8 de abril de 2016

Relato de parto Patrícia Barragán Dutra

- VBAC - relato de parto após cesariana - 21 de Março 2016
   "Você verá, Patrícia...", dizia Dra. Quesia enquanto terminava minha cirurgia, "Da próxima vez, será menina, pequena e vai escorregar!" Eu acabava de passar por uma cesariana intra parto, após um trabalho de parto lindo, como manda o figurino: bolsa rota natural, dilatação progredindo rápido, contrações efetivas, analgesia fraca para me aliviar do desconforto, posições para parto vertical, obstetra e doula que confiavam no parto humanizado, marido o tempo todo comigo... Depois de alcançarmos a dilatação total, 3 horas mais de tentativas e meu filho continuava alto... Não desceu, não encaixou, não entrou no canal de parto... A cesariana foi bem indicada naquele caso. Mesmo assim, me doía mais o coração do que os cortes. Sem dúvida, eu estava plena pela chegada do meu filho, sabia que a cirurgia fora necessária, mas não posso negar a sensação de ter "morrido na praia" por ter tido uma "parada de progressão do trabalho de parto". Contudo, guardei aquelas palavras no coração... Eu decidi crer que Deus havia separado uma nova história para mim.
     Há mais de 1 ano, passamos por um aborto às 10 semanas de gestação. Uma experiência dolorosa pela perda em si, mas também fortíssima pelo que estava por vir... Como aconteceu? Após um sangramento leve e a constatação de que o embrião estava sem batimento, fui para casa para me preparar para a limpeza do útero, marcada para sábado no hospital, isso foi numa segunda feira. No dia seguinte, expeli meu pequeno embriãozinho naturalmente... Foi assustador, mas o mesmo Deus que havia me consolado no nascimento do meu filho, agora me fortalecia para viver essa experiência e pude me despedir daquele pequeno ser, tão esperado, tão querido... Nisso, havia dilatado o suficiente sem dores fortes, num processo totalmente natural, com meu corpo conduzindo cada passo... Eu não sabia o tanto que essa experiência me marcaria para a gestação seguinte. A princípio, fiquei muito assustada com o que aconteceu, mas em minhas orações, comecei a crer que Deus estava me mostrando que meu corpo se comportava bem sem a necessidade de intervenções... o natural passou a parecer possível...            Ainda assim, era tudo muito difuso na minha mente, nas minhas expectativas... e agora, eu precisava lidar com mais uma variável: o temor de uma nova perda.
     Alguns meses depois veio a confirmação de uma nova gravidez e era junho... Tínhamos marcado uma grande viagem em família para o mês de julho, então, aquele primeiro ultrassom ficaria só para a volta... A ansiedade tomava conta: será que estou grávida mesmo? E se não tiver embrião? Pode acontecer outro aborto e vou morrer de tristeza! Assim foi até eu conseguir fazer o ultrassom e vermos o embriãozinho de coração vigoroso e lindamente formado como se espera de 11 semanas de gestação. Naquele ponto, não era possível estar certa se era menino ou menina, mas meu filho, com toda a certeza de seus 4 anos afirmou com veemência: "É menina, mãe. Pode falar com a médica, eu sei!" Todos rimos, mas ele se manteve firme e eu começava a buscar no coração aquelas palavras da Dra. Quesia... "será MENINA, pequena e vai escorregar..." Seria verdade?
     Mas, para meu pânico, nos dois meses seguintes eu sangrei uma, duas, três vezes... E mais algumas! Em todas eu chorava! Tinha medo... O temor de passar pelo pesadelo da perda me assombrava. Dra. Quesia já havia visto que os sangramentos eram pelo colo do útero estar muito macio e com vasinhos muito delicados que, como acontece no sangramento nasal, até pelo aumento do calor, provocava o sangramento! Tudo bem, eu sabia disso, mesmo assim, investigamos todas as vezes e meu coração se despedaçava em todas elas... Foi difícil, mas essa fase passou e foi decidido que não seria feito o exame de toque nas consultas de pré natal para evitar esse estresse de sangrar outra vez.
