25 de agosto de 2015

Relato de Parto - Kelly Mota de Andrade

       Meu relato de parto começa há cerca de dois anos atrás, quando nasceu minha primeira filha, a Lavínia. Costumo dizer que ela não foi planejada, mas mais do que desejada. Quando soube da gravidez, fiquei um pouco insegura, com medo, enfim, tudo aquilo que a gente sente quando a coisa acontece de verdade. À época, eu fazia análise com uma excelente profissional, que passou todas as fases da gravidez comigo e meu ajudou a passar pelos momentos de incertezas.
       Moro em Itabirito, pertinho de BH, e resolvi fazer pré-natal por aqui mesmo. Marquei consulta com o médico mais “famoso” da cidade e ia a todas as consultas. Até aquele momento, nunca havia passado pela minha cabeça uma cesariana. Para mim, na verdade, esta seria uma cirurgia que seria realizada apenas e tão somente em casos de real necessidade, que eu teria parto normal e pronto. Nem sabia da luta pela humanização do parto (apesar de a minha analista tentar dizer isso pra mim várias vezes. Eu apenas não consegui escutar). E foi assim que caí numa cesárea sem a menor necessidade, passei uma das maiores angústias da minha vida, porque nem entendi que minha filha havia nascido e achava que era isso mesmo. Por muitos meses, vivi uma angústia imensa, sem ao menos saber o nome disso. Foi com muito esforço que consegui sair desse estupor, acordar. Decidi buscar o MEU parto.
       Como eu havia parado de trabalhar, quando a Lavínia completou um ano, decidimos engravidar novamente. Mas antes disso, por indicação de uma grande amiga, eu e meu marido resolvemos conhecer o Instituto, para ver como era. Marquei uma consulta com o Dr. Hemmerson e fomos conhecer tudo. Falamos sobre nossas pretensões de engravidar novamente, buscar um parto natural (porque a ideia de uma parto normal, pra falar a verdade, nunca iria me satisfazer) e deixar com que apenas a natureza agisse. De imediato, ele já abriu um belo sorriso e disse que isso era ótimo, que era muito bom encontrar mulheres que pensavam como eles.
      No mês seguinte, já estava grávida. E assim começamos o pré-natal. Todo mês saíamos de Itabirito e íamos ao instituto, eu, meu marido e minha filha, para as consultas de pré-natal. E durante esse tempo, eu comia informação. E como gato escaldado, conferia com as informações do Dr. Hemmerson. Assistimos ao Renascimento do Parto, claro. Li todos os livros, participei de muitos grupos de discussões na internet, tirava todas as minhas dúvidas. Costumava dizer que, dessa vez, ninguém iria por a mão em mim... bom, foi mais ou menos assim mesmo.
      No dia 25 de fevereiro de 2015, eu estava já com 39 semanas, prodomizando há muitos dias já, super ansiosa, morrendo de medo de cair em outra cesárea (dessa vez necessária, né). Fui colocar minha filha para dormir, já com febre. Às onze horas, ela chamou, e o pai dela foi ficar com ela. Fui dormir pensando naquilo.
       À uma e meia da manhã, eu acordo, com uma dor já forte. Fui até o quarto da Lavínia, falei com meu marido e fui tomar um banho, pra ver se passava. Só ficava mais forte. Como já estava tudo dentro do carro, e minha cunhada estava em casa, falei com meu marido para irmos, que ela cuidaria da Lavínia e que eu ligaria para minha mãe para ela vir. Eu disse para ele que iríamos direto para o hospital, porque estava sentindo muita dor e as contrações já vinham de cinco em cinco minutos.
      Ele concordou e fomos. Havíamos feito o curso prático de preparação para o parto no Instituto, e ouvimos muito a frase: “Trabalho de parto demora”; então, ele não se preocupou em chegar depressa. Um caminho que ele faria em cerca de meia hora, fez com apenas uma, e eu sem falar um pio, apenas me entregando a cada contração dentro do carro. Chegamos ao BH shopping e resolvemos ligar para a Lena, a doula, e para o Dr. Hemmerson. Ambos estavam no HDMU, e eu queria ir para o Mater Dei, pois era o caminho que eu sabia fazer. Ele disse que poderíamos ir, que a Dra. Quésia estava lá. A essa altura, contrações de dois em dois minutos, durando até mais que um minuto, mas ainda dava pra aguentar.
       Chegamos no pronto socorro do hospital. Quando meu marido abriu a porta para que eu saísse, me levantei e desceu um liquido por minhas pernas. Pensei: “opa, fiz xixi na calça”. Mas na verdade, era a bolsa que havia rompido. Aí ficou hard core mesmo. As dores aumentaram catastroficamente, e eu gritava a cada contração (o que levava metade da dor embora, para dizer a verdade).
       Subimos para nos encontrar com a Dra. Quésia, que estava acompanhando outra parturiente. Ela me recebeu amavelmente, e numa voz muito baixa, perguntou pelo plano de parto. A essa hora, já estava tudo confuso, porque eu estava muito concentrada no meu corpo, nem vi o que acontecia a minha volta. Ela me examinou e me disse que eu estava com 9 centímetros. Eu não acreditava. Eu queria suíte PPP, queria música, queria banheira, queria doula, queria comer, pelo amor de Deus. Não foi como eu sonhei... foi muito melhor.
       Me levaram para o bloco, diminuíram as luzes, colocaram uma música bem relaxante para ouvir, e a Isabel, a doula que estava acompanhando a outra gestante e veio me ajudar, disse: “Tente ficar de quatro apoios para liberar a tensão nas suas costas“. Eu concordei e nem saí daquela posição mais. A Dra. Quésia apenas me perguntou: “sem intervenções”? Eu disse: “sem intervenções”. Perguntou se eu queria fotos. Eu concordei com um aceno, porque não aguentava falar e a fotógrafa que acompanhava a outra parturiente veio para tirar fotos de meu parto.
      Com pouco tempo, senti a cabeça do Heitor já saindo e perguntei pelo meu marido, de quem eu nem tinha dado falta até então. Ele ainda não havia chegado. Veio a contração e a cabeça dele saiu. Eu a segurei e foi uma sensação única: ele era quentinho, macio. Nesse meio tempo meu marido chegou, e o Heitor terminou de nascer. Eu o segurei e trouxe para o meu colo. Quando parou de pulsar, cortei o cordão, e ficamos juntinhos, ele mamou e apenas depois foi examinado. Não foi aspirado, nem esfregado. Não tomou colírio nos olhos, mal mal chorou.
      Eu não acreditava como parir era fácil, como era incrível, como era transformador. Eu, em êxtase, gritava: “Meu Deus, como é fácil, eu consegui! Como eu deixei que tirassem isso de mim, como tiram isso da gente”! Eu chorava, eu ria, eu beijava minha cria. Costumo dizer que foi INCRÍVEL. Que quero outro parto, haha. Fiquei cerca de uma semana meio “chapada” pela ocitocina.
       De nossa chegada ao hospital ao nascimento de Heitor, passaram-se somente 40 minutos, ele nasceu às 3:39 do dia 26/02/2015, com somente três horas de trabalho de parto. A dor, acho que é pessoal. Doeu. Mas não acho que doeu tanto assim. Quando pensei em uma anestesia, ele já estava para nascer, então abandonei essa ideia.
      Esse foi o meu VBAC. Foi lindo, transformador, empoderador mesmo. Agradeço de coração à equipe do instituto, que faz o que faz com carinho. Ao Dr. Hemmerson por toda a assistência e segurança que nos passa; à Dra. Quésia, por me receber com tanta ternura. À Lena e à Isabel, pessoas que nos levam a outra dimensão quando conversamos com elas. Às meninas da recepção, que sempre nos recebem com todo o carinho e resolvem tudo com eficiência, em especial a Talita. À Leila, minha analista. Mesmo sabendo que ela pode não ler isso, ela ajudou muito em meu empoderamento, por mais que ela diga que o trabalho foi todo meu. E a meu marido, claro, que nunca duvidou de minha capacidade de parir.
 
 

Nenhum comentário: