21 de outubro de 2007

Tipos de Parto?

Tipos de Parto? Que classificação é essa?
setembro/2006


Antes de mais nada deveríamos nos perguntar: é possível classificar um parto por “tipo” antes dele acontecer? É possível saber como será o seu parto antes que ele termine? A resposta deveria ser não. O ideal é que só soubéssemos mesmo na hora. O natural seria que cada mulher pudesse escolher durante o parto a posição que para ela, naquele momento, fosse a mais fisiológica e favorecedora para o nascimento. Se o bom é continuar dentro da banheira com água, acocorar-se ou deitar. E só saber se irá para uma cesariana em caso de real necessidade, o que segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde) deveria corresponder a apenas 15% dos partos, incluindo aí as gestações de maior risco.

Hoje ouvimos falar em vários “tipos de parto:” parto normal, parto vaginal, parto natural, cesárea, parto a ferro (fórceps), parto na água, parto Leboyer, parto sem dor, parto humanizado, parto de cócoras, e assim por diante. Antes de explicá-los é importante pensar de onde surgiram as classificações dos “tipos de parto” de que hoje tanto ouvimos falar.

A separação dos partos por tipos é relativamente recente e só aconteceu como conseqüência do nosso sistema obstétrico, ou seja, depois que a maioria dos partos passou a ocorrer dentro do ambiente hospitalar, há aproximadamente 70 anos . Desde então o parto passou a ser feito quase que exclusivamente pelos médicos, em macas horizontais, com mulheres em posição ginecológica. A partir daí a classificação ficou óbvia: “Parto Normal” ou “Cesariana”. Não havia alternativas, ou a mulher se adaptava a parir nas condições padronizadas ou ia para a cesárea.

As condições padronizadas hospitalares sob as quais as mulheres deveriam tentar o parto normal eram: separação do companheiro, salas de pré-parto coletivas sem privacidade, impossibilidade de movimentação, soro com hormônios e intervenções para acelerar o parto, período expulsivo com a mulher deitada de costas e pernas amarradas na perneira (o que reduz em 40% o espaço para a passagem do bebê e diminui a circulação para mãe e feto), comandos para fazer força, equipe pressionando barriga da mulher, corte rotineiro no períneo, entre outros.

Estas condições padronizadas para o parto infelizmente ainda são comuns na maioria dos hospitais brasileiros. Muitas mulheres chamam criticamente o parto normal hospitalar, com todas as suas intervenções de rotina, de “parto vaginal hospitalar”; já pouco ele apresenta de “normal” ou “natural”.

Muitas vezes o parto sob estas condições ficava difícil e aplicava-se o fórceps alto (um instrumento de ferro como uma tesoura grande, com duas colheres metálicas que entram na vagina e seguram a cabeça do bebê puxando-a para fora). Esta intervenção trazia muitas vezes seqüelas para o recém-nascido e para a mãe. Ficou conhecido como “Parto a Ferro” ou “Parto Fórceps”. Hoje se utiliza apenas o fórceps de alívio, quando a cabeça do bebê está mais em baixo no canal de parto. É um ótimo recurso para acelerar o período expulsivo em casos emergenciais, se o bebê apresentar sofrimento fetal, o que é exceção e não a regra em uma gestação de baixo risco.

A partir da década de 70, no pós-segunda guerra e dentro do movimento revolucionário que se iniciou com o movimento hippie, alguns médicos e mulheres passaram a questionar o excesso de intervenções e melhores condições para dar a luz, propondo o resgate do parto como um evento fisiológico, familiar e afetivo. A partir daí surgiram as demais possíveis classificações das “formas de nascer”.

Parto Leboyer

Na França, o obstetra Frédérick Leboyer focou-se no recém-nascido e defendeu uma forma menos violenta de nascer. Foi o primeiro a considerar a importância do vínculo mãe-recém-nascido no momento do nascimento. Pouca luz, silêncio, massagem nas costas do bebê, esperar o cordão parar de pulsar para o bebê fazer a transição respiratória de forma mais suave, banho do bebê perto da mãe, amamentação precoce. No entanto seu foco era o bebê, não a mulher. Geralmente estava deitada de costas, pernas em estribos e o uso da episiotomia era rotina.

Parto de Cócoras

Janet Balaskas liderou o movimento pelo “parto ativo” em Londres, na década de 80. Trabalhava com gestantes em aulas de yoga e preparando-as para uma postura mais ativa no parto. Observou que raramente ocorriam depressões-pós-parto, problemas com amamentação ou recuperação da parturiente. Onde havia liberdade para movimentação das mulheres e elas podiam seguir seus instintos e a lógica fisiológica do corpo durante o parto, a grande maioria preferia adotar a posição vertical ou de cócoras durante a fase expulsiva, por ser mais rápido e cômodo para a mulher e mais saudável para o bebê.

Desde a mais remota antigüidade as mulheres procuravam posições que facilitassem o parto. Nas gravuras antigas o mais comum é ver mulheres ajoelhadas, de cócoras, ou em banquinhos baixos de parto. De um jeito ou de outro o que se observa é que as costas estão em posição vertical. A posição das pernas é variável.

Inúmeros estudos nos últimos 70 anos mostram as vantagens da posição vertical ou de cócoras durante a expulsão:

- a área da pélvis é aumentada em até 40%, facilitando a passagem do bebê;

- o feto desce com a ajuda da gravidade;

- a eficiência do esforço muscular da mãe é muito maior nesta posição;

- as contrações uterinas são mais eficazes e, portanto, a duração do parto e a dor são menores;

- a elasticidade do períneo é menos comprometida, mantendo sua integridade;

- a posição horizontal obriga o feto a subir durante a expulsão para vencer a forma da curva pélvica, e exige da mãe um esforço muito maior para o mesmo fim;

- há uma diminuição comprovada da incidência de intervenções medicamentosas, instrumentais e cirúrgicas nos partos verticais;

- na posição horizontal a compressão feita pelo peso do feto (somado ao peso do útero, placenta e líquido) na veia cava da mãe, produz efeitos negativos na mãe e no feto, comprometendo a circulação sanguínea podendo levar ao sofrimento fetal.

No Brasil o Dr. Moysés Paciornik estudou comunidades indígenas e resgatou o parto verticalizado. Criou com seu filho Dr. Cláudio Paciornik uma cadeira para ser usada em hospitais, que permitia várias posições para a mãe, sem comprometer o conforto do médico. Embora não haja necessidade de cadeiras especiais para que a mulher assuma essa posição, muitos profissionais afirmam que não fazem partos de cócoras porque no hospital não existe "a cadeira para parto de cócoras" à disposição.

Para ter um parto de cócoras não é preciso ser atleta nem fazer grandes preparações. A mulher só assume a posição de cócoras (ou senta-se no banquinho de parto ou cama de parto) na fase final do parto e só durante as contrações, descansando nos intervalos. O pai pode participar do parto mais ativamente, oferecendo apoio com seu corpo atrás da mulher.

Parto Natural

Termo que surge também na década de 80, no movimento pelo parto ativo, com a popularização das questões ecológicas e com a retomada do parto pelas mulheres. Refere-se ao parto sem medicamentos, intervenções desnecessárias e anestesia, que muitas vezes acontece em casa.

Parto na Água

O obstetra francês Michel Odent, na cidade de Pithiviers, começou a usar banheira com água quente para o conforto das parturientes e alívio da dor. Algumas parturientes se sentiam bem dentro da banheira e o bebê nascia ali mesmo. De lá para cá, o parto na água tem sido utilizado no mundo inteiro, em banheiras especiais ou improvisadas. Estudos científicos comprovam que o uso da água quente no trabalho de parto é um excelente coadjuvante no combate à tensão e à dor, ajudando significativamente na dilatação do colo de útero. O nascimento para o bebê é muito mais suave e o períneo da mãe ganha maior flexibilidade com a água quente.

No Brasil pouquíssimas clínicas e médicos oferecem esse conforto às pacientes, infelizmente. Mas é possível levar uma banheira inflável para o apartamento de alguns hospitais e se utilizar da água pelo menos durante o trabalho de parto.

*Para saber mais sobre o parto na água: “O Parto na Água” Cornelia Enning; editora Manole.

Parto Sem Dor

O termo tem várias conotações. Os métodos psicoprofiláticos desenvolvidos especialmente nos Estados Unidos propunham uma espécie de treinamento às gestantes, baseado em técnicas respiratórias, de relaxamento, de concentração, entre outras. A idéia geral é que uma mulher bem preparada para o parto e bem acompanhada durante todo o processo terá muito menos dor do que uma mulher assustada e tensa. A idéia faz sentido, mas convém lembrar que a dor do parto continua existindo, agora sem o sofrimento causado por medo e tensão. Os métodos mais conhecidos são Bradley, Lamaze e Hipnobirth.

No Brasil "Parto Sem Dor" é comumente confundido com parto sob anestesia. Obviamente a anestesia bloqueia a dor, mas também diminui as sensações das pernas e do assoalho pélvico. Essas sensações são responsáveis pela força que a mulher faz na hora de "empurrar" o bebê para fora. Portanto, embora haja o bloqueio à dor, alguns efeitos indesejáveis como a perda do controle sobre o processo do parto, entre outros, podem ocorrer. Em muitos serviços médicos a anestesia é aplicada no final do trabalho de parto, já no período expulsivo, de modo que o período de dilatação não se passa sob efeito das drogas anestésicas. De qualquer modo, as formas naturais de se lidar com a dor deveriam ser largamente oferecidas e utilizadas antes de serem aplicados os métodos farmacológicos de bloqueio da dor.

Parto Humanizado

Termo atual que tem sido usado indiscriminadamente e sem uma definição real do termo. Para o Ministério da Saúde, parto humanizado significa o direito que toda gestante tem de passar por pelo menos 6 consultas de pré-natal, ter sua vaga garantida em um hospital na hora do parto e agora ter o direito a um acompanhante de escolha. Para alguns hospitais significa a presença de um acompanhante, música na sala de parto e a permissão de ficar alguns minutos com o bebê antes dele ser levado para o berçário.

Para o Rehuna (Rede Brasileira pela Humanização do Nascimento) e para muitos movimentos como “Parto do Princípio”, “Ong Bem Nascer”, “Despertar do Parto” entre muitos outros é devolver o papel principal do parto à mulher e promover uma atenção ao parto centrado nas escolhas e necessidades individuais de cada mulher. Se a mulher vai escolher dar à luz de cócoras ou na água, quanto tempo ela vai querer ficar com o bebê no colo após seu nascimento, quem vai estar em sua companhia, se ela vai querer se alimentar e beber líquidos, todas essas decisões deverão ser tomadas por ela, protagonista de seu próprio parto e dona de seu corpo. São decisões informadas e baseadas em evidências científicas. O papel do médico e de toda a assistência seria a de oferecer apoio e respeitar a fisiologia do parto só interferindo se houver real necessidade e não rotineiramente.

Eleonora de Moraes
Psicóloga, educadora perinatal e doula (acompanhante de parto)
Coordenadora do Curso para casais grávidos “Nove Luas”
Tel.: (16) 3911 4152 / 9705 8922
www.despertardoparto.com.br

fonte: http://www.jperegrino.com.br/Psicologia/tipos%20de%20parto.htm

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