16 de setembro de 2015

Relato de Parto - Grazi Almeida

     Por dois anos eu e meu marido tentávamos ter um bebê sem sucesso. Na época ainda morávamos em Juiz de Fora e ao nos mudarmos para BH procurei um especialista em reprodução humana que, após uma série de exames, foi categórico: minhas chances eram mínimas. Segundo ele eu teria hipotireoidismo (esse era fácil de corrigir), trompa direita cefálica, porém o ovário em posição anatômica, o que reduziria pela metade a possibilidade de gravidez, além disso, uma possibilidade de endometriose, visualizada através de aderências no ultrassom. Os três fatores em conjunto eram a causa de não conseguir engravidar. Fui encaminhada então a reprodução assistida, cheguei a fazer todos os exames para darmos início a fertilização in vitro (FIV), mas resolvemos esperar.
    Foi então que comecei a pesquisar sobre parto humanizado, pois tendo sucesso com a FIV, queria um parto respeitoso. Encontrei o nome do Dr. Marco Aurélio Valadares e resolvi me consultar, mas não queria levar a ele todo esse histórico, queria uma opinião nova sobre o problema, sem influenciar seu pensamento. Após a primeira consulta, pude conhecer melhor o profissional e gostei. Contei sobre a dificuldade de engravidar, e usei um indutor de ovulação sem sucesso. Desencanei. Decidi que, se até o final de 2014 não tivesse engravidado, faria a FIV. Foi então que no final de Março, na semana que deveria menstruar, percebi que não estava com cólicas e não sentia dor alguma (isso era diferente, afinal eu já tinha ido parar no hospital por causa de dores nessa época!). Resolvi fazer um teste de gravidez no dia seguinte, esses de farmácia mesmo. Imaginem só minha cara de surpresa quando a segunda listra apareceu? Nossa! Saí de casa direto pro laboratório! O resultado sairia apenas16h30, foi a manhã e a tarde mais demorada que já tive! Abri o resultado: POSITIVO! Eu só pensei: como isso é possível? Fiquei muito feliz! Liguei para o consultório e marquei a primeira consulta.
     Foi aí que meu parto começou: na primeira consulta do pré-natal. Meu marido me acompanhou em todas elas e à medida que os meses passavam, tínhamos a certeza do parto natural. Tive uma gravidez tranquila, não tive enjôo, apenas um sono que me consumia de tal forma que não conseguia fazer mais nada da vida, mas valia a pena. Todos os meses íamos nas palestras do Núcleo Bem Nascer e a cada palestra uma certeza: parto natural.
     Aqui vale um parêntese. Um belo dia meu bebê resolveu brincar de estátua. Não mexeu de manhã... não mexeu de tarde... era 18h e nada! Dr. Marco estava de férias.. liguei para o Dr. Sandro que me atendeu super bem e pediu que a Dra. Alessandra me examinasse. Ela pediu que o Dr. Renato fizesse um ultrassom para verificar melhor a situação, estava tudo bem. Percebi nesse episódio a importância do núcleo, de estar assistida não só por um profissional, mas por colegas que têm o mesmo pensamento e cuidado que aquele que te acompanha.
     Bom, vamos ao parto!
     Era 12h do dia 28/11, estava na sala de casa, sentada, senti algo molhado e troquei de calcinha. Cinco minutos depois, molhado de novo e outra calcinha. Mais cinco minutos, outra calcinha. A bolsa estourou? Será? Sempre imaginei aquela quantidade enorme de água saindo, mas era tão pouco se comparado aos filmes (!) e o cheiro de água sanitária? Imaginava um cheiro forte, mas era fraco, resolvi ligar para Dr. Marco Aurélio que me orientou a usar absorvente durante o dia e ligar para ele novamente a tarde. Assim fiz. Troquei um, dois, três... um pacote de absorventes! É, a dúvida não mais existia.. era bolsa rota! Chegou a hora! Esperei algumas horas para ver se entraria em trabalho de parto, mas como até as 22h nada tinha acontecido, fui para a maternidade e lá o Dr. Gildásio confirmou bolsa rota e avisou ao Dr. Marco.
     Começamos a indução às 1h com misoprostol. Às 5h30 o trabalho de parto começou efetivamente. Liguei para a Lena, minha doula. Ela chegou e começou a fazer massagens na lombar que ajudavam muito a suportar as contrações iniciais. Por volta das 7h estava com 2-3cm e fomos para o PPP. Lá usei a bola, fizemos agachamento, fui para o chuveiro... (ah como a água me acalma!) as dores começaram a aumentar muito e Lena resolveu chamar o Dr. Marco para examinar. Estava com 6cm e já não sabia mais que horas era! Nesse momento, foi-me sugerido a analgesia, pois estavam preocupados com a intensidade das contrações devido a indução. Eu gostei da ideia, mas achava que podia suportar um pouco mais. Foi então que a Lena, que já tinha enchido a banheira, me levou pra lá e dessa parte, minhas queridas, não lembro de quase nada. Parece que eu estava fora de mim. A dor era insuportável, eu gritava, chorava, molhava todos que estavam em volta, mas dormia entre as contrações (sim, isso é possível!). Lembro-me de alguém ter falado que o Dr. Sandro iria nos acompanhar também, mas só me dei conta de que ele realmente estava lá horas depois. Chegou a um ponto que ouvi o Dr. Marco dizendo: “está demais, vamos para a anestesia”. Eu concordei, realmente, era demais.
     Quando chegamos no centro cirúrgico para fazer a anestesia, eu estava com 8-9cm. Fiquei feliz! Era 12h e quase dilatação total! Ufa! Ela não demoraria a nascer, pensei. Após a anestesia, quanto alívio! Me lembro de ter me questionado do porque não ter feito isso antes! Voltamos para o quarto e continuamos com os exercícios. Eu estava determinada a ter meu tão sonhado parto normal. Percebi que as dores começaram a voltar.. sim, elas voltaram com força total! Fomos para a bola, fiquei lá mais algum tempo pedindo pela anestesia novamente. Eu não conseguia mais aguentar tanta dor. Depois de alguns longos minutos, volto para o centro cirúrgico para a segunda dose e que demora! Me lembro de apertar tanto a mão do Dr. Marco Aurélio, coitado! A segunda dose veio, pude dormir, estava com dilatação total, porém a bebê tinha descido com a cabecinha na posição transversa. Eu teria que esperar mais algumas horas.Lembro-me de ter ouvido o Dr. Sandro falando: “verifique BCF, se estiver ok damos prosseguimento. Se não, faça a conversão”. Percebi que não queriam falar a palavra “cesárea” perto de mim e me dei conta de que era agora uma possibilidade real que eu não havia nem cogitado.
Após a segunda dose, tive que permanecer no centro cirúrgico. Não lembro ao certo o porque, mas ouvi que ali seria mais seguro. Só pensei: “ahhh, a banheira”...  Ali no centro cirúrgico chegaram meu marido e a Lena para continuar me ajudando, eu tentava de tudo, mas nada dela descer. Percebi que o parto que eu desejava não aconteceria e me entristeci. Olhei para meu marido e falei com ele: “já deu, acho que precisamos da cesárea”. Ele concordou na hora. Era o melhor a fazer. Quando o Dr. Marco entrou na sala, falamos da nossa decisão e já fomos para a outra sala dar início ao procedimento.
     Lembro-me de sentir puxões, um aperto no peito, aquele barulhinho de hospital disfarçado pela música ao fundo. Comecei a achar que estava demorando demais e perguntei à Lena: “Já tiraram ela?”, Lena disse que sim, então perguntei: “e porque ela não chora?”, ela respondeu: “estão fazendo sucção, essas coisas.. fique tranquila, está tudo bem”.
     “Que sucção mais demorada!”, pensei. Olhei para o meu marido com medo, ela não chorava! Após alguns minutos (sim, para mim foram minutos, horas!), ouvi um chorinho fraco e fiquei aliviada. Gabriela nasceu! Ufa! Ela nasceu! A pediatra levou-a para próximo a meu rosto, o anestesista pegou minha mão e colocou sobre o bebê. Fiquei feliz, realizada, aliviada!
    Dessa história, gostaria muito que ficasse o seguinte: se prepare para o parto dos seus sonhos, mas também se prepare para aquele que você não quer. Imprevistos podem acontecer e você terá que lidar com eles da melhor forma. Eu não estava preparada para a cesárea, não queria a cesárea. Depois dela ter acontecido, fiquei triste, não tive meu parto normal, porém estou agora grata por saber que ele não me foi roubado, pelo contrário, foi tentado até a última possibilidade.
 

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