poder de protege-lo de tudo. Estava ali minha primeira lição como mãe.
As contrações estavam ritmadas em 4 a cada 10 minutos. E a cada contraída do meu útero, eu sentia você mais perto dos meus braços.
Às 9h25, a bolsa rompeu. Um susto. Mecônio. Fosse qualquer outro lugar, fosse quaisquer outras pessoas e você seria tirado às pressas em uma cirurgia cesariana. Mas estávamos com nossos anjos da guarda a postos. A enfermeira obstetra Míriam Rego chegou na nossa casa pouco tempo depois. Ouvimos seu coração e naquele palpitar tão forte e ritmado, encontrei as forças que eu precisava para acreditar em mim e em você. Íamos nascer juntos!
Mamãe almoçou com vovô e papai, parando de vez em quando pra sentir as ondas que seu mar me traziam. De tarde comi caqui enquanto usava o TENS (maravilhoso, amigo fiel rsrsr), tem até vídeo pra você ver daqui um tempinho.
Foi a vez do Walter, nosso enfermeiro e anjo de luz chegar e tomar o posto da Míriam. As contrações mais fortes. A mão firme segurando a da mamãe e era a Lena lá com a gente! Vinha contração e as mãos firmes dela nas costas da mamãe davam aquele segundinho de respiro para lembrar do porquê estarmos ali. Era você vindo.
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Exame feito, 4cm de dilatação. Um animo! Tinha sido bastante suportável até então.
Dos 4 aos 6 cm foram horas sem fim. Papai com a mamãe na banheira. Mamãe xingando quando alguém encostava nela. E isso tudo aqui na nossa casa! Olha que coisa boa, esperando você bem aqui no nosso cantinho.
Com quase 6 cm fomos para o hospital Sofia Feldman. Sim! Escolhemos ir para o Sofia, pois sabíamos que seria o melhor lugar para nos acolher e termos um parto seguro e com o mínimo possível de intervenções.
Lá chegando exame feito e estava com 6 cm de dilatação. Na cabeça matemática da sua mãe fiz as contas e já senti que precisaria guardar forças. Eram 20h55 da noite e faltavam 4 cm e o expulsivo. Será que conseguiríamos? Tinham sido muitas horas de ansiedade, nervosismo, medo!
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Fiquei no chuveiro, papai sentado em um banquinho bem perto. Lena ajudando a mamãe a fazer exercícios na bola. Fomos para a banheira cerca de 40 minutos depois da entrada no hospital. Mais um tempinho de banheira (que pareceram horas), com papai na água com a gente, tendo os braços apertados a cada contração e comecei a sentir vontade de empurrar. A Lena pegou uma lanterninha e olhando pela água disse “Se isso não é 10 cm....”. E me perguntou: “esta sentindo vontade de fazer força?” e eu só consegui balançar a cabeça. Ela completou “então faz! Escuta seu corpo”.

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Foram alguns puxos na água da banheira, não sei quantos. Parecia uma leoa, sentia você vindo e tinha uma força capaz de empurra não só você, mas o mundo. Eu nunca vou conseguir explicar este momento. É visceral, animal, intenso. É puro, prazeroso. Sim!
Já sentia seu cabelinho ao colocar os dedos, papai todo animado. Ai o Waltinho nos disse que era hora de deixar a banheira (poxa, mas tava tão bom!). 13 hrs de bolsa rota e mecônio fizeram com que fosse mais seguro você não nascer na água. Coisas que aprendemos com a maternidade: as coisas não serão como você espera, e sim como tem que ser!
Papai pediu ao Waltinho que a mamãe ficasse na banheira mais uma contração, ao que ele respondeu: “Na próxima contração seu filho vai nascer!”.


Sai da banheira e sentei na banqueta de parto. Vovó apoiando as costas da mamãe e o papai esperando para te receber. E você veio! Com círculo de fogo, te antecedendo, você coroando. Mais uma contração e estava nos braços do papai, que colocou você imediatamente no colo da mamãe.
Abriu um olho, me olhou, mexeu as mãos. Abriu o outro olho. Só depois chorou. O melhor som do mundo. Apgar 9/10, para aliviar o coração da mamãe.
 
22h14 você estava aqui fora vendo o mundo. Apenas 1h19 minutos depois de chegarmos ao Sofia.
Foi como se o mundo começasse a girar da sua barriguinha. Meu centro gravitacional era ali, em você!
 Quando o cordão parou de pulsar o papai cortou. Mamãe te amamentou enquanto a placenta saia, com alguma ajuda do Walter.
Alguns pontinhos foram necessários, porque a mamãe se empolgou na força rsrs (laceração de grau 1)Então filho, se hoje você é adulto e terá um filho, acompanhe a mãe, estude, acredite nela. Faça como seu pai, que acreditou nas minhas escolhas, me acompanhou em tudo e ajudou a você vir ao mundo da melhor maneira, mesmo sendo PIG – pequeno para idade gestacional, bolsa rota, mecônio. Ter as pessoas certas do seu lado faz toda a diferença!
Obrigada sempre ao Dr. Lucas Barbosa, a Miriam Rego, ao Walter, a nossa doula querida Lena e a vovó, que fez parte de tudo e te viu vir ao mundo!
Ao papai, não há como agradecer, porque este parto foi dele também. Foi de nós três!
Te amo meu filho! Obrigada por realizar o maior sonho de todos, o de ser mãe! De ser sua mãe!

Gratidão a toda equipe do Hospital Sofia Feldman que acolheu a mim e minha família tão bem, com tanto profissionalismo e carinho.

Gratidão a todas as doulas e integrantes da ONG Bem Nascer( Bel Cristina, Vanessa Aveline, Rosana Cupertino, Daphne Paiva Bergo e Lena Rubia Borgo Bezerra) que fora luzes cintilantes em todo o processo de empoderamento para nosso parto!
 
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