18 de outubro de 2016

Relato de parto Ana Schneider

Eu sempre desejei ter um filho por parto normal. Não queria fazer parte da estatística das cesáreas eletivas, pois desejava viver o processo do parto em toda a sua intensidade… receber meu bebê na hora em que estivesse pronto para nascer e, acima de tudo, queria ter papel ativo no seu nascimento. E foi na reta final da gravidez que eu percebi que, para parir, a gente exerce um papel de protagonista, mas também precisa saber se entregar.

Eu tive uma gravidez super saudável, graças a Deus, sem qualquer intercorrência relevante. Mas por volta de 30 e poucas semanas de gestação, passei a sentir muita fraqueza e tontura diariamente. Algumas atividades diárias se tornaram mais difíceis, e isso começou a me deixar bem frustrada. A essa altura eu já considerava ter um parto natural, mas comecei a questionar se seria mesmo capaz de parir. Será que eu saberia lidar com a dor do parto? Teria força para empurrar meu bebê? Eu aguentaria horas de trabalho de parto? Até que, após quase desmaiar na rua voltando do trabalho, fui me consultar com a Dra Quesia, chorando: “como eu vou conseguir passar por um parto normal ou natural se ontem eu não consegui nem andar alguns quarteirões até meu carro pra ir embora pra casa?”. Aqueles sintomas eram apenas o somatório de uma leve anemia, com minha pressão baixa que andava ainda mais baixa na gravidez, além do cansaço da rotina de trabalho e faculdade. Não tinha nada com o que se preocupar. E, além de uma receita de suplemento de ferro e um atestado médico para repouso por alguns dias, a Dra Quesia me recomendou desacelerar e tirar um tempo para visualizar meu parto, me preparar mentalmente. “Você não precisa fazer nada, o seu corpo vai saber fazer tudo na hora”, ela disse, me tranquilizando. Naquele dia, então, eu percebi que aquela frustração com minha fraqueza e cansaço não era apenas pela dificuldade em fazer certas atividades, mas também pela minha incapacidade de controlar meu próprio corpo. E aí eu entendi que, desde a concepção, quem era dono do meu corpo era meu bebê. Meu corpo estava todo voltado para que ele crescesse e se desenvolvesse. Então, por que no parto seria diferente? Ao decidir parir, você escolhe o imprevisível, o incontrolável. Você precisa então confiar nos seus hormônios, nos seus instintos, na natureza comandando seu corpo. E por isso, naquele momento, então, eu entendi que para parir, é preciso estar entregue.

Comecei a fazer aula de yoga para gestantes, que foi essencial para acalmar minha mente. Foi também onde aprendi o mantra “aceitar, confiar, permitir, entregar”. Aceitar a dor, confiar no meu corpo, permitir a passagem do meu bebê, me entregar. E foi esse mantra que repeti mentalmente até 39 semanas de gestação, quando entrei em trabalho de parto.

No domingo, eu já sentia minha bebê mais encaixada e estava perdendo tampão. Na segunda de manhã, começaram as contrações, bem leves e espaçadas. Eu já estava de licença maternidade e passei o finalzinho da manhã caminhando na área do meu prédio, tentando lembrar de olhar o relógio para ver se as contrações já seguiam um ritmo. Eu dava voltas na quadra, enquanto mentalizava aquele mantra e conversava com minha filha, dando a ela as “boas-vindas”. Estranho como eu estava extremamente tranquila. Apesar do friozinho na barriga, aquela era a hora certa… a hora que minha filha estava pronta para nascer e eu estava pronta para recebê-la, sem medos, da forma como tivesse que ser. André chegou em casa e demos mais umas voltas juntos, lembrando de vários momentos da gravidez. Mal podíamos acreditar que, finalmente, o dia de conhecer nossa filha tinha chegado!

Nós almoçamos e, enquanto André trabalhava em casa, eu tirei uma boa soneca a tarde, acabei de arrumar minha mala e descansei o máximo que pude para poupar energia. No final da tarde, as contrações começaram a ficar mais fortes, mas ainda suportáveis. Minha irmã passou na minha casa com meu sobrinho e, durante cerca de uma hora, eu tentei disfarçar cada contração que vinha, correndo para o banheiro e voltando, afinal, como eu não sabia se entraria em parto ativo naquela noite ainda, não queria gerar expectativas em ninguém, não queria ficar ansiosa. Pouco depois que minha irmã foi embora, André começou a cronometrar as contrações e, por volta das 20h, elas já estavam ritmadas e mais fortes, vindo a cada cerca de 3 minutos. Enquanto ele entrava em contato com a Dra Quesia e a Bel (minha doula), passei um tempo no chuveiro… A água morna era um alívio, parecia arrancar a dor com a mão.

Chegamos na maternidade às 22h e lá a Bel e Dra Quésia já nos aguardavam. Dra Quesia me deu os parabéns com um abraço. Como foi bom ser recebida com essa leveza… Enquanto esperávamos a suíte de parto ficar pronta, eu percebi então que as contrações estavam vindo mais espaçadas e mais fracas e perguntei se poderia ser alarme falso. André me olhou incrédulo, enquanto a Bel nos explicou que aquilo era efeito da mudança de contexto, do ambiente desconhecido, da luz, das pessoas estranhas ao redor. A ocitocina é inibida com esses fatores, mas logo meu corpo voltaria ao ritmo… Entramos na suíte e, para nossa surpresa, o colo do meu útero já estava com 7 cm de dilatação. Um longo caminho já havia sido percorrido! E foi então que, na suíte à meia luz e com as músicas que escolhemos para tocar, meu corpo voltou ao ritmo e as contrações voltaram ainda mais fortes. Fiz exercícios na bola do Pilates, me movimentei, recebi massagens da Bel… o tempo todo André estava comigo, me dando força, me dando água na boca, me dando as mãos para que apertasse forte… Fomos para o chuveiro, mas a água morna já não era mais suficiente para inibir a dor. À essa altura, eu já não conseguia mais abrir os olhos, estava voltada para dentro. Fui para a banheira e algum tempo depois, passei a ter vontade de fazer força para empurrar. As contrações estavam muito fortes e o intervalo entre elas era curto demais. A cada contração, eu pensava “não luta contra a dor, apenas mergulha na onda”, e imaginava que, após mais algumas ondas eu alcançaria meu bebê. E apertava forte as mãos do André… Mas por mais força que eu fazia, parecia que não evoluía… a cada contração, eu ficava ofegante e tremia, até que, finalmente pedi por anestesia. Dra Quesia então fez o exame de toque e me disse que já estava sentindo a cabeça da minha bebê. Faltava tão pouco… a Bel me explicou que, se eu quisesse mesmo anestesia, eu teria que sair dali, me secar e possivelmente ter que ir para o bloco cirúrgico. Tudo o que eu menos queria naquele momento era uma mudança de contexto, sair da posição em que eu estava parecia impossível. Além disso, eu sabia que, àquela altura, a anestesia poderia atrasar o parto. É claro que meus pensamentos não estavam tão bem elaborados naquela hora, eu estava na “partolândia”… quando me perguntaram se eu queria mesmo a anestesia, apenas balancei a cabeça que não. E mal pude acreditar que teria mesmo um parto natural, que tanto desejei, e que até então não sabia se conseguiria!

Depois de algum tempo na banheira, Dra Quesia sugeriu que eu fosse para o banquinho de cócoras, pois a posição que eu estava atrasando a fase do expulsivo… Ao sentar naquele banquinho, senti minha bebê literalmente descendo! Que maravilha a força da gravidade! Aquilo me deu uma injeção de ânimo! Em pouco tempo eu já senti o “círculo de fogo”, muito intenso, quando então ouvi a dra Quesia falar baixinho “vou fazer uma manobra”. Pensei se havia algo de errado e aquilo me incentivou a fazer o máximo de força que eu era capaz… Foi aí que, às 03:50 ouvi “Ana Cláudia, sua filha” e, ao abrir meus olhos, ela estava chegando nos meus braços. No mesmo segundo em que vi meu bebê, a dor desapareceu! E tudo o que eu enxergava, naqueles minutos seguintes, era apenas minha filha, toda perfeitinha… que mágico pensar que ela havia mesmo saído de dentro de mim…que sensação maravilhosa sentir meu corpo trabalhar para trazê-la ao mundo… Estávamos nós duas contato pele a pele e tudo ao redor parecia um pouco borrado, como se eu estivesse planando no ar. Eu tento descrever o que senti naquele momento, mas até hoje parece um pouco irreal… uma emoção única, intensa demais… Enquanto a pediatra olhava a Helena, fui guiada para a cama, onde, poucos minutos depois, passei pela expulsão da placenta… após me examinar, Dra Quesia me informou que eu não precisaria levar nenhum ponto!

Helena nasceu com duas circulares de cordão no pescoço. A manobra que ouvi Dra Quesia falar baixinho era o corte do cordão que estava bloqueando a expulsão do corpo do meu bebê. Quando eu soube disso, foi um alívio saber que eu estava nas mãos da equipe certa. Não por pensar que minha filha estava correndo risco, mas por saber que, circular de cordão é utilizada por alguns obstetras para que seja realizada uma cesárea desnecessária. Pelo contrário… Eu vivi o parto que sonhei, sendo protagonista, sentindo cada contração, cada sensação das horas mais intensas da minha vida…Helena foi recebida com respeito e nós duas, junto ao André, não poderíamos estar mais bem acolhidas para viver esse momento. E enquanto ela nascia, eu senti em mim uma força que até então eu desconhecia.

Agradeço ao André, que se abriu para viver a experiência mais forte e transformadora das nossas vidas, que também teve papel ativo no nascimento da nossa filha, me apoiando em cada minuto ao longo daquelas horas de trabalho de parto. À dra Quesia, não apenas pela sua competência como médica, mas também pela sensibilidade com a qual exerce a profissão. À Bel, pelas mãos que fizeram massagens e pelas palavras nas horas certas. A minha irmã, que foi a primeira a me abrir para o parto humanizado, me permitindo assistir ao nascimento do meu sobrinho, a minha mãe, que me apoiou desde o início e à Rosana, pelas aulas incríveis de Yoga e pelo mantra que foi essencial nesse processo.
Parto do André e da Ana CLaudia

Nenhum comentário: