3 de junho de 2011

Parto normal pélvico é possível?

A experiência de Patrícia Brandão, de Recife, nos mostra que sim!
Abaixo o relato feito por sua doula, Nélia de Paula, contando um pouco da trajetória da Patrícia e por que da escolha pelo parto normal pélvico.


Foto: Ivana Borges

Bom, gente, deixa eu ver se consigo descrever... foi muito importante estar no nascimento de Miguel e acho que só Paty e eu sabemos o quanto significou para mim vivenciar esse momento...
Foi o parto da superação, do renascimento. Uma demonstração sem tamanhos de FÉ.

Luna nasceu no Rio de Janeiro às 35 semanas de cesárea. A bolsa de Paty rompeu de repente, ela entrou em TP e ao chegar ao hospital, como Luna estava pélvica, veio a sentença da cesárea. Com ela, a vivência de ter sua filha afastada, levada à UTI, ser submetida a inúmeras intervenções: furadas, tubos, leite artificial sem permissão...
Paty engravidou de Maria no começo do ano passado. Fomos companheiras de barriga, tanto no Ishtar, como no CAIS do Parto, a data provável do nascimento de Maria era mais ou menos um mês depois da de meu Daniel.
Às 30 semanas, no final de agosto de 2010, num exame às barrigas no CAIS do Parto, foi descoberto que havia algum problema que levava à restrição do crescimento da bebê. Exames foram feitos, não existia uma explicação concreta, nem nada sugeria que o resultado seria o que ocorreu. Como a obstetra que a acompanhava indicou uma cesárea, e nem ela nem o marido queriam passar novamente pelo drama da UTI neonatal, dessa vez com um bebê extremamente prematuro e com poucas chances de vida extra-útero, um mutirão para cuidar delas foi montado. Ela assumiu as consequências e preferiu dar uma chance à Maria de se desenvolver um pouco mais no seu ventre. Foi internada no IMIP um dia depois da descoberta, mas, infelizmente, alguns dias depois Maria faleceu e Paty foi abandonada pela obstetra que fez o pré-natal. Dra. Gláucia Guerra, uma das médicas que havia cuidado dela no IMIP, induziu o parto de início, mas depois deixou tudo transcorrer naturalmente, e Maria nasceu também pélvica, com apenas 700 e poucos gramas, num quarto do Hospital Santa Joana.

Paty não sabia, mas em exatos 23 dias após o nascimento de Maria ela engravidava de Miguel, e só veio a descobrir dois meses depois. O resultado dessa gravidez tão inesperada e tão bem vivida foi o parto de domingo passado, dia 29 de maio de 2011, com a mesma médica e no mesmo hospital em que ela pariu Maria.

Eu estava em Gravatá (1h de Recife), fui no sábado para um aniversário de 40 anos de uma amiga querida e do marido, e resolvemos ficar num flat alugado por lá com os meninos e a babá. O plano era voltar no domingo depois do almoço. Tomamos café, Gabriel queria porque queria ir pra piscina, mas estava gelada e ele logo desanimou. Daí, voltamos pro quarto umas 9:45, e lembrei do celular carregando. Quando pego, lá estavam duas ligações de Paty, então me veio logo na cabeça: É Miguel, apressadinho (a DPP dele era para o final de junho)

Ligo pra ela, dito e feito: era Miguel chegando, e, como diz minha "cumadi" Patrícia Arouca, "dicunforça". Paty acordou por volta das 9h com uma contração bem forte. Daí pra frente elas continuaram muito fortes e muito próximas. Arrumei a tralha e a filharada e toquei pra Recife. Eram 10:30.

O marido mora no Rio de Janeiro. Ela estava em casa apenas com uma prima que também é vizinha de prédio. Dra. Gláucia estava num congresso de Ginecologia e Obstetrícia em Porto de Galinhas, com simplesmente TODOS os bons médicos obstetras daqui. Para não incomodar Paty, preferi falar com Dra. Gláucia pra saber se eu ia pra a casa dela ou pro hospital (ela estava com medo de ir para o hospital sem Dra. Gláucia ou alguma de nós e lá alguém quisesse meter a faca) e nisso Paty Arouca entrou em ação pra conseguir o celular dela. Liguei pra Aninha Katz e mesmo sem poder ir, ela foi na frente, e quando eu chegasse, ela iria embora (rá rá rá, me engana que eu gosto...)


