2 de novembro de 2015

Humanização do Nascimento em BH - recorte histórico

A fundadora da ONG Bem Nascer participou da Mesa "Modalidades Tradicionais do Nascimento. A arte de Partejar como foi e como é', no I Seminário pela Humanização, promoção do Instituto Pauline Reichstul, dia 29 de outubro de 2015, no Centro Universitário UNA. Compuseram a mesa:  Adelise Noal Monteiro, pediatra e parteira, homeopata e acupunturista, autora do livro 'Partejar', onde relata depoimento das parteiras do Santo Daime; Analice Tuxá, pajé e parteira indígena, que falou sobre os rituais de parto da sua tradição; Lúcia Martins Pereira, educadora e cuidadora do MST, parteira com experiência em bioenergética e contadora de histórias; e a enfermeira obstetra Raquel Rabelo, do Hospital Sofia Feldman.
Em seguida, a fala de Cleise Soares.

 ONG BEM NASCER - Uma caminhada ao lado da mulher

Estou aqui, neste seminário discutindo um tema  essencial e que era para ser natural – a humanização do nascimento. O parto fugiu tanto da sua normalidade que hoje demanda criação de ONGs, organização de seminário, mobilização de mulheres para lembrar à sociedade que o parto é algo natural, fisiológico e que não demanda tecnologias pesadas, mas a tecnologia leve, o respeito, o acolhimento, a espera para o tempo necessário de qualquer parto, sem intervenções, já identificadas como desnecessárias e prejudiciais pela Organização Mundial de Saúde.
Integrantes da ONG no Seminário Humanização do Nascimento - Isabel Cristina, Cleise Soares e Roseanna Soares

 Com profissionais qualificados para assistir, literalmente ‘assistir’ e só intervir quando foge da normalidade. Está ocorrendo uma mudança de paradigma no parto e nascimento no Brasil. A proposta é mudar de um modelo etiocêntrico (centrado na enfermidade), iatrocêntrico (centrado no médico)  e hospitalocêntrico (centrado no hospital, conforme nomeou o obstetra Rick Jones. Um modelo tecnocrático e medicamentoso, que não considera os desejos, escolhas da mulher, principal protagonista deste evento.

Fui testemunha ocular e participei de perto do movimento pela humanização da assistência ao parto e nascimento em Belo Horizonte. Vou fazer aqui uma linha do tempo da história. Minha militância começou no nascimento do meu primeiro filho, Iago, assistida por Marco Aurélio Valadares.
Marco Aurélio Valadares, fundador da ONG Bem Nascer
1986, tempo do INAMPS. A assistência pública era muito ruim, ainda não tínhamos direito a acompanhante no trabalho de parto e ainda existia berçarios em Belo Horizonte. Fui atendida com respeito no sistema privado. Juntamente com o psicólogo Marcus  Vinícius de Oliveira fundei a ONG Grávida – Grupo pela Garantia à Gravidez Ameaçada. Nossa proposta era afirmar a vida e reivindicar mais direitos para a maternidade, partindo do princípio que muitos do abortos – 5 por minuto naquela época – seriam evitados. Esta organização civil promoveu quatro seminários em Belo Horizonte; dois em parceria com o Mater Dei. O primeiro: “Direito à Maternidade e o Aborto”, onde discutíamos as questões éticas e políticas. E enfatizamos que muitos dos abortos aconteciam em decorrência da falta de direito à maternidade.

 O segundo, “Maternidade: Direito, Dever, Prazer ou Obrigação”, o homem estava começando a entrar na cena do parto; eu havia tido este direito no nascimento do meu filho. Entre os assuntos abordados: O pai e a maternidade da mãe. Novos papéis estavam sendo delineados para os homens e as mulheres. O filme do meu parto que, hoje, não seria considerado o ideal – eu anestesiada, totalmente entregue à medicina, havia sofrido manobra de kristeler, episiotomia, limpeza intestinal, raspagem de pelos, passei por tudo isto, ainda não sabíamos o que sabemos hoje. Por que o filme do meu parto passava no seminário? Porque, pela primeira vez, o pai estava ao lado de uma mãe no trabalho de parto. E isto era revolucionário.

Hoje, o homem está ao lado da mulher na gestação, no parto e nos cuidados com os filhos.

Na década de 1980 iniciaram-se os primeiros movimentos das organizações civis e das mulheres propondo uma nova forma de assistir aos nascimentos. Frederick Leboyer começa a alertar para a forma de acolher o recém-nascido. Propõe menos luz, menos ruídos e um banho no bebê logo após o parto para que ele tivesse um contato suave com a água  no nascimento. O obstetra Cláudio Basbaum introduz o Método Leboyer no Brasil.