     Passados aí os 5 meses de gestação, tudo normal e começaram as notícias sobre o zika virus e sua relação com o aumento de casos de microcefalia... Até então estava longe de mim, quando nos lembramos que estávamos em Pernambuco, no principal foco dos casos, da 7a a 10a semana de gestação e pernilongo era o que não faltava por lá. Mais estress... Passei a tomar banhos de repelente! E o bebê? Meu último ultrassom (de toda gestação) foi o morfológico. Esse exame, além de confirmar a certeza do meu filho (esperávamos uma MENINA mesmo), não indicava nenhuma deficiência ou má formação e nenhum de nós esteve doente no período das férias, então não havia nada com que me preocupar, maaasss... A minha cabeça não dava tréguas! O final de ano foi complicado e deixei o medo e a angústia me dominarem, de modo que eu vivia em um estado permanente de tentativas de ficar relaxada, mas explodia com frequência, quando, na consulta de dezembro, Dra. Quesia nos disse que eu poderia viajar em janeiro para o ES e passar uns dias na praia. Nós fomos e foi muito importante para nossa família... Além disso, mal sabia eu, meu corpo começava a se preparar para o parto ali mesmo!
     Voltamos no dia 18 de janeiro e minha próxima consulta aconteceu no dia 02 de fevereiro, em que disse à Quesia que, infelizmente, eu achava que estava com cândida, pois estava apresentando um muco verde e sentia umas "beliscadinhas" nas partes baixas... Relatei que isso começou no período em que estava na praia, mas que eu imaginava que era por, apesar do calooorrr digno de um país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza, eu estar usando meia de compressão de perna inteira!         Fiquei muito inchada nessa gestação... Com isso, achei que o muco verde era devido ao excesso de roupa no calor, mas ao regressar, eu esperava que aquele "sintoma" passasse, o que não aconteceu. Não fizemos nenhum exame nem do muco, nem do colo do útero para evitar outro sangramento. Quesia disse que poderia ser cândida sim, comum na gravidez, mas que se não me incomodava, não precisaria tratar e poderia passar sozinha. Ok, saí instruída, mas ainda triste, porque eu nunca havia tido cândida e justamente agora ela aparecera! Passei dias muito chateada, pois aqueles sinais não passavam... Dra. Quesia me perguntou se eu gostaria de ser examinada novamente e eu topei! Era só dia 07, cinco dias depois da consulta, mas eu queria acabar com aquilo e tratar essa doença infeliz... Eu estava muito triste. Contudo, para nossa surpresa, no exame, ela abriu um imenso sorriso, me mostrou o muco e disse: "Patrícia, fique tranquila... Não é cândida... É tampão mucoso!  Você já deve estar dilatando!" Eu fiquei chocada. Na primeira gravidez, o tampão saiu no início do trabalho de parto!!! Como era possível que eu estivesse dilatando? Eu estava com 35 semanas! Será que eu entraria em trabalho de parto antes das 37 semanas e teria um bebê prematuro? Quesia me resgatou do meu delírio perguntando quando fizemos o último exame de toque e eu nem lembrava... Por causa dos sangramentos, há muito tempo não tinha noção de como estaria o colo. Fizemos o exame e a Dra., numa alegria só, anuncia: "É isso mesmo! Você já está com 1 cm e seu colo está muito macio! Parabéns!" Voltei ao delírio... Como assim???
      Ficava lembrando que na véspera do meu primeiro filho nascer fui examinada pela Quesia e estava com 1,5 cm de dilatação e cólicas leves... O tampão saiu naquela noite, a bolsa rompeu de madrugada e ele nasceu menos de 12 horas depois! No aborto, tive um sangramento persistente, porém de fluxo baixíssimo, sem sentir nada de cólicas ou contrações, fui examinada e o colo do útero estava FECHADO... no dia seguinte àquele exame, o sangramento virou uma "menstruação", acordei com cólicas suportáveis e expeli o embrião por volta das 9:30h da manhã! Naquele mesmo dia Quesia constatou que eu havia dilatado 2 cm (deu para o embriãozinho passar) e eu nem tinha notado a abertura do colo! CONCLUSÃO: Para mim, era assustador, pois segundo as experiências anteriores, eu não deveria demorar a entrar em TP!     Maaasss... Quesia, muito serena, como de costume, me explicou que eu não tinha sinais de parto prematuro, não tinha contrações e que começar a dilatar bem antes do trabalho de parto (TP) era ótimo, pois doeria menos no dia do parto, que seria, provavelmente, mais rápido também. Então, fiquei super tranquila, super feliz e animadíssima com essa história de sentir menos dor no dia do parto! Pensei que seria como no caso do aborto: dilatação progredindo naturalmente, sem grandes incômodos, só que de forma lenta até chegarmos ao dia do nascimento. Legal! Gostei dessa perspectiva! Só, que eu não contava com a ansiedade que isso provocaria!
