25 de julho de 2016

Relato Re Gomide

Há pouco mais de um mês, vivi a experiência mais incrível da minha vida: o nascimento da minha florzinha, Clarice, por meio de um lindo parto natural podálico (quando os pés vêm primeiro). Mas, antes de contar sobre esse parto, acho importante fazer um breve relato do nascimento do meu primeiro filho, Gabriel, já que foi a busca por um parto totalmente diferente do dele que me levou ao parto dela.
Gabriel nasceu de parto normal há sete anos. Àquela época, as informações sobre os benefícios do parto natural não eram muito difundidas e, pelo menos pra mim, os partos eram “classificados” apenas como “normal” ou “cesárea”. Tudo que eu queria era um parto normal, pois tinha certeza de que essa era a melhor via de nascimento para a mãe e o bebê. No entanto, apesar de achar que eu era bastante informada sobre o assunto, eu não sabia que os procedimentos ditos “protocolares” no parto normal podem ser muito prejudiciais. Hoje sei que fui submetida a uma série de intervenções totalmente desnecessárias, sendo mais uma vítima de violência obstétrica.
Bem, como sempre quis ter outro filho, continuei me envolvendo em tudo que dizia respeito aos temas gravidez e parto, e fui tendo cada vez mais acesso a informações que me fizeram entender que um parto não só pode como deve ser diferente do que eu havia tido. Quando engravidei da Clarice, eu estava decidida a fazer com que as coisas fossem melhores desta vez. Desde o início, eu sonhava com o nascimento dela e minha vontade de ter um parto em casa foi crescendo a cada semana da gestação. Li bastante a respeito e conversei muito com meu marido. Resolvemos, então, entrar em contato com uma enfermeira obstetra e parteira, que nos deu todas as informações necessárias e sanou nossas dúvidas sobre o parto domiciliar, nos deixando seguros para decidirmos ter nossa filha em casa. Preparamos tudo que era preciso para o tão sonhado evento, que chamávamos de “festa de recepção da Clarice”. Só faltava uma coisa: como ela estava sentada, era preciso que virasse e ficasse na posição cefálica, ou seja, de cabeça para baixo. Fiz de tudo para que isso acontecesse: moxa, acupuntura, exercícios, homeopatia, yoga, massagem, lanterna na barriga, até plantar bananeira na piscina (!). Mas cheguei à 36ª semana e ela continuava sentada. Fiquei bastante preocupada, pois, se ela continuasse assim, além de o parto domiciliar não ser possível, muito provavelmente eu seria submetida a uma cesárea, já que, pelo que eu sabia, somente alguns médicos plantonistas da Maternidade Sofia Feldmann estão preparados para fazer o parto pélvico. Ir para lá seria uma opção, mas, como essa maternidade fica bem longe da minha casa, eu não queria correr o risco de chegar lá em trabalho de parto já avançado e, ainda assim, ser submetida a uma cesárea. Além disso, o médico que me acompanhava não recomendava o parto pélvico, pois, para ele, trata-se de um procedimento extremamente difícil e que pode ter muitas complicações. De toda forma, resolvi buscar informações sobre esse modo de nascer. Li relatos e artigos na internet e assisti a vídeos que me mostraram que o parto pélvico não é esse bicho de sete cabeças pintado por muitos, pelo contrário, em vários países, ele é bem comum, principalmente porque apresenta muito menos riscos do que a cesariana. Além disso, até pouco tempo atrás, inclusive no Brasil, tratava-se apenas de um tipo de parto. O fato é que, hoje em dia, os médicos não são mais treinados para ele e, por isso, optam sempre pela cesárea.
Determinada a ter um parto domiciliar, com 37 semanas, fiz a versão cefálica externa (VCE), uma manobra em que o médico tenta virar o bebê pelo lado de fora da barriga da mãe. Mas essa técnica também não deu certo e o parto domiciliar teve de ser descartado. A princípio, fiquei frustrada, mas, depois, compreendi que essa era a escolha da minha filha e eu precisava respeitar. Percebi que era preciso entregar, confiar, aceitar e agradecer o que quer que acontecesse. Decidi, então, deixar rolar e esperar entrar em trabalho de parto.
Com 38 semanas, comecei a sentir fortes contrações durante o dia, que se intensificaram à noite, mas, como estavam irregulares, fiquei tranquila, até porque eu tinha uma consulta marcada com meu médico no dia seguinte. Pela manhã, a secretária me ligou desmarcando a consulta, pois ele havia ido para a maternidade com uma paciente em trabalho de parto. Remarcamos para o dia seguinte. Nesse mesmo dia à tarde, perdi o tampão e fiquei apreensiva. Ao conversar com minha professora de yoga (que ia ser minha doula também), ela me aconselhou a ir para a maternidade naquela mesma noite, apenas para checar como estavam as coisas. Fui, então, para a Maternidade da Unimed, que fica bem perto da nossa casa. O médico da triagem logo me encaminhou para a internação, pois eu já estava com 6 cm de dilatação (!!!). Como a Clarice continuava sentada, ele afirmou que eu não teria outra escolha a não ser fazer uma cesariana. Subi resignada. Mas, quando conversei com a médica plantonista, tentei uma última cartada: falei que, se ela fizesse, eu topava o parto pélvico. Um senhor que estava próximo começou a gargalhar e falou: “Eu não disse que tem quem tope?!”, e saiu rindo. Eu não entendi nada. A médica, então, disse que eu era muito sortuda (eu digo “abençoada”), pois estavam lá, fora de seus plantões, com pacientes particulares, dois médicos bastante experientes nesse tipo de parto e que, se esse era mesmo o meu desejo, ela iria conversar com eles e verificar se poderiam me assistir em meu parto. Fui encaminhada para o centro cirúrgico e fiquei lá aguardando com meu marido. Enquanto isso, a intensidade de minhas contrações só aumentava. Como já estava bem tarde da noite e eu ainda não sabia o que iria acontecer, não chamei minha doula para me acompanhar, mas pude contar com o apoio de uma doula de plantão.
Finalmente, a médica voltou com um dos médicos (aquele senhor da gargalhada... rsrs), que me examinou e verificou que eu preenchia todas as condições de segurança para esse tipo de parto: era o meu segundo filho e o primeiro havia nascido de parto normal (ou seja, se um bebê já tinha passado pela minha bacia, o outro também passaria), minha filha não era grande demais, tive uma gestação sem intercorrências e o trabalho de parto estava evoluindo muito bem. Ele, então, se dispôs a me assistir em meu parto. Fiquei em êxtase de tão feliz!!! Ele observou também que seria um parto podálico, ou seja, que ela nasceria pelos pés, o que é ainda mais raro do que o parto pélvico, que é quando a bundinha vem primeiro. Achei isso o máximo!
Por volta das 4 da manhã, fomos encaminhados para a suíte PPP (pré-parto, parto e puerpério), que, de tão confortável, mais parece uma suíte de hotel. A luz baixa e o som ambiente nos deixaram bem tranquilos e relaxados. Logo entrei na banheira e dormi lá. A essa altura, eu já estava com 8 cm de dilatação, mas parece que esse banho retardou o trabalho de parto e fez com que eu estacionasse nos 9 cm por 4 horas. Para não correr o risco de parar totalmente o trabalho de parto, o médico achou prudente recorrer à ocitocina. Até então, eu não tinha tomado nada. A enfermeira demorou para aplicá-la e, assim que a colocou no soro, imediatamente minha bolsa estourou e eu entrei no período expulsivo, que foi extremamente rápido: foram apenas 14 minutos até os pezinhos aparecerem e, após mais três contrações, veio o restante do corpinho. Quando voltei da “partolândia” e a peguei no colo, foi o momento mais mágico da minha vida! A olhei nos olhos e a agradeci por sua escolha. Seu nascimento superou todas as minhas expectativas, não poderia ter sido mais bonito e sagrado!
Com toda essa experiência, aprendi que não temos controle de nada, que tudo acontece como e quando tem de acontecer, que a força do pensamento move montanhas e que informação nunca é demais para quem busca um parto que respeita a mulher e o bebê, seus anseios, necessidades e sonhos em um momento tão importante como o nascimento. Assim, desejo que as mulheres possam contar com a segurança e o apoio necessários para escolherem o que é melhor para si e o bebê, e que o parto pélvico/podálico deixe de ser um tabu e se torne cada vez mais comum em nossa sociedade.
Por fim, quero dizer que sou muito grata a Deus por providenciar para que tudo desse certo. Quero também registrar meu agradecimento ao meu marido, companheiro e melhor amigo, que sempre esteve ao meu lado. Sem o seu apoio em todas as decisões, tudo teria sido bem diferente. Agradeço ainda a todas as pessoas que, de alguma forma, contribuíram para que esse desfecho fosse possível, especialmente ao Dr. Marco Aurélio Valadares, que me acompanhou durante a gestação; à Rosana Cupertino, minha professora de yoga e doula, que sempre me incentivou com muito carinho; à Odete Pregal, enfermeira obstetra e parteira, que nos passou informações importantíssimas; ao Dr. Guilhermino Braz de Jesus, um verdadeiro anjo que nos acolheu no trabalho de parto; e às minhas amigas-irmãs, Luciana Dietza e Maira Fonseca, que me deram força e coragem essenciais para o meu empoderamento.
   

Um comentário:

Nagibe Saba disse...

Que lindo depoimento! Estou emocionada! Bem vina Clarice!