19 de outubro de 2015

Relato de Parto - Nathália Machado

 Nos últimos 2 anos e 10 meses eu leio sobre esses assuntos diariamente, fiz congressos online, participei de rodas presenciais para gestantes, tudo para compreender o que aconteceu comigo e como poderia ser diferente numa segunda gravidez e assim foi.                                                                            PRÉ-NATAL
 
     Através de grupos maternos no Facebook encontrei o Dr. Lucas Barbosa, um obstetra humanizado que atende tanto pelo meu plano de saúde como pelo SUS. A mobilidade dele no privado e público logo me ganhou, pois eu sabia que estava cada vez mais difícil ter seu plano de parto respeitado no setor privado (pois ainda que ele assistisse meu parto eu precisava que os outros membros da equipe - enfermeiros, pediatra... - seguissem a mesma linha de trabalho que ele). Após a primeira consulta onde conversamos abertamente sobre o sistema obstétrico atual do Brasil, sobre VBAC (sigla em inglês para "parto vaginal pós cesárea") decidi que seria ele a me acompanhar no pré natal. Tive um pré-natal completamente diferente da primeira gestação, pra começar não tive nenhum toque em nenhuma consulta, simplesmente porque todos os meus exames laboratoriais e ultrassons mostravam que estava tudo bem comigo e com o bebê.
     Tive algumas consultas desmarcadas (avisadas com antecedência) porque algum bebê insistia em nascer no horário em que o Dr. Lucas deveria estar no consultório. Lembro-me que a primeira vez que uma consulta foi desmarcada por este motivo eu sorri pensando, "ele (o Dr. Lucas) realmente faz o que diz". Praticamente em todas as consultas houve atraso no atendimento, as vezes porque o Dr. chegou atrasado por estar voltando de um plantão (assistindo um parto) ou porque as dezenas de gestantes agendadas para o mesmo dia que eu aproveitavam esse momento para tirar dúvidas (eu sempre ia com as minhas anotações).
     A única vez que precisei ir a uma emergência nessa gestação foi após uma madrugada com dores na região dos rins, estava com 20 ou 22 semanas, não me lembro bem. Liguei para o meu obstetra e ele me disse para ir pra maternidade do meu plano e me explicou, por telefone, qual o procedimento eu deveria ser submetida lá. Chegando na maternidade demorei para ser atendida, mas quando isso aconteceu o procedimento foi exatamente como o Dr. Lucas havia me explicado (era uma crise renal, o útero estava contraindo os rins, por isso a dor, após medicada fiquei boa em 2 dias). Só que neste dia uma gestante em trabalho de parto aguardou junto comigo na mesma sala de espera por aproximadamente 2 horas. Eu passei pela triagem antes dela e enquanto estava sendo medicada ouvi a enfermeira comunicando ao médico que esta gestante estava com 7cm de dilatação e pedindo indicação de como proceder com ela... Levei esse caso (da espera da gestante em uma cadeira dura por tanto tempo sem ao menos ter passado pela triagem na chegada) ao meu médico e ele me disse que isso realmente acontecia nessa maternidade com gestantes que chegavam para ganhar seus bebês no plantão, não era regra, mas acontecia. Falei com ele sobre a opção de esperar o dia que eu entrasse em trabalho de parto para decidir onde ganhar meu bebê de acordo com a equipe plantonista do dia, pois a minha ideia era ficar o máximo em casa e só quando necessário ir para maternidade. As minhas opções eram a maternidade do meu plano de saúde e o Hospital Sofia Feldman (onde o meu obstetra trabalha e é referência em parto humanizado). O Dr. concordou com o meu pensamento, eu ainda o expliquei que só teria condições financeiras de pagar um profissional para me acompanhar em casa: uma enfermeira obstétrica ou doula e ele (o Dr.) logo me disse que teria que ser uma enfermeira, pois apenas ela poderia fazer toque, acompanhar o batimento cardíaco do bebê e coisas do tipo. Foi assim que decidi contatar a Odete Pregal, um amor de pessoa que já tinha visto na roda de gestantes da ONG Bem Nascer. Nos conhecemos, nos identificamos e firmamos nosso compromisso. Agora o Henrique podia chegar, já havia uma estrutura para recebê-lo.
     Formalmente eu não tive uma doula, mas via internet e whatsapp tive muito apoio. As doulas da ONG Bem Nascer, foram muito atenciosas e queridas comigo. Por muitas vezes a Bel (doula e membro da ONG) me ouviu, aconselhou e indicou profissionais pela qual eu procurava, a Odete mesmo foi indicação dela. Preciso deixar registrada a importância de ter uma doula durante a gestação, parto e pós parto, elas fazem toda a diferença.
TRABALHO DE PARTO E PARTO
     Com 38 semanas eu comecei a sentir os pródomos, uma cólica que ia e vinha de maneira irregular, as vezes durava muito tempo, as vezes não, mas não era uma dor intensa, dava pra perceber que era um aviso do corpo de que ele estava trabalhando e que o tempo de espera para conhecer o Henrique estava terminando. Mesmo não sendo um trabalho de parto eu avisei a Odete e nos alegramos juntas com essa resposta do meu corpo. Lembro-me de ter ficado ansiosa algumas vezes com essas "dorzinhas", mas sempre que me sentia assim pedia a Deus para guardar meu coração nEle, porque Ele sabia o tempo certo e eu estava disposta a esperar por este dia e assim dia após dia ia se passando.
     Sempre que eu imaginava meu parto eu pensava que ele aconteceria antes de completar 40 semanas, Um dia olhando o calendário percebi que o dia 25/06 é cheio de significados para minha família, eu e o Dani, por exemplo, quase nos casamos nesta data (nos casamos 1 semana depois, dia 02/07/05), mas neste ano de 2015 tinha um motivo especial nela, a avó do Dani (meu marido) faleceu o ano passado com 89 anos e nesse dia 25 completaria 90 anos. Seria esse o seu primeiro aniversário sem a presença dela. Foi então que fiz uma oração e disse para Deus que eu ficaria muito feliz se pudesse dar esta alegria para toda família, um motivo para fazer essa data continuar a ser de festa e homenagem a vó Maria Eugênia.
     Na madrugada de 23 para 24/06 senti muita cólicas, não eram muito ritmadas, mas em alguns momentos eram 3 contrações em 10 minutos. Só consegui dormir picado, sempre era acordada quando essa dor era mais intensa, mas depois ela diminuía e eu voltava a cochilar. Ao amanhecer eu avisei a Odete que me questionou porque eu não havia a avisado de madrugada mesmo, eu disse que achei melhor deixar ela (e também o meu marido) dormirem porque não sabia o que me esperava pra aquele dia, ela ainda fez piada dizendo: "você está esperando uma dor de morte, né?! Olha que o Henrique chega em casa sem que você sinta toda essa dor", rimos um pouco da situação e ela que já tinha agendado uma consulta na minha casa nesta quarta (24) a tarde resolveu ir de manhã para saber como meu corpo estava trabalhando.
     Quando a Odete chegou na minha casa estava apenas eu e o Danilo (meu filho de 2 anos e 10 meses), ele estava agitado, bem falante e eu seguia a minha rotina mesmo em meio aquelas cólicas que insistiam em continuar (sem ritmo). Conversamos bastante, levei o Danilo pra escola mais cedo que o habitual e quando eu e Odete ficamos sozinhas ela foi me examinar, com 39 semanas e 4 dias eu recebi o primeiro toque nessa gestação, eu não tinha dilatação, mas a Odete me disse que esses pródromos podiam continuar por 2 ou 3 dias e que ela acreditava que o Henrique chegaria ainda nesta semana. Quando a Odete estava indo embora ela colocou a mão na minha barriga e disse pro Henrique se ele podia esperar 1 dia pq na noite seguinte (25/06 as 19h) ela tinha plantão, mas continuou dizendo que se ele estivesse muito apressado ela daria um jeito. Ela foi embora e eu voltei a minha rotina, agora menos intensa porque minha mãe chegou para ficar comigo, o combinado era ela cuidar do Danilo e da casa no parto e parte do pós parto.
    Nesse mesmo dia, as 23h as dores ficaram mais frequentes, segui a recomendação da Odete e tomei um banho longo, bem quentinho e fui dormir, as 04h eu acordei sem lugar, as dores aumentaram e eu corri pro chuveiro mais uma vez, depois corri pra sala, sentei na bola de pilates (a Valmária que eu nem conheço pessoalmente se prontificou a me emprestar essa bola numa conversa num grupo de maternidade no Facebook - obrigada, querida!), cronometrei algumas vezes as contrações e elas estava 3 em 10 minutos, com duração de 40 segundos a 1 minuto cada. Liguei para a Odete as 06:10h e ela assim como eu concordou que era melhor ir para minha casa, era dia 25/06, eu estava com 39 semanas e 5 dias de gestação.
