9 de novembro de 2011

Reflexões sobre o nascimento no Brasil

Este é o texto da palestra que fiz no Congresso Brasileiro de Enfermagem Obstétrica, que aconteceu em junho, em Belo Horizonte.


A CONTINUIDADE DO CUIDADO À MULHER E AO RECÉM NASCIDO APÓS O PARTO E NASCIMENTO: PERSPECTIVAS PARA O CUIDADO INTEGRADOR E AUTOMIZANTE
EXPERIÊNCIA DA ONG BEM NASCER

O que eu venho falar aqui, não nasceu das academias, nem das pesquisas científicas. Nasceu da experiência de ouvir e falar com as mulheres/mães há mais de 30 anos. Nasceu da minha própria experiência com a maternidade, no nascimento dos meus quatro filhos, todos nascidos de parto natural, humanizado, de cócoras, sendo o último aos 41 anos.
Há dez anos, estou à frente da ONG Bem Nascer, que nasceu com a missão de lembrar à mulher “moderna” como eram os partos naturais de antigamente, disseminar a cultura do parto normal para toda a sociedade e fazer a profilaxia da cesárea desnecessária. Contamos para isso com uma equipe multidisciplinar, formada por médicos obstetras, enfermeiras obstetras, psicólogas, doulas, professoras de práticas integrativas e as usuárias de planos de saúde e do SUS.
O projeto Bem Nascer surgiu em 2001, num panorama de epidemia de cesarianas no Brasil. Desde então, trabalhamos pela simplificação do parto e com os fundamentos da medicina baseada em evidências científicas, que já derrubou inúmeros procedimentos ainda usuais.
Acreditamos que a forma de nascer influencia a forma de viver. Lutamos pela humanização do nascimento em todas as suas etapas - pré parto, parto e pós parto, para isso, procuramos falar com os acadêmicos, as futuras enfermeiras obstetras, os futuros médicos. Alertamos para a humanização da pediatria no acolhimento ao nenê, pelo retorno à naturalidade do processo de parto e o re-empoderamento da mulher; porque nos primórdios dos tempos, a mulher era dona do seu parto. O parto era um evento eminentemente feminino, contava com a presença da parteira, das doulas naturais – avós, tias, amigas, comadres. O homem apossou desse espaço.
Se nas décadas de 70/80, quando comecei a militar a causa – fundei na época o Grávida-Grupo pela Garantia à Gravidez Ameaçada, que realizou em Belo Horizonte o I Seminário pela Humanização do Nascimento, em 1985. Parto natural era coisa de “bicho grilo”, “alternativos”, hoje é assunto da ordem do dia para a OMS (Organização Mundial de Saúde), o Ministério da Saúde do Brasil, da Comissão Perinatal da Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte, de movimentos sociais e de mulheres. Hoje, é uma questão de saúde pública, de saúde financeira. São onerosas para o SUS e as empresas de planos de saúde as intervenções, que demandam mais medicamentos – anestesia, antiinflamatórios, fios para costurar, UTI neonatal...
Isso sem pensar nas crianças que mamam remédio. Que encontram suas mães anestesiadas, cortadas, operadas, muitas vezes em cesáreas eletivas, desnecessárias. Quando poderiam
encontrá-las inteiras, sem cortes, suturas, rupturas. Foram retiradas do útero de suas mães em cesáreas frias, sem a ação dos hormônios.
Essa ruptura afeta o nenê? Afeta a mãe?
Hoje sabemos que a ocitocina é considerada o hormônio do amor, porque está presente nas relações sexuais, no parto, na amamentação. E que é um hormônio que favorece a relação instintiva entre mãe e filho. Sabemos também que alguns animais, quando se toca nos filhos antes deles, eles o renegam. Isto tudo se dilui num contexto cultural, mas, perguntamos, a ausência de ocitocina compromete o instinto, a interação entre mãe e filho?. Acreditamos, também, que uma boa acolhida, aceitação e uma eficiente amamentação, a presença, o amor, pode curar quase tudo.
Ainda assim, perguntamos: a cesariana eletiva deixa sequelas na mãe, na criança? E, em conseqüência, em toda a sociedade?
Nós acolhemos as mães que se sentem usurpadas do seu direito de parir naturalmente, ou quando a cesárea é necessária, agradecidas pela possibilidade de salvar a vida do filho, mas ainda assim, doloridas, machucadas. “Gestamos, não parimos”. Acolhemos as mães e seus sonhos de partos. Procuramos escutar e perceber as suas demandas, ajudando a criar caminhos para um parto o mais humanizado possível.
Por isso, para desenvolver o tema proposto: A continuidade do cuidado à mulher e ao recém nascido após o parto e nascimento: perspectivas para o cuidado integrador e automizante, precisei começar antes. Essa autonomização começa no processo de empoderamento da mulher desde a gestação, até o exercício da maternidade.
Antigamente, os partos eram naturais, de cócoras, acompanhados por parteiras, comadres, em casa, na beira de um lago, na tendas das mulheres. Coisa de mulher, Na década de 50, os partos ainda eram domiciliares, assistidos ou por parteiras ou por médicos. Na década de 60, eles migraram para o hospital. . E a cesárea teve seu primeiro boom em 1970. E hoje, no ano passado, um milhão, quatrocentas e setenta mil crianças nasceram de cesáreas no Brasil. Passou a se falar em uma “epidemia de cesarianas”, que consequentemente, levou a uma “epidemia de prematuridade.” Nenês sendo retirados do útero prematuramente, com 37 semanas, pulmões imaturos, deixando seqüelas, muitas vezes, para o resto da vida.
Segundo a Organização Mundial de Saúde, apenas 15% das cesáreas são realmente necessárias. O obstetra, Michel Odent, referência na obstetrícia moderna, afirma que muitas crianças estão nascendo com déficit de amor, por nascerem de partos onde não ocorreu a simbiose criada pela ocitocina.
E o efeito cascata? Uma cesárea fria, agendada em consultório, seguida pela ausência de amamentação, ausência da mãe em casa – ela trabalhando- filhos terceirizados para escolas ou empregadas.
O que vai ser dessa criança?
Como é o trabalho da ONG?
Começamos informando a mulher, mostrando que ela deve ser protagonista do seu parto. Tem direito a manifestar os seus desejos e ser respeitada pela equipe que a assiste. Deve fazer o seu Plano de Parto, onde expressa suas escolhas. Deve procurar um atendimento condizente com suas demandas.
Ela é acolhida pelas outras mulheres da roda de conversa, numa troca muito rica de informações.
Incentivamos a presença do pai ao lado da mãe, no nascimento do filho. Temos observado que os pais se sentem mais ligados à mãe e à criança, ampliando assim a consciência da paternidade. O pai se compromete mais com a família.
Incentivamos a amamentação em livre demanda e valorizamos o exercício da maternidade, tão desprestigiado nos tempos atuais. Entre nós, mãe tem muito valor e maternar é um prazer.
Incentivamos o uso do sling, que favorece o contato mãe/filho, pai/filho, semeando confiança e segurança no nenê, lembrando que as índias costumam andar mais de um ano com o filho próximo ao corpo, numa exterogestação.
Acolhemos a gestantes, seus receios, sustos, dúvidas, perguntas. As respostas vêm das próprias mães presentes nas rodas de conversa, que testemunham suas experiências, mostrando caminhos para um parto mais humanizado e respeitoso. De mulher para mulher. E das profissionais multidisciplinares que atuam voluntariamente na instituição.
Alertamos sobre a pediatria atual, que tira o nenê de perto da mãe prematuramente, roubando dos pais aquele momento único e que não vai se repetir.
Acreditamos que as enfermeiras, enfermeiras obstetras, obstetras, anestesistas, pediatras – todos devem respeitar aquele momento como sagrado, mais um dia na sua lida, mas o primeiro na vida daquele pequeno ser.
Não posso compreender como um berço aquecido pode ser melhor que o calor da mãe, que um berçário conjunto possa ser mais seguro que o cuidado individualizado e interessado do pai e da mãe.
Hoje se sabe que o pico da ocitocina na vida de uma mulher acontece quando o nenê nasce, momento da mãe conhecer seu filho, o olho no olho, pele na pele, amamentação na primeira hora. Atualmente, esse olho no olho costuma acontecer com a pediatra, a enfermeira, na pressa em levar a criança para pesar, medir, limpar...
Questionamos também outros procedimentos usuais como a episiotomia – já comprovado por evidências científicas que é pior, causa mais infecção, na maioria das vezes, é desnecessária; a lavagem intestinal, ocitocina sintética rotineira, corte prematuro do cordão umbilical, excesso de toques. São muitas as interferências no parto, algumas bastante invasivas.
Como trabalhamos?
Atualmente, a ONG Bem Nascer promove em Belo Horizonte,duas RODAS BEM NASCER
– no Parque Municipal, segundo sábado do mês (Orquidário), de 14h30 as 17h e
- no Parque das Mangabeiras, último sábado, de 9h30 às 13h.
As rodas são oferecidas gratuitamente pelos profissionais/voluntários da instituição aos casais grávidos. Nas Rodas, há uma troca natural de informações entre os casais grávidos e mães já com os filhos no colo e no peito. As rodas atendem a diferentes públicos. Quando acontece no Parque Municipal, atende mais usuárias do SUS. Quando ocorre nas feiras de gestantes atinge a todas as classes sociais. As rodas também atendem as usuárias dos planos de saúde.

