21 de outubro de 2007

Cesariana, uma opção equivocada

Cesariana, uma opção equivocada

O parto é um fenômeno de vida num organismo saudável e não um evento cirúrgico indispensável num corpo doente.

GILDA DE CASTRO

A reprodução é um fenômeno próprio do organismo feminino e ocorre com uma previsibilidade admirável, embora possa acarretar desgaste em corpo imaturo ou debilitado. Surgem também, algumas vezes, intercorrências alheias ao padrão de normalidade e, nesse momento, a gestante/parturiente precisa contar com uma assistência que manipule técnicas para viabilizar o nascimento de um bebê saudável e sua plena recuperação.

Durante milênios, esse monitoramento foi realizado por mulheres que acumularam amplo conhecimento sobre concepção, gestação, parto e outros problemas domésticos.

Esse modelo sofreu uma reviravolta no século XX, com a institucionalização da assistência médica e promessa de que as mulheres teriam, em hospitais, parto seguro e orientação para a contracepção ou mesmo esterilização cirúrgica, se não desejassem outros filhos.

Era o processo de medicalização da reprodução humana, que proporcionou inúmeros benefícios, mas acarretou algumas distorções, como a demanda por cesariana para "ligar as trompas", especialmente a partir da terceira gestação.

Em pouco tempo, o procedimento cirúrgico predominou, principalmente entre as classes privilegiadas, pois as mulheres justificavam que, diante dos avanços da medicina científica, não podiam "parir como Eva".

Queriam também assegurar a presença do médico do pré-natal, a inserção do nascimento em sua atribulada agenda ou até uma configuração astrológica mais favorável para o filho.

Tornamo-nos, então, campeões do mundo em cesariana, contrariando a Organização Mundial de Saúde e as proposições mais modernas quanto a parto natural ou parto humanizado, amplamente difundidos na Europa desde o último quartel do século XX.

A Holanda, por exemplo, apresenta, atualmente, um índice de apenas 8% de intervenções cirúrgicas e vem incentivando o parto domiciliar com resultados muito satisfatórios.

Seduzidas por um discurso aparentemente moderno, as brasileiras ignoram a agressão maior ao seu corpo, os danos ao bebê e a recuperação mais lenta, esquecendo que os médicos são os principais beneficiários da opção pela cesariana.

Ou seja, enquanto o parto normal demanda singular competência do obstetra para intervir com técnicas necessárias, em momentos oportunos, além de várias horas de dedicação à paciente, o parto cirúrgico é uma operação banalíssima, porque implica incisão e sutura de poucos tecidos em organismo saudável e todos sabem o que existe no ventre materno.

Há, portanto, uma grande diferença entre os dois procedimentos e ela estaria relacionada à disponibilidade, segurança e proficiência do profissional que, agendando a cirurgia, não é incomodado fora do expediente, não perde sua paciente para outro colega e pode obter mais vantagens financeiras, diante da recuperação mais lenta e do recurso a técnicas proibidas a leigos ou enfermeiras.

Defendem, mesmo assim, uma teoria sobre a "modernidade" da cesariana, que preservaria o períneo, reduziria o sofrimento do bebê, proporcionaria conforto à parturiente e atestaria alta qualidade na assistência médica, desconhecendo os custos materiais, emocionais e simbólicos para a mulher, o seu rebento e a família.

Surgiu, felizmente, nos últimos anos, uma mobilização para gestações humanizadas com expectativa de parto natural e opção para o parto domiciliar.

Os especialistas nesse atendimento têm propiciado experiências magníficas às parturientes e contribuem para que haja reafirmação de que o parto é, preferencialmente, um fenômeno de vida num organismo saudável e não um evento cirúrgico indispensável num corpo doente.

A antropóloga Gilda de Castro escreve neste espaço aos sábados



Publicado em: 26/05/2007

fonte: http://www.otempo.com.br/otempo/noticias/?IdNoticia=47766

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