    Odete chegou, me observou, cronometrou, conversamos um pouco, fez o toque e para nossa surpresa eu estava com 3cm de dilatação, eu confesso que achei que seria 1cm, me animei, mas no fundo eu achava que aquilo duraria muito tempo, uns 2 dias. Por isso eu disse para o meu marido que ele podia ir trabalhar (nesse dia ele trabalharia das 09 as 14h), ele foi dizendo voltar se eu o ligasse. O tempo foi passando e as contrações ficando cada vez mais ritmadas. As 14:20 mais ou menos meu marido chegou do trabalho, eu já estava com 6cm de dilatação (um novo toque foi feito porque em uma das escutas do batimento cardíaco do Henrique houve uma alteração, pequena, mas ouve e queríamos saber se eu já havia passado o período mais demorado da dilatação (que é até os 4cm). Por estes motivos, decidimos que já era hora de irmos para a maternidade. A Odete ligou nas duas maternidades que eu tinha como opção (particular e pública), na particular não tinha em plantão nenhum profissional que eu tinha boas recomendações tanto do meu médio como das minhas pesquisas e a Odete também não conhecia nenhum deles. Por isso decidimos ir para o Sofia Feldman, onde a Odete conhecia de perto a equipe em plantão naquele dia. Antes de irmos minha mãe perguntou para a Odete se o Henrique nasceria ainda naquele dia e ela respondeu que talvez chagasse atrasada para o seu plantão daquele dia (as 19h), mas não muito porque o Henrique estava bem pertinho de chegar. Eu confesso que não me animei muito com ela porque eu continuava achando que demoraria muito. Até chegar no carro me abaixei algumas vezes no caminho para aliviar a dor, fiz as minhas vocalizes no carro durante as contrações e o Dani dirigiu concentrado durante todo o trajeto. No meio do caminho a Odete avisou na maternidade que estávamos a caminho.
    Chegando no Sofia fui direto para a Casa de Parto, local onde eu não poderia ficar teoricamente devido a cesárea previa, mas por ter tido um pre natal tranquilo, a chefe da enfermagem aceitou que eu ficasse lá se no cardiocoto (exame que mede o batimento cardíaco do bebê) não desse nenhuma alteração, fiz o exame e a oscilação persistiu, a Bia (enfermeira obstétrica responsável pela casa de parto) aconselhou que a minha bolsa fosse estourada (em meio a dor eu achei que esse conselho era para acelerar o trabalho de parto, mas na verdade elas queria ver a cor do líquido - por causa das dores eu já não raciocinava direito), a bolsa foi estourada e eu transferida para o prédio da maternidade, eu não poderia continuar na casa de parto, havia um pouco de mecônio no líquido aminótico. Lembro de ter perguntado para a Odete se estava tudo bem e ela disse que sim, que tudo estava sendo monitorado, eu continuei confiando e em nenhum momento (de verdade) tive medo, me sentia amparada por Deus, meu marido e por aquela equipe que me respeitou o tempo todo.
     Quase 19h eu chamei a Odete e pedi uma analgesia, eu precisava descansar, ela me disse que faltava pouco e que eu aguentava, mas eu insisti. Fui avisada de que a sala de anestesia estava sendo usada e que eu precisava aguardar uns 20 minutos, continuei no chuveiro para amenizar as dores, neste meio tempo o meu obstetra, que não estava de plantão naquele dia, mas passou por lá foi até a sala que eu estava e disse que arrumaria uma sala de parto com banheira pra mim já que eu estava melhor na água quente. Logo ele voltou dizendo que uma sala tinha acabado de ser liberada e assim que estivesse limpa eu seria transferida. Nos desejou boa sorte e se foi.
    Decidi sair do chuveiro, já tinha muito tempo que eu estava lá, eu já tinha ficado na bola, no banquinho de parto, havia tomado suco, comido gelatina e mexerica, tudo nesse banho, rs. Foi bom ter saído porque eu acho que a água quente estava baixando minha pressão, quando voltou a temperatura do meu corpo eu fiquei mais animada.
     Um novo toque foi feito e eu já estava completamente dilatada, a Odete me avisou que a analgesia naquele momento poderia prejudicar o parto, pois o Henrique já estava muito baixo, o que poderia se tornar necessário fórceps ou uma cesárea. Eu concordei que era melhor não ter a analgesia, fiz uma oração rápida e pedia a Deus que me ajudasse a vencer aquele cansaço. Sentei no banquinho de parto (eu queria parir de cócoras), a Poliana, enfermeira obstétrica da maternidade que me acompanhava me explicou que o Henrique precisava nascer logo. Eu não tinha vontade de fazer força em todas as contrações, mas como era necessário segui o conselho dela e tentei a cada contração fazer meu filhote nascer. Fiz a força errada várias vezes, mas continuei tentando, ao meu redor os profissionais estavam sentados no chão, de pé ao meu redor, Daniel me apoiava as costas, cada um no seu papel profissional, mas que naquele momento entendiam que eram apenas incentivadores, espectadores e ajudadores caso fosse preciso.
     O Dr, Roberto foi chamado, pois o batimento do Henrique começou a oscilar cada vez mais, eu pedi uma pausa a equipe e disse que sabia que eles estavam respeitando meu plano de parto, mas que se fosse necessário naquele momento poderíamos partir para o fórceps ou cesárea, pois eu entendia que o Henrique precisava nascer e por algum motivo eu não estava conseguindo.  O Dr. disse que tudo estava sendo monitorado e que o que fosse preciso seria feito. Ele me disse que eu precisava deitar na cama e que ele me ajudaria "buscando" o Henrique com as mãos, ajudando na abertura do meu períneo, lembro de sempre fazer força olhando nos olhos do Dani porque os olhos dele brilhavam a cada vez que ele falava que já estava vendo o Henrique e que eu ia conseguir. Não sei quantas contrações foram necessárias para que o Henrique nascesse, foram muitas, mas foi assim que ele nasceu, em meio a um grito que eu nunca tinha dado na vida, que veio de uma forma muito intensa de dentro de mim. Um grito de dor, alívio, renascimento de uma mãe, mulher... Um grito que foi calado pelo choro do Henrique, que apesar de ter a braquicardia não precisou de nenhuma assistência médica, veio direto para o meu colo, ficamos nos dois nos aquecendo naquele pele a pele, conversando enquanto a placenta nascia, enquanto tirávamos fotos, enquanto os pontos da laceração eram dados... Foi doloroso, mas foi lindo. Henrique nasceu as 20h24min, do dia 25/06 (no aniversário da vó Maria Eugênia), com 49cm, pesando 2.920kg.
 FILHO RESPEITADO
     A coisa mais linda que eu tenho para destacar no meu relato de parto em relação aos profissionais foi o quanto o meu plano de parto foi respeitado. Após o nascimento do Henrique, assim como eu pedi ficamos abraçados pele a pele, ele não foi aspirado, não recebeu colírio, só foi medido e pesado aproximadamente 1 hora após o nascimento, não tomou banho, tudo isso foi feito na sala de parto, ao meu lado, mas uma frase e atitude resume todo este respeito: meu marido saiu da sala para buscar o meu jantar, nesse meio tempo ele demorou um pouco. A Graice, enfermeira que ficou na sala de parto comigo nesse meio tempo me disse (exatamente com essas palavras): "Nathália, eu sei que no seu plano de parto diz que a vitamina K deve ser aplicada no colo do pai, como seu esposo ainda não voltou será que eu posso aplicar a vitamina com o Henrique no seu colo?". Eu concordei, segurei o Henrique emocionada tamanha atenção dela em fazer a minha vontade. O Henrique, quentinho, amparado no colo da mamãe nem chorou.
PRA TERMINAR...
     Eu, como muitas brasileiras, precisei abrir mão do meu plano de saúde no momento de dar a luz ao meu filho, fui acolhida numa maternidade pública - Sofia Feldman - que me abraçou com carinho e respeito, me sinto na obrigação de destacar isso no meu relato, pois eu tive mais pessoas que contra do que a favor para que eu fosse ter meu filho no SUS. Durante toda a minha internação eu e meus acompanhantes (ora meu marido, ora minha mãe), nos alimentamos muito bem, eu e Henrique fomos examinados várias vezes no pós parto. eu já sabia que teria que ficar num alojamento conjunto e fui preparada pra isso, confesso não ter conseguido descansar por causa do coro dos bebês chorando de madrugada (e também porque o Henrique mamou varias vezes, rs), mas como para mim a hotelaria do hospital não era prioridade acolhi aquele momento como necessário.
     Após viver esse sonho de dar ao meu filho a oportunidade de nascer com respeito, esperando pelo seu momento de nascer eu cheguei a conclusão de que eu dei ao Danilo e ao Henrique o meu melhor. Me submeti a uma cesárea acreditando está salvando a vida do Danilo. Como já tinha acesso a outras informações eu precisava fazer tudo diferente dessa vez e foi por isso que eu fiz.
     Eu renasci como mãe, como mulher, como cristã... Agradeço a Deus pela dádiva de ter os meus filhos saudáveis.
     Obrigada ao meu marido por me apoiar nas minhas escolhas.
     Obrigada Danilo e Henrique por me fazer mãe, por cada abraço, aconchego... Amo vocês bem forte!
     Obrigada a Odete que foi minha enfermeira obstétrica, doula, amiga... Me abraçou, massageou, apoiou, me lembrou o quanto o meu corpo estava respondendo bem no trabalho de parto. Eu sei que sem a sua assistência tudo teria sido diferente.
     Obrigada a minha mãe que cuidou e cuida de mim e da minha família da melhor forma possível (estou ficando mal acostumada com o café na cama todas as manhãs no meu resguardo).
     Sou muito grata aos meus amigos de perto e de longe, aos meus familiares que nos cercaram de carinho durante essa gestação.
     Que mais relatos de nascimentos cercados de respeito circulem pela rede.
Nathália Machado
 






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