Muitas estão migrando para o Hospital Sofia Feldman, um SUS humano e eficiente e o único a oferecer na cidade o parto na água e um atendimento centrado na mulher e com a assistência da enfermeira obstetra. Outras têm encontrado médicos afins à causa da humanização e que lutam contra a corrente diariamente enfrentando o sistema hospitalar tradicional.

Quando as gestantes chegam a 38 semanas, ganham um CHÁ DE BENÇÃOS. As voluntárias da ONG se reúnem, promovem um escalda-pés e enviam boas vibrações para a mãe, na sua casa.
Depois de nascido o nenê, as mães recebem outro CHÁ DE BENÇÃOS. Nesse caso, as mulheres se reúnem para dar conforto à mulher em resguardo, ajudando nas funções da casa e olhando o nenê para que ela possa, por exemplo, tomar um banho tranqüila. Algo simples, mas um conforto para a parturiente. Nas Rodas, as mães se encontram e os filhos se tornam amigos, brincam juntos, preenchendo uma carência dos dias atuais, a companheiragem, trocam informações sobre gestação, parto, pós parto, criação das crianças etc.
Nosso objetivo, além de acolher a mulher em suas demandas, é sensibilizar a sociedade sobre estas questões, utilizando para isso também o JORNAL BEM NASCER, que circula em feiras, nos stands do movimento BH Pelo Parto Normal e nos eventos da ONG. Vocês estão recebendo o exemplar da última edição. Ele conta com a colaboração de obstetras, enfermeiras obstetras, doulas, psicóloga e professoras de Yoga.
Temos um objetivo especial, sensibilizar os ACADÊMICOS para a humanização do nascimento. Para isso, realizamos palestras nas universidades e os recebemos nas Rodas Bem Nascer, que fazem parte do currículo dos cursos de extensão em Enfermagem Obstétrica da PUC Minas e UFMG. Desta maneira, semeamos essa consciência antes dos profissionais saírem para o mercado de trabalho.
A nossa abordagem passa pela ecologia do ser humano. Nunca na história da humanidade se interferiu tanto no nascimento. Michel Odent costuma dizer que não se sabe aonde vamos chegar. Nunca aconteceu antes tamanha invasão na privacidade e naturalidade do parto. As mulheres estão tendo as barrigas cortadas em massa, recebendo cortes sangrentos das episiotomia, recebendo ocitocina sintética de rotina, as crianças estão nascendo prematuramente, antes de estarem maduras, as mulheres, muitas vezes são desrespeitadas pela equipe de saúde, insensível àquele momento tão especial!.. Para assistir a um parto, há que se ter – mesmo que seja homem – atitudes femininas: acolhedora, amorosa, paciente. Deve literalmente “assistir” o parto. Saber que o protagonismo é da mulher e da família. Somos pela presença da enfermeira obstetra no cenário do parto e pelo empoderamento das mulheres na gestação e no exercício da maternidade.

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