30 de novembro de 2014

Por uma Nova Mãe!

     
  Este artigo foi escrito em 29 de dezembro de 1987 e foi publicado no jornal Estado de Minas, do qual era colaboradora. Havia tido o primeiro filho, Iago e estava grávida da Iana. Pelo texto, percebe-se que eu ainda não sabia o sexo do bebê. O texto está inserido em um contexto de questionamento sobre os novos papéis para homens e mulheres – o homem começava a ser cobrado  a participar no trato com os bebês -  e contesta teses do movimento feminista de então, muito empenhado na questão do aborto e da libertação feminina do modelo ‘mulher dona de casa’. O pai começava a chegar à cena do parto, mas neste tempo apenas algumas mulheres, com poucos médicos, em raros hospitais conseguiam o intento de levar o marido em sua companhia na sala de parto.  A situação econômica brasileira em 1987 e a saúde,  em tempos de INAMPS, era bem pior, nem todos os brasileiros tinham direito à assistência, não havia sido criado o Sistema Único de Saúde - SUS.

Em alguns momentos, o texto vem permeado por um pensamento esotérico e espiritualista da década de 70, quando me refiro à Era de Aquárius. Acredito que, desde então, foi ampliada a participação da mulher  na política – vide Ângela Merkel, Cristina Kishner, Michelle Bachelet e Dilma Rousseff.
Neste tempo, estava à frente da ONG Grávida – Grupo pela Garantia à Gravidez Ameaçada, que lutava pela conquista de direitos para a mulher no parto e nascimento. Muitos dos conceitos ainda são pertinentes. Sempre me surpreendo com textos que escrevi nesta época, com meus 30 anos. Na verdade, uma boa reflexão!

É o meu presente de Natal!

No Clima Natalino da Maternidade!
José Maria Ribeiro retrata nesta pintura  sua mulher Fátima Ribeiro, grávida de Iara. Iara esteve na última roda Bem Nascer, juntamente com sua mãe que fez o relato do seu parto. No primeiro filho, Fátima passou por uma cesariana. No segundo, nascimento de Iara, foi para Curitiba e teve seu parto natural com Dr. Moysés Paciornik, no primeiro hospital de parto de cócoras do Brasil. Ela cedeu gentilmente esta imagem, quando lhe pedi fotos. Nas décadas de 1970 e 1980 vários movimentos começavam a surgir no Brasil e no mundo em prol da humanização do nascimento. E as mulheres começavam a se empoderar e a buscar um atendimento que respeitasse suas escolhas. Hoje, as mulheres já conquistaram vários direitos, como o de ter um acompanhante no parto. O Ministério da Saúde criou a Rede Cegonha e vem fazendo um trabalho contínuo e sistemático de mudança de modelo de assistência ao parto e nascimento no Brasil. 
Segue o artigo:
Janaina Bicalho pratica Yoga na Roda Bem Nascer Mangabeiras.

“A maternidade  é um milagre! Que chavão, muitos dirão! Mas é realmente um milagre, e o contato mais profundo com esse milagre, vai depender da profundidade do contato que cada pessoa tem consigo mesma. Os discursos que negam a maternidade encontram seus argumentos na história que mostrou que o instinto materno pode ser um mito, forjado pela necessidade de sobrevivência das crianças, constantemente abandonadas pelas mães ao cuidado de amas, governantas e colégios internos, nos séculos anteriores, segundo relata o livro “Um Amor Conquistado”, de Elisabeth Badinter. Acho que a análise da maternidade não deve se deter apenas no ideológico, na moral religiosa e no social, como se só estes fatores norteassem o comportamento humano.
Renata Rocha, deve ser a próxima presidente da ONG Bem Nascer

Existe algo mais profundo dentro de cada ser humano, que não pode ser negado. E que é negado pelo discurso materialista da filosofia de vários movimentos de mulheres. Existe a consciência divina dentro de cada mulher e a essência feminina comandando os movimentos de fecundar e parir.

A ética evolui com o tempo. E como a compreensão do homem se ampliou sobre o conhecimento do universo, a ética também evoluiu nos últimos séculos. Estar em relação profunda com um filho – esse ser humano em formação – é um progresso espiritual do homem. Não devemos ter como referência absoluta costumes e comportamentos de um homem de outro tempo, dos séculos passados, para justificar novos valores para os dias de hoje.
A obstetra Giseli Maciel, do Instituto Nascer, em seu papel de mãe.

Um milagre!

Foi  na minha vivência pessoal da maternidade, em meus momentos de maior contato com minha essência, é que percebi que gerar um filho é um milagre. Um milagre da vida. Gestar um filho é gestar o próprio mistério da vida, em que estamos inseridos dia a dia e que acabamos por esquecer. Por  um milagre da vida, um dia um homem fecundou o óvulo fértil em mim e um ser humano iniciou vida em meu útero. Mexe nas minhas entranhas, chuta minha barriga, altera minhas emoções e sensações, amplia minha consciência sobre o mundo e os outros seres humanos. Só quem vivenciou com profundidade e entrega a gestação de um filho, pode me entender.


Criador e Criatura

Pergunto para este mistério. De onde vem este filho? Por que vem em mim? E enquanto gero esse ser mergulhada num universo de dúvidas e crenças, prazeres e dores, certezas e sedes vou refazendo minha própria história. SOU CRIADOR E CRIATURA, e este é o grande milagre!
Estou grávida do segundo filho. As ilusões são menores em relação à gestação de um primeiro filho, e lida-se mais com o conhecimento: já sei que dou conta de criá-lo, como é o parto e os primeiros dias. E por se lidar com o conhecido, pensei que não haveria mistério e prazer. Mas começo a perceber nesse quinto mês de gravidez que a extensão do milagre me transforma. Quando ouvi um coração bater dentro de mim e um movimento de vida no meu útero, tudo se revelou novo e misterioso. Após nove meses, um outro ser virá ao meu peito e à minha vida. E aos poucos se distinguirá de todos os outros seres da espécie humana, com sua própria personalidade, caráter, defeitos e virtudes, com sua própria impressão digital e linhas da mão que desconheço.

Quésia Tamara, também do Instituto Nascer, mais que mãe, uma militante pela causa do bom nascimento. 

E cresce a vontade de conhecer este homem que daqui a alguns meses se unirá a meu companheiro e a meu filho Iago, ampliando a família, acrescentando, ocupando o lugar que lhe é de direito. E a gente tentando acertar e sabendo que, quanto mais unidos estivermos, mais amor houver entre nós, a vida será mais fácil para ele. E o mundo pode ser transformado a partir daí, deste microcosmo.

E pelas dificuldades que realmente existem ao se criar um filho numa sociedade com tantos problemas econômicos e sociais, que não oferece apoio e garantias básicas à maternidade, onde não há creches, assistência médica satisfatória (em 1987). Por todas estas dificuldades, nega-se – em determinados discursos – esse  mistério, esse prazer, essa verdade, talvez a maior que nos compete vivenciar: a de ter oportunidade de remodelar o homem desde seu primeiro movimento de vida no útero,amando-o e aceitando-o, de transformá-lo a cada dia, a partir da sua primeira respiração, compreendendo-o e tentando ver nele o ser humano completo que é. Que ele não é nosso, embora tenha vindo de nosso útero, e esteja sob nossa responsabilidade.

Pai em Cena
No parto, Cecília observa o p pai - Kinulpe - cortar o cordão umbilical, em parto na banheira da casa de partos do Hospital Sofia Feldman.


O maior dever de todas as mulheres é acolhê-lo no peito materno e dar-lhe todo o amor que tem capacidade de dar. E cabe ao pai, esse novo pai que nasce sob os ares de Aquárius, começar a perceber que também ele pode expandir seu potencial feminino de doação, vivenciando com a companheira as dificuldades, mas acima de tudo, os imensos prazeres de se criar um filho. E isto não é retrocesso, pelo contrário, é nossa maior revolução; criarmos os nossos filhos, mas agora sem reproduzirmos neles ideologias masculinas que imperaram durante séculos no planeta.

Quero falar dessas compreensões mais profundas que vivenciei diante da maternidade. Coisas que percebi dentro de mim, quando o meu primeiro filho nasceu e eu o cercava como animal na vigia da cria. Os Estados Unidos atacavam a Líbia (1986). Aquilo tudo me tocou tão fundo, na delicadeza  emocional de meu puerpério... ‘e se essa guerra estivesse perto de meu filho e o ameaçasse’... Mãe não faz guerra. E quem me falou isso foi meu instinto de fêmea parida, meu útero recém-fecundado. Foi o feminino, naquele momento, mais latente em mim.


Valéria lambendo a cria, Ian.

Mãe não faz guerra.

O feminino,  o maternal, a criatividade artística, o intuicional devem aflorar e serem percebidos como importantes no processo de transformação do mundo. Esses valores estiveram relegados a um segundo plano nos últimos séculos, onde o mais importante é a razão, a produção e a competição. Mas na Era de Aquárius a energia feminina iria aflorar para transformar o mundo nas suas estruturas e instituições.
Recentemente, esteve no Brasil a política americana, Bela Abzug e fiquei emocionada ao perceber que essas compreensões sobre o feminino também passam por várias mulheres e movimentos de lá. Segundo ela, 

"um governo realmente feminino, em essência – e não tendo como referência o masculino, como o de Margareth Tratcher – iria se preocupar muito mais com as questões básicas e urgentes, sempre tão esquecidas dos governos atuais, na sua grande maioria de homens: a educação de nossos filhos, um meio ambiente preservado, com ar puro para nossas crianças, um alimento sem agrotóxicos nas nossas mesas e cozinhas, saúde para toda a população, menos dinheiro para bombas atômicas e guerras. Nas measas de negociações, onde se revolvem questões vitais para toda a humanidade, quase não há espaço para a mulher". (1986)
Camilla recebe Diana em parto no Centro de Parto Normal do Hospital Sofia Feldman.

Acolhendo este homem que chega com calor, dando-lhe o peito de leite, ouvindo-o, respeitando-o, orientando-o no respeito aos outros seres humanos e à natureza faríamos, e muito, pela transformação do mundo. Pois atrás de cada homem – pequeno ou grande, de todo governante, dos ditadores, de cada machão arbitrário que não divide as obrigações com a companheira, há uma mãe e uma história de vida que se inicia no útero de uma mulher.

A propósito, convém lembrar o grande símbolo materno do mundo ocidental, Maria, a Mãe de Jesus, o maior mestre espiritual que já passou pelo nosso Planeta Azul. Quero aqui homenageá-la e a todas as outras mulheres, com um poema que nasceu do meu coração e do meu útero, logo após o nascimento de meu primeiro filho.



ORAÇÃO À MÃE

Mãe de todos os homens
Mãe de todas as mulheres
Purifique o óvulo das fêmeas
Enterneça os gestos
Amplie o amor.
Para que sua luz mansa
Fértil e carinhosa
Transborde através delas
Das muitas e anônimas
E envolva a humanidade.
Luz prenha, criativa, fecunda.
Úmida, farta, feminina.
Que o mundo seja um útero
E acolha homens em calor
E alimente fetos em fartura e amor.
Que construa homens novos,
Porque amados.
Mãe de todos os homens
Mande o anjo do verbo habitar minhas palavras
Engravide minha mente e meu coração
Para que em todos os meus atos,
Palavras, pensamentos e sentimentos

Eu possa dar a luz!

Cleise Soares

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