Federick Leoboyer
Moysés Paciornik, em Curitiba, faz pesquisas com as índias do Sul do Brasil e funda a primeira casa de parto de cócoras do Brasil


Hugo Sabatino, desenvolve pesquisas na UNICAMP sobre parto de cócoras. 
Em Belo Horizonte, o obstetra Marco Aurélio Valadares vai a Curitiba e traz para a Maternidade Santa Fé a cadeira para parto de cócoras criada por Paciornik. Ele e Dr. Emerson Godoi introduzem o método na Maternidade Santa Fé.


A ONG Grávida promove o ‘I Seminário pela Humanização do Nascimento’ em Belo Horizonte, em 1987,  em parceria com a Maternidade Odete Valadares e o patrocínio do INAMPS
. Em pauta: acompanhante de parto, o fim do berçário e a proposta de um atendimento mais humanizado no serviço público. A mesa que tratou do tema “Humanização do Nascimento” contou com a presença dos médicos Cláudio Basbaum – do Parto Leboyer – Dr. Moysés Paciornick, Hugo Sabatino e Marco Aurélio Valadares. 
Moysés Paciornick


Hoje considero que este seminário foi uma semente. No próximo ano, fizemos o ‘Criança Sadia, Criança Doente – Reflexões sobre a Infância para Transformação do Homem’. Até então tinha tido dois filhos.

Anos depois, em 1998 tive  uma filha, Ayrá, sempre acompanhada por Marco Aurélio Valadares que,então, já não realizava as intervenções do primeiro filho. Em 2001, me preocupei com o fato dele estar ficando velho sem passar para outros profissionais os seus conhecimentos. Então o procurei: ‘vamos fazer alguma coisa juntos’. Realizamos um curso e uma palestra e editamos o primeiro jornal Bem Nascer. Passamos a fazer rodas de gestantes em um restaurante natural de uma amiga. 


Em 2003, juntam-se a nós outros profissionais, entre eles, o Dr. João Batista de Castro Lima, do Hospital Sofia Feldman e as enfermeiras obstetras Sibylle Vogt e Nelcy Muller, a doula Alessandra Godinho, a antropóloga Christina Barra e a advogada Juliana Guedes  e oficializamos a ONG Bem Nascer.







 Desde sua fundação, já atendemos a mais de mil mulheres em rodas para gestantes quinzenais, no Parque Municipal e Parque das Mangabeiras. Dr. Marco Aurélio cumpriu seu papel de multiplicador deste modelo e hoje é referência para outros médicos. Fundou o Núcleo Bem Nascer, que reúne cinco obstetras. Do Núcleo Bem Nascer saiu o Instituto Nascer, com três obstetras. De uma dissidência da ONG Bem Nascer surgiu o Grupo Isthar. Movimentos que fazem de BH uma referência para outros estados.

Sobressai na sociedade civil a fundação da ReHuNa Rede Pela Humanização do Nascimento, em 1993. Na Carta de Campinas, escrita na sua fundação, a nova organização, que reúne  profissionais e instituições associadas - apontava a situação de violência obstétrica praticada no país; “violência e constrangimentos em que se dá na assistência, especialmente as condições pouco humanas a que são submetidas mulheres e crianças no momento do nascimento”. Em Belo Horizonte, nasce o Movimento BH pelo Parto Normal, orquestrado pela querida companheira de luta, a pediatra Sônia Lansky, do qual a ONG Bem Nascer faz parte junto com outros 39 parceiros.

Observando o cenário da década de 80, quando o seminário propunha uma reflexão sobre a assistência nos hospitais públicos, o fim dos berçários e o direito a acompanhante  no trabalho de parto vejo que caminhamos, já conquistamos o direito a um acompanhante e, em Belo Horizonte, as crianças já não vão para os berçários. Por isso, creio que as coisas podem mudar e vão mudar. e nós, da ONG Bem Nascer, fazemos um trabalho de formiguinhas, em direção à mudança de paradigma do parto e nascimento e da conscientização da população para a humanização da assistência.



Nosso objetivo é informar a mulher, o casal, a sociedade sobre a importância do nascimento na vida de cada ser humano. 
 A milhares  de cidadãos brasileiros está sendo negado o direito a nascer segundo a fisiologia do seu ser. O homem é animal e –diante deste cenário epidêmico de mais de 50% de cesáreas no Brasil  – irracional. É uma questão ecológica. Estamos interferindo em um rito sagrado. Isto é tão impactante como o corte das árvores da Floresta Amazônica.
Linda barriga de Valéria Carvalho Soares.
 Não sabemos aquilatar  as sequelas das cesarianas eletivas. De forma alguma contesto a cesárea bem indicada e necessária – mas aquelas, as muitas que ocorrem por conveniência de profissionais e, muitas vezes, das próprias mulheres, desnecessárias, desnecesáreas como dizem as militantes pelo parto normal. Há carência de esclarecimentos em todas as classes sociais a respeito da cirurgia cesariana. Às vezes me perguntam, esta ONG é para pessoas carentes? Respondo: é, para pessoas carentes de informação.

Por que muitas mulheres escolhem a cesárea? Eu não defendo o direito de uma mulher a escolher e ser atendida no desejo da cesárea. Ela não tem conhecimento científico para se indicar uma cirurgia. Muitas destas mulheres fogem dos partos “anormais” realizados cotidianamente nos hospitais brasileiros, com excesso de intervenções desnecessárias, já desprovidas de fundamento científico. As boas práticas são baseadas em evidências científicas e atendem a recomendações da Organização Mundial de Saúde.

O parto é visto como uma doença, num modelo centrado no profissional médico e não na mulher. Cabe ao profissional literamente assistir o espetáculo da vida, protagonizado desde o início dos tempos pelas mulheres e seus filhos, intervindo apenas quando necessário. Ouço nas rodas frases recorrentes que as mulheres escutam em seus trabalhos de parto nas maternidades mineiras – “para fazer você não gritou!”, “não grita, o menino não sai pela boca”. A dor do abandono, de deixar seu marido, sua mãe na recepção, porque aquela maternidade ainda não permite acompanhante, a despeito de ser lei federal.

Queremos o respeito ao protagonismo da mulher no parto, ao tempo do parto. Muitas das cesarianas foram indicadas porque “você não teve passagem”, bastava dar mais tempo e ela daria passagem; o cordão está enrolado no pescoço, eu mesma tive um filho de parto natural com duas circulares de cordão, “você não tem contração”, “não tem dilatação”...
Recebemos nas Rodas Bem Nascer mulheres que sentiram que seus partos foram roubados. Sequelas psíquicas – “engravidei e não pari”. Começam a construir o sonho de um segundo parto, mas normal.  Muitas mulheres fizeram boas escolhas, sonharam conosco nas rodas e conseguiram parir como a fêmea da espécie.
Simone ficou esperando 'a dor da morte' e acabou tendo seu filho em casa com o marido.

O parto antigamente era coisa de mulher, de comadre, de parteira. Nossas rodas reproduzem este abraço feminino. Ajudamos o casal a encontrar caminhos.


 Algumas optam pelos partos domiciliares – em Belo Horizonte  temos equipes de enfermeiras obstetras que assistem a partos em casa e no Sofia; muitas vão para o SUS eficiente, o Hospital Sofia Feldman onde são atendidas em seus anseios; outras tantas escolhem a dedo os profissionais do sistema privado , que blindam na medida do possível a instituição engessada, fria e tecnicista e oferecem um parto mais natural. Mas, se esta mulher for para o plantão destas maternidades, correrão o risco de vivenciarem violência e desrespeito, como temos constatado.  Elas não são respeitadas quando pedem “não quero ocitocina”, “não me façam episiotomia”, “não quero cesárea”.

Lutamos pelo cidadão brasileiro que ainda não nasceu e tem o direito de nascer segundo a fisiologia humana. Imaginem comigo, o bebê está no útero, quietinho, no casulo da mãe. De repente, corta-se o casulo e ele é retirado pelas mãos do médico.  Creio que não deve ser nada agradável a situação para esta criança, retirada muitas vezes  prematuramente, desnecessariamente. Muitas, ficando com sequelas pulmonares pelo resto da vida.

Porém, se em Belo Horizonte já temos mais opções de assistência mais humanizada, na maioria das cidades mineiras ocorrem mais de 90% de cesarianas e as mulheres não têm outras opções. Muitas gestantes do interior nos procuram buscando caminhos, que não temos para oferecer.  Este avanço deve alcançar o interior de Minas.

Reconheço no projeto Rede Cegonha, do Ministério da Saúde, uma intervenção real na mudança de modelo de assistência no Brasil. Mensalmente, recebemos profissionais de saúde de todo o país, no Hospital Sofia Feldman, onde se busca a sensibilização para este novo modelo proposto pelo governo A Rede Cegonha atende a anseios antigos de nós, militantes pela humanização da assistência a profilaxia da cesárea. Chega com capacitação de equipes, custeio para criação de casas de gestantes e de bebês, construção de centros de parto normal. Recomenda a inclusão da enfermeira obstetra na equipe e um atendimento multiprofissional. O projeto vai de encontro à nossas demandas de anos. E ensina as boas práticas no parto e nascimento.

Já dizia Jorge Khun, contemporâneo de Freud e o primeiro a estudar os traumas do nascimento: “Quem não luta para nascer, não luta para viver”. Nosso guru, o obstetra Michel Odent completa: “Para mudar o mundo é preciso mudar a forma de nascer”.

E é por esta mudança de modelo, de paradigma, pelo retorno à naturalidade do parto, pelo respeito à mulher e a criança no primeiro rito de passagem que, nós da ONG Bem Nascer lutamos.
Hoje, demos mais um passo nesta caminhada e renovamos a nossa fé na mudança.



Um comentário:

Carol Flor disse...

Linda história Cleise