17 de setembro de 2014

MICHEL ODENT Fala sobre a cesárea


“Não podemos começar essa Conferência sobre “Parto e Nascimento no mundo Contemporâneo” sem nos referirmos aos inúmeros avanços técnicos e científicos que vão, sem dúvida, influenciar e acelerar a história do parto e nascimento. Temos que mencionar como as técnicas de cesárea foram, recentemente, simplificadas. Hoje, devido ao trabalho em especial do professor Michael Stark, de Berlim, é possível fazer uma cesárea em 20 minutos. Quando eu fiz minha primeira cesárea, há meio século, nós precisávamos de uma hora, e isso, acelerado. A técnica foi dramaticamente simplificada. Talvez, possivelmente, é mais seguro que jamais foi.

Quando falamos de parto e nascimento, hoje, precisamos olhar esse ponto da virada da história da humanidade. Podemos dizer que hoje a cesárea é uma operação fácil, rápida e segura. Temos que aprender a formular questões novas... No novo contexto em que estamos, se levarmos em consideração somente os critérios convencionais de avaliar a prática da obstetrícia – morbidade e mortalidade perinatal e a relação custo e benefício – seria aceitável oferecer cesárea para todas as mulheres grávidas. A questão do momento é que, ao mesmo tempo em que existem tais avanços técnicos, existem outros avanços científicos oferecidos por disciplinas fora do campo da medicina que sugerem novos critérios para avaliar as práticas da obstetrícia e a arte de partejar.

Por exemplo, hoje, devido a um braço da epidemiologia, temos um acúmulo de dados seguros sugerindo que a forma como nós nascemos tem conseqüências duradouras por toda a vida...
Os resultados nos fazem pensar, por exemplo, que a forma como a mulher deu à luz pode influenciar a qualidade e a duração da amamentação..

Também estamos aprendendo como a flora intestinal é importante, e nossa saúde depende da interação entre a flora intestinal e nosso sistema imunológico. A flora intestinal se estabelece imediatamente após o nascimento, mas quais são os primeiros micróbios que o bebê vai encontrar? Já que o recém-nascido tem os mesmos anticorpos IgG da mãe, faz uma grande diferença, o bebê encontrar primeiro os germes transmitidos e carregados pela mãe, germes já conhecidos e familiarizados pelo bebê, ou se ele vai ser colonizado imediatamente por germes de fora, não conhecidos pela mãe. Temos que levar em consideração esse critério, já que a nossa saúde depende muito de como nossa flora foi estabelecida desde o começo da nossa vida fora do útero.

Como seres humanos diferentes de outros mamíferos, precisamos incluir outras dimensões para pensar como os bebês nascem, considerando a civilização. Quando você estuda o parto de outros mamíferos, quando você prejudica o processo de nascimento de um mamífero não-humano, o efeito é que a mãe não cuida do recém-nascido. Por exemplo, no caso das ovelhas, se você interrompe o parto, a mãe simplesmente não vai aceitar o bebê. No ser humano é mais complexo, tudo é diluído no meio cultural. Então, no futuro, é possível pensar que todos os bebês pudessem nascer pela via abdominal. Por outro lado, várias disciplinas científicas nos informam que temos boas razões, mudando os critérios de avaliação, para tentar redescobrir as necessidades básicas da mulher em trabalho de parto e do bebê recém-nascido”...

.(Seminário BH Pelo Parto Normal/trecho da conferência de abertura-Parto e Nascimento no mundo contemporâneo/Michel Odent)

Michel Odent é um obstetra francês, radicado na Inglaterra. Ele se auto-denomina parteiro. É um grande pensador, quase um guru dos movimentos pela humanização do nascimento. Escreveu livros como "A cientificação do Amor", "O Renascimento do Parto", "Água e Sexualidade", o "Camponês e a Parteira", entre muitos outros. Uma boa dica para quem quer ampliar o horizonte e se situar em um momento único em que vivemos, o renascimento do parto. Temos muito o que caminhar, mas estamos caminhando.

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