     Na consulta seguinte, eu estava para completar 37 semanas e o exame revelou uma dilatação de quase 4cm! Quesia me perguntou se eu sentia contrações e tive uma na frente dela! Ficou animadíssima, mas elas não tinham ritmo e, por incrível que pareça, não doía nada! Então, ela me disse, mais uma vez que, principalmente pelo fato da gestação do primeiro filho ter chegado à 40a semana, esta também iria... Eu pensava: "Como isso é possível!? No parto do primeiro, com 4 e 5 cm eu estava urrando de dor debaixo do chuveiro e suplicando por analgesia! " Apesar da tranquilidade da Dra. Quesia, eu tinha a sensação que, com uma dilatação avançada assim, era iminente o TP... Mas não foi.      Chegamos tranquilamente e sem sofrimento à semana seguinte e... 5,5cm! "Meu Deeeuuuss!!!" Eu pensava: "Como não entrei em TP ainda, gente!? Me restava concluir algo, para mim, surpreendente: "Essa menina vai mesmo Escorregar!" ENTREI no"modo pânico". Comecei a pensar que quando o TP começasse ou a bolsa rompesse eu sentiria muita dor, pois a dilatação estaria avançada e tive muito medo de não dar tempo de chegar ao hospital! Então, manifestei esse temor à Dra... A resposta, mais uma vez, veio como consolo de Deus. Ela disse: "Nunca, nenhuma das minhas pacientes teve o bebê no carro ou em casa. Acontece muito nos plantões, mas as que acompanhei, não. Outra coisa, os bebês que nascem em casa são super saudáveis, pois é um parto muito fisiológico..." Pronto. Relaxei. Era isso: Não ia nascer em casa! Porééémmm... se acontecesse, era porque estava tudo bem! Não posso negar uma pulguinha atrás da orelha.
     Naquele ponto, Quesia combinou comigo e com meu esposo o seguinte: "Se as contrações pegarem ritmo, marque por meia hora e me avise!" (detalhe: isso aconteceu vááárias vezes ao longo das semanas anteriores, mas eu deitava, acabava dormindo e puft! Cadê as contrações? Sumiam... Eram os famosos "alarmes falsos".) Com isso, perguntei como saber que estava mesmo na hora, ela riu um riso "sem vergonha" e me disse que eu saberia. Além disso, me mostrou um esquema de como contar e disse que assim que começasse, não iria ninguém para minha casa me examinar, eu não iria ao consultório, ou seja, sairia direto para o hospital! Já dava para eu desconfiar que tinha tudo para ser um "parto quiabo ", como me contava, na primeira gestação, a doula Isabel: "Existem algumas mulheres", dizia ela enquanto eu viajaaava nessas histórias... "mulheres que quase não sentem dor... O bebê nasce tão rápido que não dá tempo de curtir a dor... É um parto quiabo!" Eu imaginava o quê? Lógico que eu nunca achei que seria comigo! Isso deve ser coisa de índias, ou dessas mulheres super "zen" de corpo e alma preparadas para essa experiência... Talvez para algumas agraciadas, mas eeeeuuu!? Nunca imaginei que seria para mim... Contudo, depois de tantas evidências, comecei a me aproriar de possibilidades diferentes... que talvez seria possível um parto natural, mas achei que ainda curtiria um TP na banheira e, quem sabe, minha filha nasceria na água? Porém, eu tinha guardada na manga a possibilidade de recorrer à analgesia, até pela experiência do primeiro filho, em que utilizei desse recurso. Eu até desconfiava, mas não cria que natural e quiabo seriam realidades para mim...   Não, aquela magia não era para mim. Contudo, meu coração assumiu essa possibilidade. Acho que eu é que tinha medo de acreditar.
     No sábado seguinte, dei um jeito de fazer meu marido passear comigo de manhã (queria tentar estimular o TP, mas não contei para ele...), já estava com 39 semanas e 1 dia. Fomos nós dois e nosso mais velho. Senti que a bebê estava bem mais baixa que de costume (isso também foi uma diferença do primeiro... Meu filho ficou alto até a decisão pela cesariana, mas minha filha já estava nitidamente baixa há mais de 1 mês. Naquele dia estava ainda mais difícil caminhar... sorte que as grávidas tem "licença poética" para andar como um "pato de fraldas", o que, de fato, é esteticamente terrível, mas perdoável. Sentia dores na lombar e cólicas mais nítidas a cada contração, mas não falei nada e continuamos o passeio... Também não me preocupei em contá-las, afinal, não sentia nenhuma dor forte, então concluí que estava chegando, mas ainda não era hora. Pensei: "É, acho que dessa vez vai engrenar."     As dores foram se intensificando e eu tinha que parar enquanto a contração passava, exercitando a respiração o tempo todo.    Contudo, era tudo ainda muito suportável, tanto que fomos embora pela fome da hora do almoço e não pelo meu desconforto. Almocei, meu esposo foi trabalhar às 15h e voltaria só às 23h, fui tomar banho e mais contrações nítidas. Conversei com Dra. Quesia que me disse que, pelas evidências, havia chance de ser naquele dia mesmo, mas eu não precisaria chamar meu esposo para casa, pois só deveria acontecer depois da meia noite...
    Estávamos na casa dos meus pais havia já alguns dias... Minha casa estava em reforma e não dava para ficar lá com a pequena.    Então, como Quesia me disse para relaxar e tentar descansar, incumbi meus pais de darem assistência ao meu filho para que eu pudesse me preparar. Foi ótimo! Música relaxante, respiração a cada onda uterina (como descreve o livro Parto Ativo, cuja leitura recomendo muito!) e dormi um pouco (é verdade, continuava uma dor muito suportável... Isso foi incrível). Próximo à meia noite meu esposo chegou querendo desabafar sobre uma discussão que tivera com um colega e eu dizia... "Pelo amooor de Deus! Vamos conversar outro dia... estou super relaxada, cheia de ocitocina, deixa meu TP engrenar!" Foi em vão. Enquanto ele não falou tudo que queria, não sossegou. O bom foi que notei que, mesmo na turbulência que ele chegou, minhas contrações permaneceram e já me lembravam as que senti antes da bolsa romper no caso do primeiro filho... Eu estava feliz.
     Deitei e tentei descansar mais um pouco... Era quase 01 da manhã. Então, acordei já sentindo as contrações mais fortes e tentei respirar por duas delas, ainda deitada quando... POW! Senti um empurrão de dentro do útero que não sei nem explicar, só me lembro que pulei já me agarrando à cabeceira da cama e "urrando baixo", se é que isso é possível. Era 01:50 a.m. Meu esposo tinha acabado de deitar e tomou um susto! Ele me dizia, enquanto tentava abrir os olhos e entender em que ponto eu estava "Calma, respiiira".      Era uma dor muito intensa e eu já não conseguia distinguir as contrações, foi quando pense:i "Meu Deus, não tenho posição que me alivie... " Aaaah, a ficha caiu! Eu já estava no "período de transição", então a dilatação deveria estar super avançada e em breve entraria no expulsivo!!! Mal eu chegava a essa conclusão e comecei a fazer xixi involuntariamente. Não, não era a bolsa. Eu tive certeza que a limpeza do organismo estava começando... Consegui tomar um pouco de fôlego, pois sentia uma dor intermitente na lombar, pelve e nem sei mais aonde... antes do chuveiro, meu intestino fez o resto da sua limpeza sozinho... Foi fantástico! É impressionante como o corpo domina o processo... Eu pensava, nos poucos momentos de lucidez... "Agora tenho que assumir que não tenho as rédeas desse processo, preciso me entregar (palavras da doula Isabel, desde o primeiro parto)". Então, eu estava certa de que não demoraria mais... Pedi que o marido ligasse para Quesia, pois eu precisava ir