2 de outubro de 2015

Relato de Parto - Kenia Fernandes

Kenia Cristina Fernandes Freire
Papai - Bruno
Parto: 29-09-2013
     Um aborto retido em 2011. 35 anos. Um aprendizado intenso e contínuo de lá para cá. Aprendizado sobre a vida, sobre a maternidade, sobre mim mesma, sobre a natureza, sobre meu corpo, sobre o relacionamento com meu marido. 2013. 37 anos. Uma gravidez extremamente desejada, ansiada, vivenciada. Uma gestação calma, sem intercorrências importantes. Muitos planos, inclusive um plano de parto com cinco laudas, nunca apresentado ao obstetra... Uma bolsa rompida às 33 semanas de gestação. Um parto prematuro às 33 semanas e 4 dias. Susto, medo, lágrimas, resignação, alegria, aprendizado e nenhum planejamento. Esses são os primeiros capítulos da vida de Helena, nossa filha tão querida e desejada.
      A descoberta da gravidez em fevereiro foi uma das maiores alegrias da minha vida e, também, uma das maiores fontes de ansiedade que já vivenciei. Em parte porque sou um poço de ansiedade e tenho um desejo intenso e absurdo de tudo controlar, em parte porque o aborto anterior me deixou muito apreensiva. Mas a gestação e o pré-natal foram transcorrendo bem, um dia de cada vez, aprendendo a lidar com os medos, curtindo a barriga, planejando com muito amor a chegada da nossa filhotinha... É, mas gestação é imprevisível, nossa vida é imprevisível, a vida que geramos é autônoma e, definitivamente, não nos pertence.
     25 de setembro – data em que completamos 33 semanas de gestação – um dia emocionalmente tranquilo. Dia de muito trabalho, mas tranquilo, alegre. Após fazer uma torta de frango, bater papo com uma prima querida que veio me visitar, sentei no sofá e fui assistir televisão tranquilinha. Por volta de 21h30 senti uma pressão forte no baixo ventre e percebi um líquido claro e quente escorrendo pelas minhas pernas. Saí de mim. Sabe aqueles sonhos em que a gente desespera, aí acorda e percebe com grande alívio que era só um sonho? Pois é. Fiquei alguns segundos esperando o despertar. Mas era realidade e eu sabia exatamente o que estava acontecendo. Estava sozinha em casa. Liguei para o Bruno, meu marido. Não atendeu. Liguei para Dr. Hemmerson, o obstetra. Não atendeu. Fui ao banheiro. O líquido não parava de sair. Liguei para meu irmão, pois o Bruno estava com ele jogando tênis: “Cadê o Bruno?” Perguntei. “ Ficou lá batendo bola, eu já to chegando em casa”. “Preciso dele, minha bolsa rompeu”. Falei. Coitado. Ele ficou desesperado. Praticamente ao mesmo tempo Dr. Hemmerson e Bruno retornam as chamadas. Atendi primeiro o médico. Porque será, hein? Contei o que tinha acontecido e falei que estava desesperada. Ele pediu para eu me deitar, perguntou se sentia contrações e falou para eu esperar tranquila enquanto ele tentava me internar em uma maternidade com vaga em UTI neonatal. Bruno chegou e, por baixo de sua aparente calma, percebi o homem hipertenso e ansioso que ali se esconde. Mas ele possui uma grande aliada interna: a fé. Uma imensa fé em Deus e no curso da natureza. E isso foi fundamental para me manter em paz. Dr. Hemmerson ligou algum tempo depois. Acho que demorou. Para mim foi uma eternidade. A pessoa que odeia hospital queria se teletransportar para um, qualquer um. Fomos para o Vila da Serra. Realmente havia sido difícil conseguir a internação. Constatação médica: bolsa rota, mas nenhum sinal de dilatação. Internada, iniciamos as condutas possíveis: injeções de corticoide para amadurecimento dos pulmões de Helena, hiper-hidratação, monitoramento de infecção, ultrassonografia e monitoramento cardíaco fetal. Dr. Hemmerson explicou que tínhamos algumas escolhas: 72 horas após a primeira injeção de corticoide (seriam duas, ministradas com intervalo de 24 horas) induzir o parto ou esperar pelo trabalho de parto permanecendo no hospital – o que facilitaria o monitoramento - ou, até mesmo, ir para casa e continuar a monitorar diariamente. Tivemos muitas dúvidas, foram momentos de muita angústia, sensação de culpa, dificuldade de escolher entre as poucas possibilidades... Mas no meu íntimo sabia que entraria em trabalho de parto e queria que ela nascesse quando escolhesse. Não queria induzir. Perguntei qual o principal risco de bolsa rota: infecção. Mas na UTI neonatal também tem infecção, como me disse o Dr. Hemmerson, então...
      Precisei de muito suporte emocional e recebi. Do meu marido, do médico, das doulas (Isabel, que me fez uma visita maravilhosa no hospital e Lena, que nos acompanhou no parto).
      No sábado (28/09) à tarde comecei a sentir cólicas não ritmadas. Estava com uma fome maluca e descompensada (graças a Deus meu irmão me levou comida de verdade!!!!) e não saía do banheiro. Helena mexia demais. Pensei: “tem caroço nesse angu...” Dr. Hemmerson chegou à noite, fez os exames rotineiros, reiterou que estava tudo bem e perguntou o que gostaríamos de fazer. Não respondia nada objetivamente porque estava confusa: não queria induzir, não sabia quanto tempo conseguiria esperar no hospital, mas também não queria ir para casa. No fundo eu tinha certeza de que entraria em TP em breve. Dr. Hemmerson foi embora, mas acho que ele nem chegou a tomar um copo d’água em casa!!! Por volta das 23 horas as cólicas apertaram, o chamei de volta e ligamos para a Lena. Todo mundo chegou a tempo de me salvar da plantonista, que já estava por lá urubuzando meu parto: “Ah, 33 semanas e 3 dias...parto normal...sei”. Fomos para a suíte de parto. Sem plano de parto (meu pequeno tratado já não fazia sentido naquela situação, principalmente o desejo de um parto na água e a preocupação com intervenções pediátricas), sem a seleção musical que estava fazendo calmamente para a ocasião (levamos meu notebook e as músicas que estavam salvas nele: as 500 melhores da revista Rolling Stones...de Bob Dylan a Black Sabbath. No mínimo Helena vai ser eclética!!!). Estava totalmente entregue à natureza. Na suíte de parto fui tratada pela enfermeira como um ET : “parto normal e bebê prematuro...misericórdia, você é muito corajosa. Felizmente ela não voltou mais...
      Começamos mesmo do começo: 1 centímetro de dilatação. Pensei; “isso vai demorar”. Pensei também nas ironias da vida. Durante a gestação minha maior preocupação era a hora de ir para a maternidade. Não queria chegar com algo como 1 centímetro... e ali estava eu, com 1 centímetro, no hospital. Então o jeito era vivenciar aquilo da melhor maneira possível, não é mesmo? Massagem da Lena com óleo de arnica (ai, que alívio!), massagem do marido, chuveiro, bola, dor, alívio de novo e a maravilhosa sensação nos intervalos das contrações (algo semelhante a um torpor intenso, uma sensação de desmaio, de quase morte, a qual me entreguei totalmente). Lena me disse para fazer uma vocalização alta e longa. E como funcionou!! As contrações pareciam ser mais breves, eu sentia meu corpo se abrir, esvaziar e a dor invadi-lo. Aquilo era estranhamente bom. Dr. Hemmerson voltou e pediu para sair do chuveiro para monitorarmos o coraçãozinho da Helena. Foi penoso sair dali! Ele percebeu queda dos batimentos durante as contrações e verificou 4 centímetros de dilatação. 4 centímetros? Devo ter passado pouco mais que 1 hora naquele chuveiro!!!!!!! . Possivelmente a força das contrações estava causando a queda dos batimentos. Dr. Hemmerson disse que era um corpinho muito pequeno para suportar tanta intensidade. Ele sugeriu uma analgesia leve para aliviar um pouco a pressão sobre ela. Concordei, mas fiquei pensando no transtorno que seria sair dali, daquela penumbra, um ambiente que já estava confortável, quente, aconchegante e ir para o bloco cirúrgico. Boa notícia: o anestesista iria à suíte, apenas pediu para Lena e Bruno saírem. A aplicação da analgesia foi o pior momento de todo o TP. Na verdade só de imaginar que teria que ficar parada, quieta, já sentia náuseas. Não dava nem para pedir para esperar intervalo de contrações. Elas vinham tão fortes que pareciam contínuas, sobrepostas. O jeito foi me agarrar no que fosse possível e gritar. O possível foi a mão do Dr. Hemmerson e o grito deve ter acordado o hospital inteiro.
