30 de outubro de 2016

Relato de parto Maíra Fonseca

Finalmente compartilho meu relato de parto domiciliar não planejado, mas muito sonhado!

Há pouco mais de cinco meses recebi um grande presente e vivi a experiência mais marcante e transformadora da minha vida. Cecília nasceu de um lindo, rápido, inesperado, intenso e suave, parto em casa, mostrando que a vida pode ser mais simples, leve e natural e que, na verdade, temos pouco controle sobre ela. Depois de uma cesariana bem indicada e um parto normal hospitalar que me trouxeram meus dois primeiros filhos, desta vez planejei um parto natural também na maternidade. O parto humanizado, que coloca a mulher como protagonista, respeitando seus desejos e limites, já era uma convicção pra mim. Na gestação da Cecília cheguei a desejar e cogitar um parto domiciliar, por uma série de questões a ideia foi descartada e passei a me preparar para nosso grande encontro na maternidade. Eu descartei a possibilidade e fui me convencendo de que não precisava ser em casa, que eu poderia ter o parto desejado no hospital, que não seria tão diferente assim, que um parto domiciliar era um sonho lindo, mas distante pra mim. Eu descartei a possibilidade, mas ela não! Talvez pelo íntimo e profundo conhecimento dos desejos, necessidade e possibilidades da mãe, não sabemos ao certo. Também não chamo de acidente e sim de um lindo presente. A gestação da Cecília foi vivida de uma maneira simples e intensa, a Yoga, fisioterapia, participação nas rodas e cursos de gestantes, leituras, trocas de informação e experiência foram fundamentais e compensaram o fato dela não ter um lindo quarto montado, enxoval impecável, chá de fraldas ou lembrancinha de maternidade prontos no momento do seu nascimento.

