2 de outubro de 2015

Relato de Parto - Olívia Lima

A chegada do Antônio
     Quando comecei a planejar minha gravidez, desejei que meu parto fosse “normal”. Nunca havia pensado sobre isso antes e nem sabia o que isso significa na nossa sociedade. Queria que fosse de acordo com a natureza, assim como outras escolhas na minha vida: a alimentação saudável, o contato com a natureza, a atividade física... Descobri antes (foram um ano e três meses até engravidar) e ao longo da gestação, que ter para um parto “normal” (porque atualmente o normal é fazer uma cesárea) é necessário muita informação. A primeira coisa que fiz foi trocar de médico. Antes mesmo de engravidar comecei a pesquisar médicos que fizessem realmente o parto da forma que queria, e descobri que se trata de um parto humanizado, independente da via de parto que o bebê chegue. Por indicação de uma amiga cheguei ao Dr. Hemmerson. Na primeira consulta me senti tranquila e respeitada. E, seis meses depois, Antônio já estava a caminho.
       Foram 39 semanas de muito sono, curtindo preguiça, quietude. Não me preocupei com enxoval, quarto e coisas do tipo. O que deu foi uma vontade louca de estudar e entender tudo o que acontecia e viria a acontecer comigo. Li alguns livros, e muitos, muitos relatos de parto. E entendi que estar preparada, é estar preparada para tudo, até para a cesárea. O Michel, o tempo todo me apoiando e estudando junto comigo. O início das nossas noites era regada a trechos de livros e relatos e muita conversa. Quanto colo recebi! Ele confiou em mim, em nós!
      Ao longo deste tempo fui muito questionada pela minha escolha. Mas o encontro com uma ativista me fez aflorar a questão da dor. Estava com 37 semanas e fui bombardeada por frases feitas, sem espaço para troca, sem espaço para escuta.
       “Você não vai ter parto normal, a maternidade que escolheu tem um índice de 80% de cesárea!”, “Se não for “tal” hospital, você não terá parto normal!”, “Você está preparada para a dor!?”, “Tem que ter muita coragem!”, 
      Pela escolha da equipe que fiz, pela dedicação minha e do Michel, por como nós estávamos nos preparando, tinha certeza que teria meu parto respeitado, independente de taxa de cesárea de qualquer maternidade.
      Quanto à dor e à coragem... Não, eu não estava preparada para a dor, não podia de forma alguma imaginar sua intensidade. Mas me fez pensar muito sobre ela, e até me rendeu uma teoria. Falei com ela que o que precedia a coragem era o medo e por isso não era necessária para enfrentar a dor do parto. Para lidar com ela seria necessário confiança. Sim, confiança na natureza que nos fez, em mim, no meu corpo, no meu companheiro, que esteve incondicionalmente sempre ao meu lado, no Antônio e na equipe do Instituto Nascer que me ajudou a me preparar nessas 39 semanas.
       No dia seguinte encontro com a doula Isabel conversamos sobre o parto e então sobre a dor. Ela me perguntou como lido com minhas dores em geral, dor de cabeça, dor de garganta... E me disse que de forma mais especial lidaria com a dor que trazia meu filho. Ao escutar isso me tranquilizei totalmente.
      Vamos então ao dia 21.10.2013...
     Completava 39 semanas, e era o primeiro dia da minha licença maternidade. Acordei disposta e querendo resolver o mundo, pois breve chegaria o Antônio. Meu tempo estava se esgotando. Fui caminhando até o banco resolver algumas coisas pendentes. Cheguei em casa e logo peguei uma carona com o Michel para ir a uma loja comprar coisinhas que faltavam para o quarto do bebê. Voltei de metrô, e já em cima da hora para acompanhar minha mãe até o médico. Acabei almoçando uma coxinha. Na saída do médico minha mãe queria dar um pulo ao shopping, pois ainda faltavam uns casaquinhos para o enxoval. Ainda que um pouco cansada, concordei, pois estava com fome (quer convencer grávidas de algo, pegue pelo estômago!). Andamos até, comemos, compramos várias coisas, menos o casaquinho...
      Cheguei em casa por volta da 20h, pegamos o horário de pico do trânsito. O Michel, que já tinha me ligado me procurando, estava de cara fechada pra mim. Eu ainda não tinha entendido o porque! E ao deitarmos, por volta das 22h, me deu o maior puxão de orelhas, pois deveria ficar de repouso, descansada, para quando chegasse o momento do parto. Nós havíamos nos preparado tanto! Neste momento caiu a ficha de que realmente não deveria ter feito tanto. Mas para me consolar pensei: “se tiver de ser hoje, o cansaço será meu aliado, e não terei forças para lutar contra as dores. Me restará a opção de aceitá-las...”.
     O dia tinha sido muito quente, e a noite não era diferente. Não conseguia dormir. Tinha realmente feito muito durante o dia, as costas incomodavam, as  pernas estavam pesadas... Fui deitar na rede da varanda, estava muito mais fresco lá. Não cheguei a dormir. E então algumas cólicas bem leves começavam em baixo da barriga e uma vontade grande de ir ao banheiro. O tampão já estava saindo fazia uma semana. Ao chegar ao banheiro havia sangue na calcinha. Fiquei preocupada. Era quase meia-noite: “E agora? Como acordar o Michel e dizer a ele o que estava acontecendo?”. Respirei fundo e toda sem graça o acordei. Esperava outro sermão, que não veio. O que recebi foi acolhimento e a certeza de que estávamos juntos! Não conseguimos falar com o Dr. Hemmerson e ligamos para a Dra. Alessandra que também vinha me acompanhando nas últimas consultas. Ela nos tranquilizou e nos disse que ainda não era necessário contar as contrações e os intervalos. Deveríamos deitar e procurar descansar. Assim que desligamos o telefone, nosso obstetra já retornava a nossa ligação. Reinterou as orientações e pediu que daí a uma hora e meia ligássemos dando notícias.