para o hospital imediatamente! Ele saiu do banheiro, veio minha mãe e eu só conseguia perguntar se já tinham avisado a médica... Eu sentia muita dor pela falta de posição, mas o chuveiro, àquela altura, era meu melhor amigo! Lembrei da bolsa de água quente, pedi que providenciassem com urgência, mas "Cadê o Douglas!? " (Douglas é o marido...) Minha mãe disse que meu filho havia acordado assustado (quem não estaria?) e o pai estava com ele... "Pois então troque com ele, eu preciso ir embora! ", eu disse apertando os dentes e tentando respirar ao mesmo tempo... Depois me contaram que meu pequeno estava muito preocupado e, chorando disse ao pai "Minha mãe vai explodir!" Eu ri. (depois, lógico). Fiquei sozinha e na onda seguinte eu me abaixei assumindo a posição de cócoras... inacreditavelmente eu me senti muuuiiito mais confortável! Parecia que mascarava a dor que estava me torturando, mas junto com o movimento veio uma vontade louca de "fazer força"... "Jááá!?!? Não é possível, acabei de começar o TP de verdade e já estou entrando no expulsivo!? Não acredito!!! Meeeeuuuu Deeeeuuuusss... Vai ser um parto quiabo! O que foi que eu inventei!? "Eu confesso, me bateu uma loucura, mas imediatamente me lembrei da minha leitura de "Parto Ativo" e concluí que aquele desespero que me abateu já deveria ser a adrenalina entrando em cena, ou seja, era o expulsivo mesmo... O que eu fiz, então? Me entreguei a toda! Aí, fui de cabeça!!! Pensei que se estava acontecendo daquele jeito, eu deveria estar preparada para viver essa experiência. Assumi que aquela, agora, era a MINHA HISTÓRIA!
     A cada onda eu me agarrava ao meu marido, me abaixava de cócoras com ele me segurando e deixava aquilo me levar... Fazia força e urrava como meu corpo mandava... Lembrei que Quesia disse que se nascesse pelo caminho é porque estava tudo bem, então eu fui do chuveiro até a escada, da escada à garagem e da garagem ao carro passando por contrações em cada um desses pontos. Quando acabava eu tentava avisar ao marido, mas eu só conseguia gemer "Ela está nascendo... " Ele se fez de desentendido, mas depois me confessou que já tinha visto que ela não tinha coroado ainda, por isso tentou me mostrar que estava tranquilo. Me enganou muito bem, por sinal.
     Quase na porta do carro veio mais uma, me abaixei e a bolsa não rompeu... Ela explodiu!!!  (Douglas me garantiu que fez barulho de balão de água estourando, mas eu nem vi). Pela posição, voou líquido para longe e dei um banho na perna do meu marido! Ele nem achou ruim... Juro! A cara dele era de orgulho! Eu respirei e pedi que meu esposo não fosse dirigindo, mas estivesse comigo e deixasse minha mãe levar o carro. Assim foi. Eu me agarrei ao encosto de cabeça do banco traseiro, ajoelhada meio de cócoras... meu esposo segurava a bolsa de água quente nas "minhas cadeiras" e me amparava na respiração. Chegamos ao hospital junto com a doula Isabel, bem quando Quesia acabava de aparecer na porta do elevador! Ah, como isso me deixou feliz! No meio daquela intensidade do parto, posso dizer que fiquei mais “relaxada e tranquila” de ter as duas já na minha frente... Isso era 02:25h a.m., ou seja, pouco mais de meia hora da "grande contração" que, como a Dra. Quesia havia me avisado, me sinalizou precisamente que estava na hora. Não vi por onde andamos, continuava abaixando a cada contração... Só me lembro de uma cena que, agora, acho cômica: eu agarrada na barra do elevador, urrando, fazendo força e acocorada enquanto Quesia, tranquilamente parada na porta do elevador para ela não fechar, só me disse: "Quando der, levante e vamos, ok?" Imagina alguém vendo uma cena assim? Ia pensar: "Que mulher louca é essa, gente? E a médica? Não vai fazer nada? Vai ficar só olhando?" Oh, céus! Eu ri demais revendo o ocorrido na minha mente!!! Mas eu estava segura do meu papel, amparada por pessoas da minha confiança e tudo correndo muito bem... Faria a cena do elevador novamente sem o menor pudor!
