24 de agosto de 2015

Relato de Parto - Valmária Filgueira

Com Vítor Coelho e Luana Guimarães - 04/Agosto/15
        Demorou, mas publico agora meu relato de parto! Emoticon smile
        Fim de gestação, expectativa, ansiedade. Acabo de completar 38 semanas (Quinta-feira) e o último ultrassom indicou um colo grosso e, segundo o médico, poderia ser uma gravidez para passar de 40 semanas. Queria tanto ver o rostinho do Erik, mas paciência. O medo tomou conta também. Que desespero! E se passasse demais e eu não pudesse fazer meu tão sonhado parto natural? Teria que estar preparada para uma cirurgia, mas nem havia pensando nesta possibilidade no decorrer de toda a gravidez.
       O tampão mucoso já tinha começado a sair, mas sabia que poderia demorar dias ou semanas ainda. Nenhum outro sinal. Contrações de treinamento, o que é isso? Só consegui senti las com a ajuda de um anjinho com mãos de fada, a doula Luana – como eu gostei das massagens e chás preparados por ela.
       Até que, na Sexta (38+1) tudo foi diferente. Contração, dor. Respira fundo, vai passar, não corra pro hospital agora, está cedo. Mais contração, dor. Nada de ritmo, não é hora ainda. Não vou incomodar a doula não, está aproveitando o fim de semana e ainda não está na hora. Nem lembrei de ligar para o meu médico. Pensava: Não é assim de uma hora para outra que o bebê nasce. Espere. Aguente firme. Voltaram as contrações, acho melhor revisar tudo que está na mala da maternidade para não me esquecer de nada. Revisão feita. Faltava algo. Era uma surpresa para o marido, uma cartinha feita do Erik para o papai contando um pouco da história de amor entre pai e filho durante a gestação. Ela estava lá, pronta, com fotos e tudo mais, porém no computador. Como imprimir sem que o marido perceba? Já era madrugada. O colo grosso me fez relaxar e deixei a cartinha esperando para uma última revisão. Tinha que dar um jeito de fazer a impressão escondido do marido. Ele ligou o computador certificar o caminho do hospital e eu disse que queria imprimir o mapa, caso o GPS falhasse. Pedi para ele ir deitar e descansar. Ele saiu e me deixou lá. Pronto! Agora não falta mais nada, cartinha nas mãos, dentro da mala e o marido nem desconfiou.
      Quanto a ir para o hospital, ainda não. Deu para esperar, dormi. O dia amanheceu, as contrações deram uma pausa e corri ao salão de beleza. Senti que já estava chegando a hora e queria estar bonita. Passei um esmalte vermelho nas unhas, minha cor preferida. No cabelo nem mexi, a água quente do chuveiro e da banheira iriam estragar tudo mesmo. As contrações ficaram fracas e com uma dor leve.
      Sábado à noite (38+2), fui me deliciar com as panquecas feitas com muito carinho pela tia Arlete. Fome de grávida. Exagerei. Passei mal demais. Ai meu Deus, que arrependimento. Coloquei tudo pra fora e mais um pouco. Já não tinha mais o que vomitar, meu estomago começou a doer. O medo tomou conta. Parir assim, não aguentaria. Náuseas, dor no estomago, nada de dormir. Fui ao hospital. No atendimento, a GO até pensou que era trabalho de parto, tive algumas contrações no consultório, mas a dor no estomago superava tudo. Chorava. A GO fez o toque, primeiro toque feito em toda a gestação, estava com 2 para 3 cm. Disse que ainda não era hora de internar, mas que eu poderia voltar em breve para o hospital. Mas voltar não iria não. O medo de uma cesariana desnecessária me fez correr dos hospitais particulares. Depois do toque comecei a sangrar e doeu um pouco. Duas dores não!!!! Não é possível. Fui medicada, a dor ficou suportável, voltei para casa, mas não consegui dormir.
As contrações continuaram, não tão doloridas quanto as de Sexta, mas resolvi passar o domingo em casa, descansando. Meu coração dizia que estava chegando a hora, tinha que descansar.
      Acordei bem animada na Segunda (38+4), minha mãe foi passar o dia comigo. Saímos para andar pelo bairro, fui ao açougue e sacolão, tudo numa bem gostosa caminhada. Depois do almoço era hora da doula chegar, as contrações já estavam mais frequentes. A Luana chega e logo me coloca para subir e descer as escadas do prédio, rebolar na bola suíça e massagens e mais massagens. A tarde se passa, a dor ficou muito mais forte. Hora da água quentinha do chuveiro. Que alívio! Não saio daqui debaixo dessa água quentinha por nada. As contrações vinham de 5 em 5 minutos, eram 5 horas da tarde. É melhor ligar para o marido voltar pra casa, evitar o horário de pico. Queria muito ele perto de mim naquele momento. Liguei, pedi calma para que ele voltasse, disse que não era nada urgente e que dava tempo dele chegar tranquilo. Parece que não falei nada disso. Ele chega em casa aflito, não quis nem comer. Insisti, disse que a noite poderia ser longa, mas ele disse que não tinha fome. Entendi, nem eu tinha. Mas havia uma bolsa para levar para maternidade cheia de isotônico, água de coco, barra de frutas, castanhas e cereais.
      As contrações começaram a ter um ritmo. Em 10 minutos, três contrações. É a hora de ir. Partimos para o hospital Sofia Feldman, eu, a Luana e o Vítor. Era 19:30, santa mão da Luana que eu apertava forte na hora que chegava a dor e que me acalmava. Chegamos ao hospital, fui examinada, 4 cm de dilatação. Não acredito!!!! Só isso!! Meu Deus, há dias estava com 3 cm. E essa dor? Como aguentar até 10 cm. E as contrações? Essa dor toda só para dilatar 1 cm. Onde eu estava com a cabeça quando escolhi um parto natural? Eu mato quem escreve aqueles relatos lindos de parto. Essa coisa de parir sorrindo é só nos documentários que meu obstetra me passou. Mas já que comecei, vamos continuar assim. Fui liberada para a casa de parto e mesmo com as dores, comemorei. Pensava: Não tem como doer mais.
      Entramos para a sala e eu corri para o chuveiro, fiquei lá um tempão. A água quente sempre alivia. A Luana sugeriu uma massagem e eu não aguentava ninguém colocando a mão em mim e nem queria sair debaixo daquela água. Dor, dor e mais dor. Tento a banheira, alívio imediato, mas logo veio outro problema: enjoo. Começo a vomitar. Saio da banheira. Nesta hora já nem sei expressar o quanto gritava nas contrações. A Luana tenta outra posição. Não consigo, cansei, quero me deitar. Não encoste em mim. Só a mão do Vítor, meu marido, para me ajudar e como eu a apertava forte. Gente, que dor é essa? Por que inventei isso? Meu obstetra, que estava de plantão no dia passa na Casa de Parto para me ver, fiquei feliz, mas não consegui nem falar um Olá. Os relatos eram tão lindos! Malditos relatos, documentários. Eu não sou índia por que inventei de parir igual uma? Quero anestesia, desisto. Não estou curtindo nem um pouco esse momento.
     Enquanto a equipe preparava para me levar ao hospital a bolsa estourou. Ai!!!!! Agora a dor de verdade, vontade de sumir, dor sem lugar pra ficar. Banheira nem pensar, meu estomago embrulha e vou vomitar. Entre uma dor e outra comecei a me preocupar com a Luana, ela estava lá há quase 12 horas comigo e eu nem a deixava chegar perto de mim. Enfermeira, ninguém, só meu marido. Falei que a Luana poderia ir para casa, descansar já estava preocupada com ela. Coisas de quem está parindo mesmo. Nem sei explicar porque fiz isso. Ela estava há muito tempo comigo, sem comer direito, sem descansar, nem voltou para casa dela depois de nosso encontro mais cedo. Queria tranquilidade. A Luana super doce e gentil foi embora. Já era madrugada. Fui transferida para o hospital, fiz todo o trajeto andando. Neste momento já estava com 8 cm de dilatação, tomei analgesia. Andando também fui para a sala de parto. Cansaço, pedi para deitar um pouco. Tomei água de coco. Ah não, essa dor de novo! E a analgesia não vai fazer efeito não? Está igual entrar na banheira quentinha. A enfermeira sugeriu que me levantasse, e assim o fiz. Em cada contração eu agachava e era sustentada pelo Vítor. Comecei a sentir a cabeça do Erik bem baixa. Parece que está abrindo tudo, mais contrações e vontade de fazer força. Meu coração acelerou, meu bebê está chegando! Fazia força e gritava. A enfermeira me alertava: Não valeu de nada, você tem que concentrar a força embaixo e não no grito. Deu vontade de pedir para parar com a brincadeira e me levar ao bloco cirúrgico. Outra contração e mais força. Estava exausta e minhas contrações duravam poucos segundos. Perguntaram se eu queria tomar um pouco de ocitocina, pois minhas contrações estavam durando muito pouco. Aceitei, já queria acabar logo, o cansaço tomava conta. Aplicaram o hormônio e duas contrações depois meu bebê nasceu, 48 cm e 3,015 Kg. Apgar 9/10. Pari sentada no banquinho com a enfermeira simplesmente assistindo o nascimento. Na madrugada da terça feira (38+5).
     Fui protagonista dessa história, não ocorreu como o planejado, mas minhas vontades foram respeitadas. Ao nascer, o papai pegou o Erik e o levou para meus braços. Que emoção, ficamos ali nos olhando. Ele olhava tudo, coberto de vernix, que anjo! Vi aquele bebê ainda preso ao cordão e bateu uma emoção. Em breve meu bebê não precisará mais de mim para respirar, se alimentar. Que grande desafio, meu bebê que você venceu. Vou estar bem agarradinha com você quando o papai cortar o cordão e assim o fiz. O cordão foi cortado, tentei dar o peito e ele não quis. Chorou um pouco, foi coberto, parou. Ficamos ali um tempo, nos conhecendo. Finalmente pude apreciar e ter em minhas mãos meu filho. A enfermeira o pegou para exames. Tudo feito na sala aos meus olhos e com papai lá do lado dele em todo o momento. Tive uma gestação tranquila, bebê saudável o plano de parto foi respeitado, até mesmo a vontade de última hora. Poder andar, comer, beber muita água de coco durante o trabalho de parto fizeram toda a diferença. Ter as mãos de meu marido por perto para apertá-las me fez encontrar a força de que precisava. Ver meu obstetra passando para me dar um Olá, pois estava na maternidade no dia do plantão dele, me fez sentir lembrada e não mais uma. Não foi como planejado, mas foi como aguentei. Equipe super atenciosa, local acolhedor. Só tive forças para tirar fotos no dia de manhã depois de dormir um pouco agarradinha com meu pequeno. E para quem fez unha para parir diva, nada como tirar uma base em pó, máscara para cílios e um batom da bolsa maternidade para disfarçar a cara de cansada. Acreditem, é um item indispensável, pois sua primeira foto vai rodar as redes sociais. Ah, e aquela dor? Simplesmente sumiu, no outro dia só tinha dor de garganta de tanto gritar. E para quem estava com colo grosso e podia ter uma gestação de mais de 40 semanas, não cheguei nem em 39.
 

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