Foram apenas 03 horas intensas de trabalho de parto ativo. Às 05h45 da manhã do dia 17/05/16 acordei com o rompimento da bolsa, assim que levantei comecei a sentir cólicas leves, como um sinal de que o trabalho de parto iria começar. Mas não imaginei que fosse evoluir tão rápido, tendo em vista minhas experiências anteriores quando fiquei com a bolsa rota, sem entrar em trabalho de parto ativo por 12 / 18 horas. Ainda conseguia realizar minhas atividades normais, entrei pro banho, comecei a aprontar a Clara pra ir pra escola, conversei com ela que a chegada da irmã estava próxima, mandei uma mensagem para Rosana, minha Doula, liguei pra minha mãe. Às 07h00 minha mãe chegou em casa e levou a Clara pra escola, liguei para o Dr. Marco Aurélio, meu obstetra. Relatei o ocorrido e combinamos de nos encontrar às 09h15 na maternidade. Às 07h30 com cólicas mais intensas percebi que perdia sangue depois de cada contração. Preocupada liguei para o Dr. Marco Aurélio e Rosana de novo que me tranquilizaram dizendo que provavelmente era só a dilatação do colo do útero. Continuamos com o combinado de encontrar na maternidade às 09h15. Então entrei de novo pro chuveiro, com a intenção de me lavar de novo, tomar café da manhã e ir pra maternidade. Mas no chuveiro as dores e contratações se intensificaram, sem pensar, adotei posturas e mentalizações da Yoga. A água e as posições aliviavam muito a dor, e no intervalo das dores e contrações, cada vez mais curtos, mais perda de sangue. Tentei sair do chuveiro e não conseguia, por três vezes cheguei a desligá-lo, mas as contratações intensas me chamavam de volta. Fiquei por mais ou menos 01 hora no chuveiro. Neste tempo tudo passou pela minha cabeça, confiança, medo, arrependimento pela minha escolha, lembrança das minhas ancestrais, em especial minha avó Cecília (quem já vinha evocando na últimas semanas de gestação) e confiança de novo. Mentalmente eu repetia o mantra que construí ao longo da gestação, mas que somente durante o trabalho de parto se concretizou pra mim – Entrega I Confia I Aceita I Permite. Depois de 01 hora no chuveiro, idas e vindas da minha mãe e Bernardo me alertando do avançar da hora, percebi que tinha de sair do banho, de qualquer jeito. As dores não dariam intervalo maior, pelo contrário, tinha certeza de que cada contração estava aproximando minha filha de mim. Elas não iam suavizar e dar um tempo maior até que Cecília nascesse. Precisava ir, seja como fosse. Tinha um horário marcado com meu obstetra. Enquanto eu estava no chuveiro Bernardo e minha mãe se organizavam pra sairmos para a maternidade. Bernardo se comunicou com a Rosana e decidiram que era melhor ela vir pra casa para nos ajudar a sair pra maternidade. Com a ajuda da minha mãe, mais ou menos 08h30, saí do chuveiro, com contrações e dores muito fortes. Conseguimos me vestir, escovei os dentes e comecei a andar de um lado pro outro entre meu quarto e o banheiro social. Precisava encontrar posições que me ajudassem a suportar a dor, enquanto o Bernardo terminava de preparar o carro. Agachava apoiada na pia do banheiro e vocalizava. Até que depois de algumas contrações, em três apoios no chão do meu quarto, percebi que as dores descomunais estavam dando espaço para uma espécie de queimação, e neste momento, senti uma pressão, uma força de expulsão mas que não era voluntária. Bernardo me fez massagem nas costas enquanto eu estava nesta posição e também foi assim que a Rosana me encontrou quando chegou. Ela me ergueu, abanou, e disse que precisávamos ir, que eu deveria estar na fase expulsiva. A presença dela me confortou muito e me lembro de dizer pra ela que Cecília estava chegando. A Rosana então me disse que, sem me tocar, ia tentar identificar em que fase do trabalho de parto eu estava. Então, uma tentativa de ficar sobre a cama. Foi em vão. Uma contração forte me levou para o banheiro e de lá às pressas a Rosana me trouxe de volta pra cama. Ela percebeu que minha filha estava pra nascer e de repente chamou o Bernardo para aparar nossa filha. Assim ela nasceu, às 08h45 da manhã. Sem avisar, sem pedir permissão, sem que planejássemos, sem que eu desse nenhum grito, silenciosa e tranquilamente. Mais do que eu podia sonhar, mais do que eu podia desejar e imaginar. Exatamente na presença das pessoas que eu intimamente desejava ter por perto, exatamente onde eu queria que acontecesse. Ficamos por alguns instantes chocados, em êxtase, tomados pela emoção. Cecília nasceu sem chorar, veio pro meu colo, na minha cama, ainda ligada à placenta pelo cordão.

Mas não bastava ela ter nascido bem, para que tudo acabasse em segurança, eu precisava expulsar também a placenta. A Rosana, imediatamente, ligou para a Odete, enfermeira obstetra. Relatou pra ela o ocorrido, mandou fotos e vídeos. Ligamos também para o Dr. Marco Aurélio. Precisávamos tomar uma decisão – ir para o hospital ou permanecer em casa. Um instante de dúvida até que, mais uma contração e um pouco de força, a placenta saiu, íntegra. Eu já não tinha mais dúvidas, tinha terminado, assim como começou, de maneira natural, sem interferências, assim como todas as mulheres pariram até menos de 100 anos atrás, sozinhas, assistidas por outras mulheres, sem intervenção, como um evento fisiológico e natural. Liguei eu mesma para o Dr. Marco Aurélio, relatando novamente tudo o que tinha acontecido. Ele percebeu o quanto eu estava bem, disse que quando acontece algo assim, é o destino agindo. Me deixou livre e tranquila para tomar decisão de ficar em casa. Chamamos então a Odete que nos prestou os primeiros atendimentos. Eu não tive nenhuma laceração. Cecília estava ótima, com todos os sinais vitais dentro do esperado. Odete clampeou o cordão, depois que ele parou de pulsar, e depois da primeira mamada da Cecília, o Bernardo cortou o cordão umbilical. Bernardo, minha mãe, Rosana e Odete mediram, pesaram, limparam e vestiram Cecília, enquanto eu tomava banho com o Francisco, desde então meu filho do meio, pouco mais de duas horas depois do parto. Tudo na nossa casa. Clara chegou da escola e pôde conhecer a irmãzinha. Meu pai e minha irmã chegaram em casa, recebi pessoas queridas na sequência, almoçamos todos juntos, com Cecília no moisés na sala. O dia transcorreu assim, como uma grande festa, estávamos transbordando de felicidade e emoção. À noite coloquei meus filhos maiores pra dormir, como de costume, na minha cama, com a pequena Cecília dormindo também ao lado, na sua primeira noite neste mundo.

Não foi obra do acaso. De cinco anos pra cá, desde a gestação da Clara, tive a sorte de cruzar em meu caminho com pessoas e profissionais extremamente HUMANOS, que me apresentaram caminhos que até então eu desconhecia. Luciana Dietze, você foi a primeira pessoa que falou comigo em parto humanizado, em Cabeça de Boi. De lá pra cá meu carinho e admiração por você só aumentam, sou muito grata por ter você como amiga! Dr. Marco Aurelio Valadares, minha admiração e respeito por você só crescem, até mesmo quando você não assiste meu parto presencialmente! Você faz parte da história da minha família. Lena Rubia Borgo Bezerra, minha doula no parto do Francisco, minha gratidão e admiração eternos, você deixou sua marca nesta construção, e como o Universo conspira mesmo, Cecília sabia que você não teria chegado a tempo! Rosana Cupertino, o que dizer de você? Doula, professora de Yoga, fisioterapeuta, anjo, amiga, um grande presente que recebi nesta gestação. Sem você com certeza as coisas não teriam acontecido como aconteceram, serei eternamente grata. Re Gomide, minha amiga irmã, mais um presente guardado pra ser revelado neste momento tão especial. Há pouco mais de um ano fomos buscar nossos anjinhos no paraíso, que elas sejam muito felizes, e tragam ainda mais paz, amor e harmonia para as nossas famílias e perpetuem nossa amizade. Odete Pregal Monteiro Candido, até então, era para mim como um mito, um sonho distante, mais um anjo que apareceu na hora certa, para concretizar este sonho e permitir que continuássemos em casa, depois de termos vivido nossa grande aventura da vida! Mãe, Maira Tereza da Fonseca, como posso expressar minha gratidão e felicidade por ter você como minha primeira e eterna professora, sempre me apoiando. Você é inspiração, força e segurança. Assim como a Ti, Aninha Correa, vocês são exemplos de mulheres fortes e guerreiras, muito importantes pra mim nesta construção e em todos os momentos da minha vida. Bernardo Carmo Krauss, meu companheiro e parceiro de vida, o que eu desejo pra nós é que a gente aproveite ao máximo a oportunidade, não só desta experiência, mas da convivência diária com nossos filhos para evoluirmos todos os dias. Obrigada por dividir comigo esta aventura! Agradeço imensamente também a todas da ONG Bem Nascer, pelo maravilhoso trabalho que promove mudanças na vida de tantas mulheres e famílias e minhas colegas de Yoga pela convivência e troca durante a gestação da Cecília, tão importantes pra mim.

E o que dizer mais sobre esta experiência? Transformadora, oportunidade de autoconhecimento, auto encontro, superação, conexão consigo, com outro ser e com o divino. Talvez a mais transcendental das experiências humanas. Mas é um parto, um ritual de passagem, um ponto de partida, um começo. Aprendi que ao refletir e fazer escolhas com relação ao nascimento de um filho, estamos nos preparando não somente para o parto, que é um evento fisiológico sobre o qual pouco temos controle, mas na verdade estamos nos preparando e nos renovando para receber a nova vida, para o desafio maior que é a maternidade. E nós mulheres, sabemos parir, precisamos nos informar para, através do racional, alcançar a confiança e liberdade necessárias para viver instintiva e intensamente este momento que é um dos mais importantes na vida de uma mãe e seu filho.
 

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