    Eu queria que começássemos a organizar a ida para a maternidade (Não, a minha mala e a do Antônio não estavam completamente prontas!). Eu não queria ir muito cedo para o hospital. Então, enrolei para terminar as malas. Achei que terminar as malas seria uma tarefa a fazer enquanto o trabalho de parto começasse e fosse progredindo. Mas o Michel insistiu para eu me deitar, pois eu deveria descansar. Tentamos, mas acho que ficamos uns 15 minutos na cama. Eu já não tinha posição e o Michel percebeu. Contamos então a frequência das contrações, vinham de 10 em 10 minutos. Ele deu um pulo e começou a organizar as coisas que faltavam. E com toda sua sensibilidade acendeu velas no quarto, corredor e banheiro. Elas deveriam ser acesas na maternidade, mas enquanto estávamos em casa... Minha mãe percebeu a agitação e se levantou. Ligamos para o médico e comecei a descrever para ele o que estava sentindo, mas não consegui terminar. As contrações estavam vindo mais frequentes e mais fortes. Comecei a me acocorar na varanda, segurando nas grades. Era a posição que mais me sentia aliviada. Entrava também embaixo do chuveiro para aliviar as dores. Pedia à minha mãe para me ajudar com as respirações. Busquei outras posições, mas em nenhuma outra me sentia confortável. Quis deitar, mas era impossível.
     Enquanto isso o Michel se dividia na tarefa de organizar tudo que havíamos planejado no nosso plano de parto e nos telefonemas para o Dr. Hemmerson, que já preparava a nossa ida para a maternidade. Nossa primeira opção era a suíte de parto de um hospital próximo à nossa casa. Mas ela não estava disponível. O hospital, plano B, não tinha apartamento disponível na maternidade. Então apareceu uma terceira opção com a qual não esperávamos e um hospital mais distante de casa.
     Ligamos também para a Isabel, nossa doula. E combinamos de pegá-la, pois sua casa ficava no caminho. Minha mãe sugeriu que contássemos mais uma vez a frequência das contrações, elas estavam de 2 em 2 minutos. Eu não acreditei, achava que ela havia contado errado!
     Então, já depois das duas horas da manhã, saímos em direção ao hospital, com um pulinho na casa da Isabel. Entrei no carro e era impossível colocar o cinto de segurança. E até chegarmos na casa de Isabel foi uma briga: põe o cinto, tira o cinto, põe o cinto, tira o cinto... Quando ela entrou no carro, tudo se tranquilizou, decidiu por tirar o cinto, segurou na minha mão e seguimos até o hospital. Chegando lá, o Dr. Hemmerson já nos esperava. Me levou para uma salinha para ser examinada, me deitou e auscultou os batimentos do Antônio: tudo perfeito! Mas antes mesmo de fazer o exame de toque, veio outra contração e não deixei que ele o realizasse, me levantei com sua ajuda e fomos para a sala de parto. Chegando lá a Isabel já colocou uma música tranquila e bem gostosa, ligou o chuveiro e entrei embaixo. O Michel, que havia ido estacionar o carro e fazer a entrada no hospital demorava. Eu sentia dores quando a água caía diretamente nas minhas costas, não suportava que ninguém encostasse em nenhum ponto da região lombar. O Michel chegou e a Isabel sugeriu que ele jogasse a água com um chuveirinho na minha cabeça e ela escorria até as minhas costas para aliviar a dor. Pouco depois sentia uma pressão muito grande na parte de baixo da barriga, e como se fosse uma balão, minha bolsa estourou. Estava tudo bem com o Antônio. Então saí do chuveiro e fui para o banquinho de parto. No alto do espaldar (é assim que conhecemos na educação física) o Dr. Hemmerson amarrou um tecido e quando as contrações vinham eu me agarrava a ele. Eu trabalho com circo e isso acabou sendo muito próximo e familiar para mim. As contrações vinham mais frequentes, mas por um momento ela demorou um pouco mais. Tive medo! Achei que o trabalho de parto fosse estagnar por aí. Me sugeriram deitar um pouco para descansar. E antes mesmo de conseguir me acomodar já veio a próxima contração. Daí por diante não parou mais. Comecei a sentir o círculo de fogo, cada milímetro da cabeça de Antônio saindo. O Michel ao meu lado me apoiava. Depois de umas 5 contrações, respirei fundo, senti e sabia que a próxima seria a última, que Antônio estava já chegando. E nesse momento, super conectado comigo, o Michel começa uma oração muito importante para nós: Entrega, Confia, Aceita e Agradece. E quando ele pronunciou o Entrega, eu me entreguei completamente, não havia mais dores, senti Antônio chegar! Escutei seu choro, peguei ele nos braços e Michel nos acolheu da forma mais paternal que poderia haver. Nascíamos ali, eu, Michel e Antônio.
       Foram sete horas de trabalho de parto, sem analgesia, sem episiotomia, sem pontos. Respeitada e acolhida.
 
 

Nenhum comentário: