13 de outubro de 2015

Relato de Parto - Paula Gabriela

Em agradecimento à ONG Bem Nascer, segue o meu relato de parto.
DE BUNDA PARA O MUNDO 
                 O parto de um bebê é, aparentemente, apenas uma sequência de procedimentos médicos. Mas, na verdade, é bem mais que isso: é um ritual concreto, além de simbólico. Após ter pesquisado bastante, optei pelo parto normal humanizado e me preparei para ele. Entretanto, minha filha  decidiu outra coisa e, no dia 17/5/2014, pari Tereza que nasceu de bunda para o mundo, em uma cesariana com assistência humanizada.
                Tudo começou em 2013, quando eu e o meu marido Eduardo, após dez anos de relacionamento, resolvemos ter um filho. Essa decisão despertou a curiosidade sobre o período pré-natal, parto, amamentação e educação. Entrei no mundo da maternidade pela internet. E descobri que, para ter uma assistência humana na gravidez e no parto, era preciso se engajar numa luta política.
                Uni-me a um grupo de mulheres e homens numa organização não governamental que buscava esclarecer sobre os direitos das mulheres durante a gravidez. Encontrávamos aos sábados num parque central da minha cidade. Nesse grupo, conheci o termo empoderamento, que no contexto significava a capacidade de ser protagonista do parto da minha filha, e obtive todas as informações possíveis sobre o parto.
                Fiz, simultaneamente, o acompanhamento pré-natal com um médico vinculado a essa organização, o Dr. Marco Aurélio Valadares. Era uma alegria ver meu bebê se desenvolvendo bem. E eu me sentia cada dia mais empoderada, mais certa da minha capacidade de parir de forma natural, sem nenhuma intervenção farmacológica.
                Li vários livros, vi filmes, participei de encontros e passeatas. A defesa do parto normal e natural parecia inevitável, pois, para mim, era essa a melhor forma de nascer. Sentia-me orgulhosa de mim mesma por ter descoberto a possibilidade do parto normal e por proporcioná-la à minha primeira filha.
                No sétimo mês de gestação descobri que a Tereza não estava numa posição que favorecia o parto normal. Estava em posição pélvica, com seu bumbum encaixado no meu quadril em lugar de sua cabeça. Nessas condições, o meu obstetra não faria o parto normal. Fiquei abalada. Não podia aceitar que minha filha nascesse de uma forma tão agressiva como num procedimento cirúrgico. Eu ficava imaginando o seu trauma ao sair de um lugar escuro e quentinho para uma sala com muita luz e ar condicionado. Não seria o meu marido que a acolheria nos braços, mas outras pessoas de quem a Tereza nunca tinha ouvido a voz antes de nascer.  Eu havia lido que crianças que nasciam assim tinham maior propensão á agressividade. E que países com alto índice de cesárea tendiam a ser mais violento, o que se encaixava muito bem no perfil do Brasil. Como isso me atordoava! Eu acreditava nessas leituras em relação ao parto e até profetizava às outras grávidas um país mais pacífico e crianças mais amáveis caso mais gente optasse pelo parto normal.
                Além disso, eu me interrogava sobre os meus próprios sentimentos. Havia muito desejo pelo parto natural. Eu achava que isso me faria uma mulher mais forte e mais completa. Como era difícil lidar com a possibilidade do que eu julgava ser um fracasso! Eu queria ser protagonista do meu próprio parto.
                Na ONG todos buscavam me ajudar. Era uma chuva de informações sobre o parto pélvico. Todos me passavam contatos de mulheres que já haviam passado por isso. Li textos em várias línguas. Fiz moxabustão, empanzinando toda a vizinhança de fumaça. Ficava de cabeça para baixo umas dez vezes ao dia, o que era bem incômodo. Passei dias conversando com o bebê. Contratei uma pessoa para me ajudar a virá-la com massagens. Engatinhei para vários lados, pois diziam que isso era bom. Mas meu bebê ora estava pélvico ora na posição transversa, o que era pior ainda para o parto normal.
                O bebê, que se desenvolvia normalmente, alegre por simplesmente estar na minha barriga, parecia não se preocupar com minhas questões. Amigos e familiares próximos diziam que isso era o mais importante, mas eu não conseguia lidar com a frustração de um desejo que era meu e do meu companheiro.
                Após nove meses, recebemos a notícia definitiva: não era mais possível que a Tereza encaixasse no meu quadril na posição correta para um parto normal. Meu médico nos deu a possibilidade de tentarmos um parto pélvico, desde que fosse outro profissional, e disponibilizou algumas indicações para tanto.
                Novamente, conversei com as colegas da ONG e elas sugeriram que eu me abrisse para aceitar a possibilidade de uma cesariana. Chorei e depois fiquei um pouco em silêncio. Senti uma conexão com minha filha nesse momento. Senti que ela estava feliz. Conversei com ela e disse-lhe que poderia vir como quisesse. Nesse momento, descobri que um dos grandes desafios da maternidade era amar o outro sem criar nenhuma expectativa. Afinal, por que ter um filho? Para não ficar sozinho, para criar uma família feliz, para ter alguém para cuidar de você na velhice. Na verdade, essas respostas sempre me pareceram ter um fundo egoísta. Queria um filho para lhe dar amor e carinho, não para suprir seus desejos e me fortalecer como mulher. Pedi para a me desculpar e ter paciência comigo.
                Liguei para o meu médico e combinei que faríamos uma cesárea no outro dia pela manhã, acompanhada dos obstetras Dr. Marco Aurélio Valadares e Dr. Sandro Luiz Ribeiro. Eu e meu marido não dormimos a noite. Conversamos com nossa filha e acariciamos muito a minha barriga. De manhã, saímos emocionados.
                Na maternidade, fui surpreendida pelo meu obstetra, que me levou ao bloco cirúrgico e trouxe o meu marido. Eduardo e eu nos demos as mãos. O médico colocou uma música ambiente que era um lindo mantra e me disse:
      - Pode começar a fazer as respirações profundas que treinou para o momento do parto. Isso vai ajudar muito agora.
                Sem pensar, comecei a inspirar e respirar profundamente. Senti que me acalmava e ao mesmo tempo me emocionava. Eu estava ali, parindo! Fazia as respirações que trenei, ao lado do meu companheiro, assistida pelo médico que escolhi e que me passava segurança.
                Diminuíram um pouco as luzes artificiais. E, de repente, pari! Uma bundinha saiu de mim e depois todo um corpinho. Tereza foi imediatamente para o meu horizonte de olhar. E então chorou alto. Nossos corações dispararam. Eu pari! Nosso bebê nasceu! Choramos de emoção. Os médicos esperaram o cordão parar de pulsar. E, depois disso, meu marido acompanhou a enfermeira que tentava aquecê-la um pouco. Contrariando a ordem da pediatra, o obstetra disse que o bebê deveria ficar comigo. Ela trouxe a Tereza para perto de mim, conversei com ela. Nossos olhares se cruzaram. Ela me olhou com o olhar curioso, pois conhecia aquela voz. Por reflexo, procurou o meu peito. Queria mamar. Foi o nosso primeiro contato. Amamentei a minha filha nos seus primeiros minutos de vida.
                Voltei para casa com a sensação de que era protagonista de todo esse processo. Estava orgulhosa de mim. Pari uma menina linda, saudável. Tive a experiência do primeiro olhar. Recebi uma menina alegre, calma e que veio para o mundo de bunda para me mostrar que as coisas podem ser diferentes do que queremos e mesmo assim serem belas.
                Não sei se realmente aprendi isso. Continuo insistindo em algumas grandes ideias sobre alimentação, amamentação e educação. E ela continua entrando de bunda nesses temas e alterando a forma como eu planejava que as coisas acontecessem. Vou deixar as coisas fluírem. Um dia, quem sabe, eu aprendo.

 

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