    Chegamos a uma sala e vi ao fundo o banquinho para o parto de cócoras e o chão forrado... Não faço ideia de como, mas, quando notei, já estava no banquinho, tirando o vestido e meu marido sentando para me apoiar pelas costas. Isabel me ajudava com a respiração entre as contrações, me abanava com um leque celestial (Jesus! Como eu transpirava!) e orientava Douglas para cuidar de mim que, no caso, era só não me deixar cair e suportar os apertos que eu dava nas mãos dele! Lembro de Quesia escutar os batimentos da bebê e de vê-la bem na minha frente dizendo que estava tudo bem e que seria rápido... A neném chegaria logo. A essa altura eu só pedia a Deus que acabasse o mais rápido possível!    Eu não sentia dores nas contrações, era um aperto e uma força muito intensas que eu sentia me empurrar de dentro, bem na pelve e uma vontade natural de participar desse movimento, fazendo força também... Além disso, entre elas doía bastante a lombar. Era um movimento muito forte e eu sentia a bebê descer, como se ela fosse uma menina enooorme passando pela minha pelve... Contudo, parecia que eu sempre soubera como fazer... Foi quando tive certeza que eu havia conseguido me entregar mesmo.
     E quando ela coroou!? Ui! Aí não doeu... Ardeeeuuu!!! Sabe o círculo de fogo? Pois é... queima de verdade. Mas, tinha uma vantagem: a certeza de que minha filha estava às portas... Isso me deu fôlego, fiz mais força, ouvi baixinho o choro do meu marido, sabia que a cabeça já tinha saído, mas permaneci de olhos fechados... mais uma ou duas e senti ela "escorregar" para as mãos da Quesia... Ah, como eu chorei!!! Ela já estava no meu colo! Era 02:42h a.m. Em pouco mais de 15 minutos de chegada ao hospital, minha filha nasceu em um parto natural, de cócoras e depois de uma cesárea prévia! Eu olhava para ela atônita! Ela estava calma aninhada em meus braços. Chorou uma vez e cuspiu o líquido aminiótico. Depois, ficamos os três abraçados... Meu esposo cortou o cordão, sim, como tantas vezes eu imaginei!
     Eu havia esperado tão ansiosamente para ver minha menina, tocá-la e sentir ela no colo... De repente, ela havia nascido lindamente e, de fato, como as palavras de Dra. Quesia, "pequena" e "escorregou"! Meu parto normal havia se concretizado e, mais do que isso, foi muito mais do que eu imaginei! Por quê? Pois nunca pensei que essa história seria minha, mas como já escrevi neste relato, hoje vejo que Deus foi preparando meu corpo e meu coração para toda a experiência. Com tantas semanas de dilatação lenta e alarmes falsos eu poderia ter pedido uma cesariana há muito tempo, ou talvez, pedido para ser internada antes, já no comecinho das contrações, mas nada disso aconteceu e eu vivi algo impressionante... O parto natural é, de fato, impressionante! Talvez isso seja o que mais assusta a quem tem medo do parto normal. Dói sim, mas o mais incrível é o domínio da natureza, do corpo... consequentemente, o racional acaba desligado e, sim, isso é chocante. Principalmente a nós, mulheres que somos incentivadas a ter o controle e o domínio de tudo que nos envolva, por meio de pesquisa, planejamento e intervenções. Mas nessa hora não dá! A programação ancestral que Deus colocou no corpo das mulheres assume o controle... O tempo pára, a força vem e trás a vida, consigo, trás a luz... A mulher, então, "dá a luz"... Pura bênção do Deus Criador, pura poesia.
    A mim, resta agradecer por tantas bênçãos e graças que o Senhor me concedeu na gestação, parto e pós parto, fiquei super bem! Minha família é a maior dádiva que Deus me deu e me apaixono cada dia mais por esse presente! Sou infinitamente grata a esse Deus que separou a Dra. Quesia e a doula Isabel para nos acompanharem na gestação e nascimento tanto do primeiro quanto do segundo filho... Sinto-me infinitamente abençoada por tê-las conosco e por receber a assistência preciosa de toda equipe do instituto e, no dia do parto, da pediatra super carinhosa e da Dra. Karine.
Deus seja louvado! 

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