      Apesar do transtorno, acabou sendo interessante. Descansei um pouco e continuei com movimentos normais (na verdade ainda sentia um pouco de dor) o que permitiu continuar me movimentando na bola, fazendo agachamentos e massagens. Algum tempo depois (não sei quanto, mas acho que não muito) novo monitoramento: 8 centímetros!!!!!! Pensei: “Já?”. A partir daí minhas lembranças são nebulosas, confusas: “coloca o banquinho, chama o pediatra, tem que ir para o bloco? Não. Todo o aparato pediátrico vai ser montado na própria suíte (viva!!!), senta no banquinho, deita na bola, deita na cama, volta pro banquinho. Ela tem que nascer!!!!”. O expulsivo demorou mais do que imaginava. Pela primeira vez naquela noite eu sentia medo. Medo da prematuridade dela, medo do que ia acontecer. Além disso, a analgesia precisava acabar para eu voltar a ter sensações mais fortes, precisava delas. Lena e Dr. Hemmerson tentavam me ajudar a vocalizar e me posicionar de forma mais eficiente. Bruno me abraçava por trás, falava no meu ouvido tentando me encorajar, mas eu estava estranhamente cansada e tensa. Mas aí o Dr. Hemmerson falou: “Kênia, agora é com você, se demorar vai ser um parto médico”...foi a senha!!! Em um instante de racionalidade pensei em episiotomia, em fórceps e falei para mim mesma: de jeito nenhum!!! Também me lembro de ele ter dito para senti-la coroando. Que mágico aquilo! Era a cabecinha do meu bebê! Quando fiz isso me veio uma força meio sobrenatural. Fiquei feliz, queria que ela nascesse, adorei senti-la chegando. Lembro-me de, nesta reta final, ter ficado com uma raiva feroz dos três (Bruno, Lena e Dr. Hemmerson). Não queria ouvir a voz de ninguém. O Bruno, coitado, eu mandei ficar calado ao mesmo tempo em que tentava agarra-lo!! Fiz toda a força que pude, gritei tão profundamente que, dessa vez, devo ter acordado o Vila da Serra e o Belvedere inteiros... e ela nasceu, às 5h37. Calma, tranquila, pequenina (com uma circular de cordão!!) e foi direto para os meus braços. Papai cortou o cordão, o pediatra examinou no meu colo (um verdadeiro anjo respeitoso que Deus colocou no plantão daquela noite. Melhor do que o planejado no meu engavetado plano de parto) e só depois de algum tempo a levou ao bercinho aquecido. Ela voltou ao meu colo quando me deitei e ficou em contato conosco. Momento mágico e delicioso. É como se o tempo tivesse parado. Lembro apenas que o dia amanhecia e uma bem vinda chuva caía mansa e constante.
