30 de abril de 2014

ONG BEM NASCER MARCA PRESENÇA NA AUDIÊNCIA PÚBLICA

AUDIÊNCIA PÚBLICA NA ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DE MINAS GERAIS
TEMA: ASSISTÊNCIA HUMANIZADA AO PARTO



Mães militante abriram faixas na audiência.

Dr. João Batista Lima, do Hospital Sofia Feldman e Cleise Soares, presidente da ong Bem Nascer e também da Assessoria de Comunicação do Sofia.


DIA: 30 de abril de 2014
Discurso de Cleise Soares, representando a ong Bem Nascer

Estamos aqui para discutir a assistência humanizada ao parto. Ela está sendo desumana? Desrespeitosa? Está mudando o curso da vida? Como diz o obstetra Michel Odent, nunca se interviu tanto no nascimento do ser humano. A muitos está sendo negado o direito a nascer segundo a sua natureza. Esta questão diz respeito à ecologia humana, um ato tão grave como a derrubada das árvores na Floresta Amazônica. E traz consequências, nem todas ainda mensuradas, a níveis psicológico e emocional para esta mulher e esta criança.

52% de cesáreas em Belo Horizonte, mais de 56,7% no Brasil. A Organização Mundial de Saúde informa que apenas 15% dos partos demandam cirurgia. Mais da metade das crianças brasileiras chegaram ao mundo via cesariana. Por quê? A cultura da cesárea é recente, mas já se incorporou na nossa sociedade. O parto demanda uma tecnologia leve, humana. Ser compreendido na sua naturalidade e simplicidade.

Há várias questões que levam a esta situação. Começa na academia, na formação dos profissionais de saúde, futuros médicos que saem da universidade despreparados para assistir partos normais e bem capacitados para as intervenções. Depois, acabam oferecendo estes partos anormais que vemos por aí. As mulheres se veem diante de duas opções: a cesárea e este parto intervencionista, com episiotomia, aplicação de ocitocina sintética, fórceps, anestesia, excessivos toques, um parto totalmente medicalizado. 

Temos amigas que tem conseguido parir nos hospitais privados de acordo com suas demandas, escolhendo a dedo os médicos adeptos da assistência humanizada; mas mesmo assim, se elas decidem tomar anestesia, têm que ir de cadeiras de rodas para o bloco cirúrgico. Outras preferem ir para o SUS eficiente, o Hospital Sofia Feldman – referência nacional e internacional em assistência ao parto. Ou optam por partos domiciliares. Mas a grande maioria é engolida pelo sistema, pela frieza dos hospitais, pelos atos mecânicos dos profissionais de saúde, que repetem procedimentos já derrubados pela medicina baseada em evidências e com desconhecimento das boas práticas.

Devemos sair deste modelo médico centrado, hospitalocêntrico,  que vê o parto como doença. Abrir espaço para o atendimento multiprofissional, dividindo responsabilidade e inserindo a  enfermagem obstétrica, esta, mais preparada para cuidar, acolher e esperar o trabalho de parto. O médico é formado para intervir, medicalizar. Não contestamos as cesáreas necessárias, elas são uma benção, pois salvam as vidas das mães e das mulheres. Também acreditamos que médicos respeitosos e preparados para assistir a partos naturais continuam bem-vindos à cena do parto.

Questionamos as cesáreas eletivas, aquelas que desconhecem os ritmos da natureza. Já dizia Otto Rank, contemporâneo de Freud, o primeiro a falar sobre trauma do nascimento: “Quem não luta para nascer, não luta para viver”.  Nossa preocupação é com essa criança, retirada muitas vezes prematuramente do útero de suas mães, antes de terem dado sinal de que iam nascer. Em decorrência da epidemia de cesáreas, ocorre no Brasil uma epidemia de prematuridade, gerando crianças com problemas pulmonares pelo resto de suas vidas. Sem contar as questões psicológicas e emocionais.

Devolver o protagonismo do parto para a mulher, respeitando suas escolhas, seu tempo. Não incluo neste direito, o da mulher ser atendida em um pedido de cesárea, já que ela não tem conhecimento científico para se auto indicar uma cirurgia. Recomendamos as boas práticas. Uso de ocitocina só quando bem indicada, parcimônia nos toques no trabalho de parto, respeito ao tempo da mulher, escolha da posição, oferta do parto de cócoras. Nasceu? O corte do cordão umbilical deve ser feito pelo pai ou outro acompanhante. Ser preservado o contato pele a pele da mãe com o bebê, logo após o nascimento; um momento único, de fazer vínculos, momento sagrado, da família, momento roubado cotidianamente nas maternidades brasileiras pela pressa da pediatria ou enfermagem para lavar, pesar, medir. Temos que intervir na forma de receber este bebê. Menos luzes. Menos ruídos.

As mulheres têm sofrido violência obstétrica. Houve o caso recente da Adeli, que foi levada por uma força policial, formada por 9 soldados, na tora, para uma cesariana, situação que gerou protestos dentro e fora do país. Faço rodas para gestantes do interior de Minas e ouço falas recorrentes que elas escutaram em seus partos: “Não grita, para fazer você não gritou”, “não grita, o nenê não sai pela boca”. Uma delas me relatou que o primeiro filho nasceu e ela só foi vê-lo no outro dia. Quando ele chegou ao quarto, ela o estranhou. No segundo filho, aconteceu o contato pele a pele. Ela – uma mulher simples do povo -  reconheceu ali que tem mais vínculo com este filho e dificuldades de relacionamento com o outro. Mostra que procedimentos rotineiros podem deixar marcas na mulher, na criança e na família.  

Em 13 anos de ong Bem Nascer já atendemos a mais de 1.000 mulheres. Muitas que sonharam um parto normal e foram vítimas de cesarianas desnecessárias choram suas cesáreas conosco. Uma delas disse: “engravidei, mas não pari”. Uma outra relatou que sua amiga estava convicta, queria uma cesárea. No momento da cirurgia, o bebê já estava totalmente encaixado. Foi preciso puxá-lo de volta. Neste procedimento, algum problema ocorreu. Hoje, ela sente culpa. Para este ser humano sua primeira experiência entre nós não foi nada agradável. Estava pronto para a largada. É como morrer na praia.

Estamos aqui na casa dos mineiros. É urgente levar esta consciência para os médicos, profissionais de saúde, mulheres e sociedade do interior de Minas. Sou de Carmo do Rio Claro e sei que lá ocorrem quase 100% de cesarianas.  Sugiro que o Mães de Minas capacite os profissionais para oferecer uma assistência humanizada ao parto e nascimento. Vejo um trabalho sendo feito pelo Ministério da Saúde, na Rede Cegonha, que mensalmente leva profissionais e gestores de maternidades brasileiras para sensibilização para este novo modelo no Hospital Sofia Feldman. Fui informada por uma colega jornalista que muitas cidades, por questões políticas,  não contratualizaram com o programa. É um trabalho de formiguinha, mas tenho ouvido dos médicos visitantes: “eu não corto mais” referindo-se a episiotomia, “o que eu tenho mais nojo é de colocar aquele nenê melado em cima das mulheres”, mas ele passou a preservar o pele a pele.

Esta audiência pública é uma conquista dos movimentos civis, dos profissionais que nadam diariamente contra a corrente, das mulheres que se apoderam e lutam pelos seus partos. É uma conquista para nós, que militamos pela causa desde a década de 80. Em 1987 realizamos o I Seminário pela Humanização do Nascimento, na Maternidade Odete Valadares, em parceria com a ong Grávida-Grupo pela Garantia à Gravidez Ameaçada.  Lutávamos, então, pelo direito a acompanhante no trabalho de parto  o fim dos berçários e uma melhor assistência no sistema público, então INAMPS,  já conquistados, no que diz respeito a Belo Horizonte. Por isto, creio nas mudanças.

Quero pedir aqui empenho dos deputados em suas ações no interior, das organizações e conselhos de classe na orientação dos seus profissionais, da academia para mudança curricular e a colocação de foco no parto normal. Ao Judiciário quero pedir providências para garantia de acompanhante para as mulheres do interior de Minas. Muitas delas relatam nas rodas que não estão tendo esse direito, já garantido por lei federal, respeitado.
Nós queremos mudar o mundo. Segundo Michel Odent: Para mudar o mundo há que se mudar  a forma de nascer.

Nossa luta é por esta mulher e por esta criança. Para resgatar a simplicidade do nascimento. Criar espaços com ambiência adequada para o trabalho de parto. Adotar as boas práticas. O resto, deixa com as mulheres, nós parimos os homens desde o princípio dos tem

Cleise Soares
Fundadora e Presidente da ONG BEM NASCER – 
www.bemnascer.org.br
cleisempsoares@gmail.com




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