7 de setembro de 2015

Relato de Parto - Flávia Gomes

Relato nascimento Bianca
29/10/2014 (40sem + 6dias)
Já há 9 dias eu estava de Licença Maternidade, pois me sentia muito pesada (engordei 15kh durante a gestação) e cansada. Ha 9 dias eu e meu esposo acordávamos e deitávamos chamando nossa filha, dizendo que a estávamos esperando.
Era quarta-feira, tinha aula de yoga para gestantes e resolvi ir, na semana anterior não tinha ido e queria sair de casa. Fui recebida com muito amor e as meninas falando que achavam que não me veriam grávida mais. A professora até falou com as demais: "ela tá com uma aura de mulher que vai parir, vocês não acham?" No meio de um exercício, por volta das 18h comecei a sentir cólicas.
 
Lembro de ter sorriso e pensado: começou! Terminei a aula prometendo que daria notícias. Quando
Cleber chegou pra me buscar não pude entrar imediatamente no carro porque estava no meio de uma contração. Ele ficou super animado e ainda perguntou: "É sério???" Tive que voltar pra casa no banco de trás do carro porque ficar sentada tendo contrações é horrível! Já em casa, por volta das 21h, lembro de não encontrar posição agradável, mas andar aliviava um pouco. Eu tinha sono mas não conseguia dormir então comecei a cronometrar e as contrações estavam com intervalos de 3 minutos.

Meia hora nesse ritmo e resolvi mandar mensagem pra minha EO que me ligou e conversou comigo, perguntou se eu queria que ela viesse me examinar, se eu estava pensando em ir pra maternidade.
Disse que não precisava vir (ela mora a uma distância considerável e eu não quis incomodá-la, ainda mais naquele horário - por volta das 23h) e que eu também não estava pensando ir pra maternidade ainda. Levantar da cama quando a contração vinha era muito doloroso, então resolvi ficar na sala.

Fazia xixi a cada 10min e percebi o tampão saindo aos poucos. Chegou um momento que estava com tanto sono que quando a contração vinha nem levantava do sofá, rebolava sentada até ela passar.

Tinha estipulado que às 5h iria acordar meu esposo para irmos pra maternidade. Mesmo antes de engravidar eu já havia decidido que iria para o Sophia Feldman, independente do plano de saúde.
Passei a madrugada sentada no sofá, rebolando durante as contrações, cochilando entre elas.
30/10/2014 (41sem)
Chegamos no Sofia por volta das 6h e no exame de admissão foi constatado que eu estava de 2cm. A enfermeira Bruna, super atenciosa, me perguntou se eu queria que fizessem o descolamento de membranas no que eu recusei e ela disse "tudo bem".  Super educada (todas da admissão eram) elogiou meu pré natal e o cartão completamente preenchido. Manifestei meu interesse em ir para o CPN - Centro de Parto Normal ao que me disseram que não era protocolo admitirem lá gestantes com essa idade gestacional, mas que assim que meu TP engrenasse, como meu pré natal não teve nenhuma intercorrência (nem infecção de urina eu tive), eu iria pra um quarto lá. Me colocou uma pulseira e meu esposo fez a ficha de internação. Estávamos em êxtase! Nossa Bianca estava chegando. O pré parto estava lotado então tivemos que esperar no corredor. Enquanto isso, andamos e agachamos como loucos! Mas as contrações haviam espaçado...

Escutávamos bebês nascendo e eu me emocionava imaginando quando fosse a minha vez. Quando desocupou uma baia me deram uma camisola e me encaminharam pro chuveiro pra medir as contrações. Elas, de fato, se foram. Era uma a cada 10min! Só fazíamos andar pra ver se ajudava. Um tempo depois (a partir desse momento não tenho noção nenhuma do intervalo dos acontecimentos) a enfermeira veio fazer o primeiro toque e eu estava de 4cm, duas contrações a cada 10min. Uns 30min depois a enfermeira XXXXXXX  XXXXXXX perguntou pra uma enfermeira (do Mato Grosso, se não me engano (que estava no Sofia fazendo treinamento) a situação e ao ouvir 4cm perguntou pra essa enfermeira se ela também havia feito o toque, e no que essa negou, a XXXXXXX mesmo veio repetir o exame. Num momento comecei a sentir dor e percebi que ela estava girando os dedos, descolando a membrana. Falei claramente que não queria que descolasse e ela dizia "calma" e então eu gritei que não queria e ela dizia "já está acabando". Foi uma dor horrível!! Eu gritava "não!!!" mas eu não tinha voz naquela hora. Meu esposo ao meu lado, segurando minha mão, sem reação. Quando ela acabou eu estava chorando feito um bebê.  A dor do desrespeito foi terrível.  Após isso comecei a sangrar como se estivesse menstruada.
Vieram chamar para fazer práticas no Núcleo de Terapias Integrativas Complementares. Fui, afinal, tudo era válido para engrenar o TP. Fiz o escalda-pés, mas não conseguia relaxar. Eles monitoram os batimentos do bebê e as contrações frequentemente e estava tudo ótimo, mas a bendita enfermeira XXXXXXX sugeriu um cardiotoco. Quando pedi pra ser feito comigo sentada ou de quatro apoios, não foi permitido. Se sentada contração já dói, imagina deitada! Acho que fiquei quase uma hora fazendo o tal exame. UMA HORA deitada com contrações! O exame deu alterado - lógico - e ela sugeriu sofrimento fetal. Eu disse que gostaria de repetir mas em outra posição e ela disse que levaria pra avaliação do médico. Outro toque foi feito e ainda 4cm. Voltamos a caminhar e agachar. O médico liberou novo exame com a cabeceira da cama elevada. Eu fiquei todo o exame (mais 45min) de olhos fechados, deitada de lado e meu esposo me lembrando de respirar direitinho. Minha princesa se recuperava lindamente! Minha doula, quando entrou e meu esposo saiu, me lembrou de não lutar contra a contração, pensar que era menos uma e realmente doía menos assim.
31/10/2014 (41sem + 1dia)
Depois do exame e de muitas caminhadas, agachadas e um novo toque com 6cm, pedi pra romperem a bolsa. Já era outro turno e a bendita enfermeira havia ido embora. No novo turno a enfermeira Isabel foi um anjo, me tratou com respeito falando tudo que acontecia. Ao romper a bolsa percebeu um amarelinho no líquido, mas nada anormal, segundo ela. Na avaliação seguinte os mesmos 6cm. Ela me explicou que as contrações estavam ótimas (intervalo e duração) mas que eu não estava dilatando, que me colocar ocitocina poderia ser dor a toa, já que a mesma é pra contração e isso eu já estava tendo. Assenti com a cabeça sinalizando que havia entendido a situação. Ela disse que a situação seria passada pro médico avaliar. Perguntei se podia voltar a andar e ela fez que sim. Lembro de ter chorado como nunca antes na vida.

Eu ia pra faca. Tudo que eu não queria ia acontecer. Me senti incapaz. Tudo que eu havia estudado, lido e lutado estava indo pro saco! Até que um trecho de música veio na minha cabeça:  "confia em Deus que Ele sabe tudo". Eu cantava baixinho e chorava. Meu esposo assustado me pedia calma. A Isabel nos chamou e o médico me examinou novamente, concluindo: "seu colo está super favorável.
Vamos colocar só um cheiro de ocitocina, bem fraquinho, só pra ajudar na dilatação. Você vai parir!"
Acho que cheguei a gargalhar de felicidade! "Obrigada, meu Deus!" Pedi analgesia pois já estava há mais de 24h sem dormir. Ele assentiu e ainda disse que seria bem fraca, apenas 30min, o suficiente pra eu dormir e recuperar forças pois eu precisaria pro parto. Após colocação da ocitocina e aplicação da analgesia (fiquei com um cateter pro caso de um repique da dose) fui transferida pra uma suíte de parto. Não poderia ir pro CPN (lá não tem nenhum tipo de analgesia) e por causa do acesso na veia e do cateter não poderia mais usar o chuveiro. Parir na banheira, então, nem pensar.

Apaguei por exatos 30min. Como a suíte é pra hora do parto mesmo, não havia cadeira e meu esposo cochilou numa banquetinha de madeira que havia num canto. Ele também estava cansado da maratona que havíamos percorrido. Acordei com uma contração e lá fomos andar, só que agora empurrando a bomba da medicação junto. Minha irmã que é enfermeira na maternidade me acompanhou e fazia massagens como podia. A presença dela foi essencial. A dosagem de ocitocina era aumentada a cada exame e a dor estava ficando insuportável. Eu não conseguia mais sentar pra fazer xixi, sentia uma pressão muito forte. As dinâmicas seguintes indicavam que as contrações estavam muito boas e Bianca se recuperava adequadamente. Até a pulseira de identificação do bebê havia sido trazida pro quarto, além da preparação do berço aquecido e da bomba de aspiração (a essa altura haviam detectado um pouco de mecônio). Acho que foram mais uns 2 toques constatando sempre 6cm. Quando a enfermeira saiu conversei com meu esposo e decidimos que caso o próximo exame não tivesse evolução eu pediria a cesárea. Estava muito cansada e sentia muita dor. Assim, após 30h de internação Dr. Márcio indicou a cesárea por parada de progressão. Por duas vezes depois da indicação senti "arrancos" na vagina que cheguei a perder o jogo das pernas. Lembro de falar
"minha filha, não tem como sair por ai, calma". Tomei repique da analgesia e uma injeção pra auxiliar nas dores das contrações.

Às 15h fomos eu, meu esposo e minha irmã pro bloco cirúrgico e o anestesista falando pra eu dobrar a coluna melhor porque do jeito que eu estava fazendo "não estava ajudando". Dobrar a coluna com um barrigão na frente, como?? Então a pediatra veio me auxiliar e rapidamente me deitei e já não sentia as pernas. A sensação era horrível, além da maca super estreita. O Dr. Márcio reclamou do ar condicionado alto e abaixou um pouco. Pedi a placenta e ele me perguntou pra que eu a queria, se, por acaso, eu iria comê-la. Respondi que iria apenas fazer um "carimbo" da árvore da vida. Tentei explicar do que se tratava mas ele não estava interessado, apenas disse que eu não a teria. Não amarraram minhas mãos e as luzes permaneceram acesas.

17min depois retiraram ela que imediatamente chorou e fez cocô na pediatra. Minha pequena segurou o máximo de tempo enquanto estava na barriga, ela foi guerreira todo o tempo. Não esperaram o cordão parar de pulsar e a levaram pro bercinho no centro cirúrgico mesmo, no campo de visão da maca. Então olhei pra ela e comecei a chorar. Aspiraram e esfregaram-na. Depois veio pro meu peito e ficou pele-a-pele até me costurarem. Ficaram na sala a Técnica de Enfermagem e uma residente.
Então os primeiros cuidados (pesar e medir, recusei o colírio) foram feitos e ela voltou pra mim. Fui pra recuperação com ela junto e só teve banho no outro dia por volta das 10h. Tive que ficar 8h deitada sem elevar a cabeça e, de tempos em tempos, vinham apertar minha barriga e observar o sangramento e posicionamento dos órgãos. Depois desse tempo uma enfermeira veio me auxiliar a levantar pra tomar banho e a impressão era de que eu abriria ao meio. Com dificuldade - e parecendo uma múmia - tomei banho e jantei.

Chorei 15 dias direto pelo meu não-parto e pelas dores. Cada vez que repasso o processo penso em atitudes diferentes que poderiam ter me levado a parir. E se tivesse aceitado a avaliação da EO? E se tivesse ficado mais tempo em casa antes de ir pra maternidade? E se tivesse assumido a responsabilidade e voltado pra casa na avaliação com 2cm? São muitos "se"... Posso afirmar que aprendi muito com o desfecho, mas que a ferida permanece e só Deus sabe quando vai cicatrizar – SE (olha ele por aqui de novo) cicatrizar.
 

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