Bom, quando eu cheguei ao hospital, 11:40, Aninha já estava, chegou outra prima que é fotógrafa, Ivana, e Dra. Glaucia estava chegando...Paty na triagem, com dilatação completa e já sentindo vontade de fazer força. Os médicos querendo que ela vestisse a roupa hospitalar e fosse pro bloco, outro fazia as perguntas idiotas ("tá com dor de cabeça, Patrícia? Heim? Sim ou não") e ela, entre uma contração e outra, ou não respondia, ou dizia: "eu só saio daqui com minha médica". E assim foi, ela chegou rapidinho, escutou os batimentos, maravilhosos, e fomos pro quarto.


Lá, Dra. Gláucia examinou novamente e disse que ele ainda "tava um pouquinho alto", Paty foi ao chuveiro, já fazendo força, depois voltou pra cama e disse que tava com vontade sim. Ficou de quatro em cima da cama e disse: "ele tá vindo". E veio mesmo. Às 12:22, lá vinha Miguel, o milagrinho de Paty: Lindo, bem tranquilamente, dentro da bolsa, aquele pacotinho: primeiro o bumbum e as perninhas em posição de lótus, o bracinho esquerdo, depois o direito, até sair a cabeça, e ele caiu na cama, já chorando. Simples assim...


Paty o pegou imediatamente, e não largou mais. Os poucos exames foram feitos ali mesmo, a pediatra (plantonista, mas bem legal, Aninha disse que foi a mesma de Vicente, de Mel), queria usar uma sonda em Miguel pra ver isso ou aquilo, mas Paty foi contra. Ela tentou insistir, mas Paty ficou irredutível e disse que sabia que Miguel estava perfeitamente saudável, se ela quisesse ela assinava um termo, o que fosse...O cordão foi clampeado mas não cortado, pois ela quis esperar Luna chegar para cortá-lo. Quando Luna chegou, cortou o cordão e depois Paty foi pro chuveiro, tomar um merecido banho, ali a placenta nasceu, outro lindo momento, pois Paty pegou a placenta e agradeceu muito, beijou, cheirou, mostrou toda a gratidão por aquela que por toda a gravidez tão bem nutriu e protegeu Miguel...


Foi um parto mais do que especial, acho que muito mais lindo do que qualquer um de nós pudesse desejar... eu me emocionei e chorei muito, a cada dia me impressiono como são as coisas da vida, sem explicação, sem controle...


Daí pra frente eu deixo pra ela mesma contar, quando puder!


Obrigada pelas boas energias enviadas, estamos MUITO, MUITO, MUITO felizes!


Beijos,

Nelia - neliadepaula@gmail.com

6 comentários:

Adèle disse...

Muito lindo! Tem que ser assim mesmo, leoa, afastando os abutres da cria! Lindo relato, muito inspirador!

Carol Flor disse...

Ai meus olhos cheios de lágrimas.

Anônimo disse...

Lindo demais! O meu bebê também estava pélvico e tentei parto normal. Após mais de 1 hora fazendo força, ele não desceu e acabei tendo que fazer uma cesária. Talvez se eu estivesse num ambiente mais relaxante, ele teria nascido normal, pois cheia a dilatação completa em menos de 3 horas. Mas é isso aí, no próximo terei meu parto natural!

Ligia Moreiras Sena disse...

Caramba... tô sem ar.
Que nascimento(s)!
Obrigada por compartilhar.
Profundamente emocionante.

Ligia
www.cientistaqueviroumae.com.br

Sylvana disse...

Já sabia de toda a história pelas listas de discussão, mas é impossível não se emocionar ao ler toda a trajetória do nascimento dessa família abençoada.
Parabéns, Paty!
Parabéns, Nélia!

Anônimo disse...

Já ouviu falar em pre eclâmpsia? Logo, essa pergunta sobre dor de cabeça não era tão idiota assim. A mulher pode ter um pré natal todo normal e a pré eclampsia pode se manifestar apenas durante o trabalho de parto.
Parabéns pelo restante do relato. Dra. Glaucia é maravilhosa mesmo!