8 de novembro de 2014

História do movimento pela humanização do nascimento em BH

A fundadora da Ong Bem Nascer, a jornalista Cleise Soares,  deu uma palestra no Curso de Pós-graduação em Promoção da Saúde e Prevenção da Violência, dia 13 de Novembro, na Faculdade de Medicina da UFMG. O curso é coordenado pela pediatra Sônia Lansky, presidente da Comissão Perinatal da Secretaria Municipal de Saúde e a professora Kleyde Ventura. 
Disponibilizamos para vocês a íntegra da palestra.

Você sabe como foi o seu nascimento? Quem aqui nasceu de parto normal? Levantem as mãos os que nasceram de cesárea.

Em 2013  mais da metade dos brasileiros recém-chegados nasceram via cirúrgica. Será que é uma boa experiência? Deixa sequelas emocionais, psicológicas, perguntamo-nos. A muitas crianças brasileiras está sendo negado o direito a nascer segundo a natureza do ser humano, já que segundo a OMS, apenas 15% destas, seriam necessárias. As outras – como diriam as militantes – são ‘desnecesáreas’.

A Ong Bem Nascer nasceu em 2001 com dois objetivos: fazer a profilaxia da cesárias eletivas e desnecessária e divulgar o parto natural. Não há como contar a história da ONG, do movimento pela humanização do nascimento em Belo Horizonte, sem passar pela minha própria história, fui testemunha ocular e  protagonista desta transformação.

Tive 4 filhos e a sorte de encontrar, à época, Dr. Marco Aurélio Valadares. Entre o primeiro e terceiro filho, ele foi para Curitiba fazer estágio na Clínica de Parto de Cócoras, do Dr. Moysés Paciornick. A partir de estudos antropológicos com as tribos indígenas do Sul do Brasil, chegou à conclusão que as mulheres “modernas” tinham pouco puxo, eram relaxadas. Criou até um aparelho para medir a capacidade dos períneos. Ele passou a divulgar o parto de cócoras, criou exercícios para as mulheres modernas treinarem o períneo. Marco Aurélio voltou de lá com uma cadeira de parto de cócoras, a primeira de Belo Horizonte, que ainda é usada na Maternidade Santa Fé. Nela, pari dois filhos.

Nos primeiros partos, nem eu, nem ele sabíamos do muito que sabemos hoje sobre as boas práticas e menos intervenções. Passei por manobra de kristeler, episiotomia, lavagem intestinal, raspagem de pelos, anestesia. Mas, mesmo assim, me senti uma guerreira, consegui ter parto normal. Meu filho foi para o berçário, foi levado rapidamente de mim. Ainda existiam berçários em Belo Horizonte e não se questionava a ação da pediatria.  A episiotomia me incomodou por muito tempo. Já sabia dos banhos de chuveiro e das técnicas de respiração, mas a medicina ainda não havia se adaptado às demandas das mulheres empoderadas da década de 1980.
Cleise Soares

Comecei a perceber que havia recebido um atendimento personalizado e respeitoso no sistema privado  e que, no âmbito da saúde pública, isto não acontecia, em tempos de INAMPS. A questão naquela época era outra epidemia, de abortos, cinco por minuto. Juntei-me a outro Marco, o psicólogo Marcus Vinícius de Oliveira e fundei a associação Grávida – Grupo pela Garantia à Gravidez Ameaçada. Fizemos dois seminários em parceria com o Mater Dei e dois com a Maternidade Odete Valadares. À frente, médicos e enfermeiras abertos a novos pensamentos.

O primeiro seminário discutiu o tema “Direito a Maternidade e a questão do aborto”, partíamos da premissa que, muitos dos abortos seriam evitados caso esta mulher tivesse direitos garantidos. O tema extrapolou, vivíamos uma época da liberação sexual, novos valores, novos papéis. O segundo seminário discutia o tema “Maternidade, Direito, dever prazer ou obrigação”. O filme do meu primeiro parto, ali, entregue nas mãos dos médicos, anestesiada, foi passado e repassado neste seminário.

O que tinha de novo nele? A presença do pai ao lado da mãe no momento do parto, isto era novo. 

O terceiro seminário aconteceu em 1987, na Maternidade Odete Valadares, com o patrocínio do INAMPS. “Gestação e Parto – Pela Humanização do Nascimento”. Uma semente foi plantada naquele dia. O seminário abordava a assistência no sistema  público e no sistema privado, o fim dos berçários, o direito a um acompanhante no momento do parto. Eram estas as demandas, hoje atendidas.  Nós, do sistema privado tínhamos algumas opções, ou íamos para Dr. Marco Aurélio Valadares ou para Dr. Emerson Godoi. Outros dois médicos assistiam partos em casa naquela época. Já o SUS era deficiente. Estava nascendo o Hospital Sofia Feldman, que iria florescer e se tornar a maior maternidade do Brasil em atendimentos. 1000 partos por mês, baixo índice de cesáreas e referência para a Rede Cegonha.
Hugo Sabatino


No Seminário Semente houve uma mesa histórica e emocionante. Lembro-me que por diversas vezes arrepiei ao ver as personalidades sentadas à mesa, ou sobre ela, como fez Moysés Paciornick , de terno e gravatinha borboleta. Além dele, Dr. Hugo Sabatino, pesquisador de parto de cócoras da UNICAMP, Dr. Cláudio Basbaum, introdutor do Parto Leboyer no Brasil – pela primeira vez se pensou no parto a partir do bebê,  a recomendar meia luz, menos ruídos, menos conversa no nascimento; e Dr. Marco Aurélio Valadares, em princípio de carreira e já coerente com sua prática de mais de 30 anos.
Por isso, depois de parir 4 vezes assistida por ele, desci a Av. Afonso Pena e fui a seu consultório.
Dr. Moysés Paciornick


No segundo filho, fiz acupuntura, homeopatia, yoga. O parto foi a galope. O acupunturista foi comigo até o hospital, quando joguei as agulhas para cima. Queria tirar a dor, mas o que aconteceu foi acelerar o  trabalho de parto. Iana nasceu empelicada e eu tive um êxtase pós-parto. Como cheguei em período de expulsão ao hospital, não passei por outros procedimentos, mas sofri episiotomia desnecessária. Era protocolo e não se questionava. Foi bom para conhecer e hoje poder falar com propriedade para vocês. 

Minha terceira filha, Verady nasceu co síndrome de dow, em um parto de 3 horas,  eu estava com 39 anos. Faleceu com um mês. Deletei o parto. Dois anos depois, engravidei de novo, com 41 anos e tive a Ayrá Sol, que hoje tem 16 anos. O parto foi sem anestesia, sem episiotomia, sem manobra de kristeler, sem lavagem intestinal, sem raspagem de pelos e  de cócoras naquela cadeira de Paciornick.
Dr. Marco Aurélio, fundador da ONG Bem Nascer com  a família da Denise.


Aí, foi inevitável, nasceu outra ONG. Desci a Avenida Afonso Pena e disse para Marco Aurélio: - Você está ficando velho, precisa multiplicar a sua experiência. Então, juntos, fundamos o Projeto Bem Nascer, com uma solenidade pública, um curso e uma palestra. Em 2013, tornou-se ONG Bem Nascer, com a participação de outros profissionais, entre eles, o obstetra Dr. João Batista de Castro Lima, diretor clínico do Hospital Sofia Feldman e a enfermeira Sibylle Vogt.

Hoje, Dr. Marco Aurélio cumpre a missão que lhe deleguei. Fundou o Núcleo Bem Nascer, que reúne outros 4 médicos: Dr. Renato Janone, Dra. Alessandra Cotta, Dr. Sandro Ribeiro e Dra. Avelina Sanches. Do Núcleo saiu o Instituto Nascer, que reúne três médicos: Dra. Quésia Tamara, Dra. Giseli Maciel e Dr. Hemmerson Magioni. Hoje, há opções no sistema privado. As maternidades oferecem quartos ppp (pré-parto, parto e puerpério), a Maternidade Santa Fé tem banheira para parto na água; o Hospital da Unimed tem 3 quartos com todos os equipamentos para partos naturais. A pediatria tem que caminhar mais; as mulheres questionam procedimentos de rotina no atendimento ao bebê.  Mesmo com estes médicos supra citados, às vezes fica difícil convencer os pediatras a deixar a criança mais alguns minutos com a  mãe. Querem cumprir seu papel, devem compreender que aquele momento é sagrado e é dos pais.

Estes médicos do sistema privado trabalham em parceria com as doulas e têm dado bons resultados para todos na cena do parto. Elas tranquilizam a mãe, o pai e até o médico com sua presença.

E no SUS, o Hospital Sofia Feldman é procurado por muitas mulheres, que buscam uma assistência humanizada, respeitosa. Lá, como os médicos do  privado, trabalha-se com a medicina baseada em evidências científicas.  Se ficou comprovado que parto de cócoras é melhor, adotamos. Garante-se o pele a pele, o olho no olho no nascimento da criança. Evitam-se procedimentos desnecessários.

Tanto o Núcleo Bem Nascer como o Instituto Nascer organizam cursos para os casais grávidos. O do Núcleo é na Associação Medica – Preparação para o Parto Humanizado. Todos estes médicos nadam contra a corrente e são pioneiros.
Desde a fundação, a ONG Bem Nascer atendeu a mais de 1000 mulheres. Realizamos Rodas de Conversa – as Rodas Bem Nascer – a cada quinze dias, no Parque Municipal e Parque das Mangabeiras. o movimento ISHTAR,  da minha amiga Polly, que tem uma roda no Parque Ecológico da Pampulha.

Como funcionam as rodas? Poderíamos agora fazer aqui uma roda, todos nós nascemos, muitos são ou serão pais e mães, o tema é pertinente para todos os seres humanos. E, para nós, militantes da causa, é fundamental, diz respeito à ecologia humana.
Roda Bem Nascer Municipal


A Roda

A roda é democrática, todos são iguais e tem algo a contribuir. É uma troca entre gestantes carentes de informações, cheias de medos, inseguranças, sonhos, alegrias e as que já tiveram filhos e vão ali dividir seus partos e suas experiências. A Roda é um retorno a uma prática milenar, rodear as mulheres grávidas com outras mulheres. Antigamente, o parto era coisa de mulher, era algo restrito, sagrado, ritualístico. Elas iam para a Tenda das Mulheres. Este rito foi perdido pela mecânica e tecnocrática medicina de hoje. Hospitalocêntrica e médico-centrada.
Roda Bem Nascer Mangabeiras


A roda conta sempre com um moderador – entre nós, temos psicólogas, doulas, enfermeiras obstetras e jornalistas. O moderador pontua com foco nas evidências científicas, nas recomendações da Organização Mundial de Saúde, do Ministério da Saúde. Também realizamos Chás de Bênçãos, onde elas se reúnem na casa de uma delas e recebem um escalda-pés depois das 38 semanas, para ajudar no pré-parto.

Muitas mulheres chegam a nós com relatos de violência obstétrica, com partos mal conduzidos, com cesáreas mal resolvidas. Todas demandam um parto natural e respeitoso.  Muitas relatam que, nas primeiras consultas, eles querem marcar a cesárea. Os motivos são vários ao final: você não teve dilatação, não teve contração, seu quadril é pequeno, o nenê é grande, está com o cordão enrolado no pescoço. Elas se sentem inconformadas, tiveram seus partos roubados.
Simone, na Roda Mangabeiras

Uma delas sofreu uma violência abominável em um hospital escola. Duas equipes de professores e alunos tiveram uma aula de toque em seu corpo. Mas sobre violência, a Polly vai aprofundar mais amanhã. O papel da ONG é acolher esta mulher, o casal, seus sonhos e suas demandas e mostrar caminhos de acordo com as suas escolhas. Disseminar a cultura do parto natural, derrubar mitos, divulgar as boas prática.

Uma vez, me perguntaram. Esta onde é para pessoas carentes? Respondi: sim, para pessoas carentes de informações e esta está em todas as classes sociais, e nas cesáreas eletivas, nas classes mais altas. Um estudo mostrou que 70% das mulheres iniciam a gravidez desejando um parto normal; ao final 30% desejavam e apenas 10% conseguiram. Pergunto: quem influenciou estas mulheres durante a gravidez? Os médicos? As novelas? Já observaram que parto em novela só é assunto quando é complicado; é alto o índice de mortalidade materna nas novelas. Uma vez vi um parto na senzala. Pensei, enfim, vou ver o parto de uma parteira. O parto complicou e chegou o salvador, o médico arregaçou as mangas e fez o parto.

Cleise falando para os casais grávidos  no Centro de Educação Ambiental, Parque das Mangabeiras

Na verdade, o homem ocupou um lugar que era das mulheres, um modelo masculino de atender. Preconizo a inserção da enfermeira obstetra na equipe e o trabalho multiprofissional. O médico não sai de cena, nem nunca poderia sair. Entrevistei uma  midwife britânica. Ela contou que lá o modelo é centrado na enfermeira obstetra, em casos de normalidade, segundo ela, é “guardiã” da normalidade. Em caso das alterações, é levada para o médico, que faz as recomendações. Ela volta para a midwife que fica com ela até depois do parto.  A Rede Cegonha, programa do Ministério da Saúde, preconiza a inserção da enfermeira obstetra, como estratégia para aumentar o índice de partos normais e reduzir as cesáreas. A enfermeira é treinada para acolher, cuidar e espera o parto transcorrer naturalmente. O médico é ensinado a intervir, medicalizar, fazer cirurgias. Aí o problema é a formação. Eles não aprendem a assistir partos normais e oferecem os partos anormais que vemos por aí. A mulher fica entre duas opções: uma cesárea limpa e asséptica ou um parto normal cheio de intervenções desnecessárias.
Na Roda Bem Nascer Municipal. À frente, de camisa lilás, Isabel Cristina (doula) e Odete Pregal (enfermeira obstetra)


Ressalvas. Médicos que se propõe a trabalhar neste modelo “feminino”, respeitoso continuam bem vindos à cena do parto. Verdade é que há mercado para o parto natural, atualmente. Venham para o mercado de trabalho com a visão ampliada e consciente deste cenário – epidemia de cesarianas e crescimentos dos movimentos em prol da humanização do nascimento. Nós, as mulheres, empoderamos dos nossos partos. Demandamos assistência respeitosa e menos intervencionista. Que respeitem nossos tempos de parir. Meia luz, mais silêncio, mais respeito nas salas de parto. Não nos cortem mais desnecessariamente. Deixem-nos assumir a posição de parto de nossa preferência. Que nãos nos deixem morrendo de sede e fome, de olho na cesariana. Queremos parir de cócoras e não deitadas, amarradas, com as pernas para cima.

Moysés Paciornick conta em um livro que, um dia, perguntou às índias: - Como vocês têm filhos? Elas responderam: - tento, ora! A gente agacha, espreme e o nenê nasce. Ele, muito gozador, deitou no chão, pôs as pernas para cima e contou: - As mulheres civilizadas têm seus filhos assim! Elas não acreditaram e riram como nunca. Ele disse que índio não é muito de rir. Aí, uma índia perguntou: e prá fazer coco é assim também?
Acima de tudo, lembrem-se, aquele é mais um dia de rotina em seu trabalho, mas é o primeiro daquela criaturinha que está chegando. Preserve o sagrado, o ritual da vida. Só vamos mudar o mundo – segundo Michel Odent – quando mudarmos a forma de nascer.
Convido-os a irem observar a Roda Bem Nascer. Já recebemos muitos alunos da Escola de Enfermagem da UFMG, de jornalismo. Interessa-nos sensibilizar os profissionais antes de saírem para o mercado de trabalho. Que este encontro gere profissionais conscientes da importância do nascimento para a mulher, a família e o bebê que está nascendo.

Cleise Soares
8756.5932
Visitem nosso blog bemnascer.org.br


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