      Mas se dá para ter um pouquinho mais de emoção, para que economizar, não é verdade? Assim que me levantei do banquinho percebi um dor forte na lombar que descia até o cóccix. Uma dor estranha. Deitei-me e o misto de prazer - provocado pelo parto - e alívio por ver que nossa filha – apesar de pequena – era saudável, me fez esquecer a dor. Ela voltou para os meus braços, tiramos fotos, namoramos sua carinha, enfim, não conseguia me desconectar daquela alegria e pensar na dor que teimava em permanecer. Então Dr. Hemmerson me disse que a placenta não queria sair. O pediatra levou Helena, explicando que pela prematuridade era hora de encaminha-la à UTI neonatal. A dor aumentava. Percebi preocupação no semblante do Dr. Hemmerson. Essa dor sim, era insuportável. Dilacerante. Profunda. Não eram contrações para expulsão da placenta. Era uma dor funda, patológica. Estava incomodada demais, queria ficar livre daquilo a qualquer custo, mas, ao mesmo tempo, não conseguia me preocupar. Apesar de saber o tamanho do problema.
Havia destacado a preocupação que tinha com esse momento no meu plano de parto...que coisa, hein? Sempre ouvi falar da tal placenta que não sai. Minha mãe passou por isso em um dos seus partos. Ela teve uma séria hemorragia e quase foi embora. Mesmo assim eu não sentia medo. Estava plena, feliz, em outro plano. Pois é. Tivemos que ir para o bloco cirúrgico. Pode isso? Depois de um parto tão bacana? Mas não fiquei triste, nem frustrada. Era como se eu assistisse a tudo aquilo e não estivesse lá. Eu era a mulher que havia acabado de parir e pronto. A tensão continuava. O anestesista (que havia sido tão bacana lá na suíte de parto) surtou e, sei lá porque, parecia não querer me anestesiar. Eu não suportava nenhum toque. Doía terrivelmente. E o cara lá, fazendo doce...Ele fez o serviço dele após o Dr. Hemmerson falar que era uma emergência, que era sério, que eu poderia perder o útero. Enquanto o procedimento era feito eu continuava percebendo pelo semblante e pelo esforço do médico o tamanho do problema. E continuava sem me preocupar. Graças a Deus e à tempestividade do Dr. Hemmerson deu tudo certo e minha história é mais leve que a de minha mãe. Pedi para ver a placenta, mesmo que “avariada”. Sei lá, queria conhecê-la e me despedir dela. Foi meio melancólico isso. Dias depois ainda procurava motivos para o “acontecido”. Do ponto de vista médico pode ter sido ocasionado até mesmo pela curetagem realizada em 2011. Mas, sei lá, penso, às vezes, que ali estava minha tristeza por “abandonar” a gravidez tão cedo. Adorava estar grávida, queria continuar grávida mais tempo. Quando percebi que não dava, quis receber minha filha com respeito, alegria, amor e resignação. Mas ali estava um pedaço da minha gestação, pedaço que nutriu, que cuidou de minha pequena. Talvez não quisesse deixa-la sair. Se o parto está “entre as orelhas”, tudo é possível. 
     Helena passou 10 dias penosos na UTI neonatal para ganho de peso, observação e tratamento de icterícia. Penosos porque é um ambiente horrível, avassalador. Nossa pequena guerreira saiu-se muito bem e está aqui enfeitando nossas vidas. Pessoinha linda, florzinha miúda da primavera que tanto nos ensinou e nos ensina. Agradeço imensamente a Deus, pela dádiva dessa vida cedida a nós; às nossas famílias, que tanto tem nos apoiado; ao meu marido, pelo amor, pelo companheirismo, pela ternura, pela presença; à Lena e Isabel, pelas presenças, pelo carinho, pela força, pelo suporte, pela luz; à equipe do Instituto Nascer, vocês são lindos! E ao Dr. Hemmerson Magioni, pelo afeto, pela dedicação, por extrapolar suas obrigações profissionais e cuidar de forma integral, pelo respeito absoluto que tem pela fisiologia do parto e pelos paradoxos do feminino. Seremos eternamente gratos.
Nossa casa, outrora tão calma e vazia, agora é um ninho agitado, por vezes atrapalhado, feliz e pleno.
 

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